Rafael Nogueira

Historiando Histórias.

Por que a evolução é tão mal compreendida?


O site Universo Racionalista traduziu um artigo do jornal The Guardian intitulado Evolution makes scientific sense. So why do many people reject it?. No texto é apresentando as duas questões psicológicas que levam a evolução ser rejeitada. Nas palavras do jornal: “O primeiro viés é a crença de que as espécies são definidas por uma qualidade interna que não pode ser mudada (essencialismo psicológico), o segundo trata da opinião de que todas as coisas foram feitas com um propósito específico (teleologia promíscua)”

A primeira explicação começa ainda na infância, pois as crianças estão inculcadas com o pensamento de que todas as espécies têm uma “essência universal imutável” que explica por si só as espécies, sem mais. O texto descreve como se dá a questão conforme a idade de uma criança e nos chama atenção da força pedagógica que esse essencialismo psicológico possui. Ela pode por exemplo levar a colocar no mesmo grupo um gato siamês e um gato persa tendo a mesma classificação genérica: gatos. Sabemos que as duas raças pertencem a mesma família, chamada Felidae, entretanto o que importa dentro do essencialismo psicológico é que os dois miam, comem ração de carne e caçam ratos. Essa ideia que prega um caráter determinista nas espécies partindo de uma essência central entra em desacordo com a evolução. Já que um dos resultados da adaptação por meio de seleção natural é que as populações dentro de qualquer espécie se adaptam mudando de uma forma para a outra.

Aqui pode aparecer a famosa pergunta: “Então, se o homem veio do macaco, por que o macaco não evoluiu e virou humano?” O questionamento por mais absurdo que pareça a quem tem um mínimo de noção da evolução ainda é muito comum de ser ouvida por ai. Vamos começar por responder esse argumento do “veio do macaco”. É com certeza o equívoco que mais aparece no senso comum e entre nossos alunos imersos na cultura anticientífica que existe no Brasil.

A postulação é simples se o homem veio do macaco, os macacos atuais deveriam evoluir até virarem homens. Como isso não acontece a evolução é portanto falsa. Primeiro de tudo a evolução em nenhum momento diz que humanos descendem de macacos e sim que possuímos um ancestral em comum com chimpanzés. O erro já consiste em usar o termo genérico macaco para classificar o primata. Continuando, usar esse argumento seria como perguntar: “Se crianças descendem de adultos, porque ainda existem adultos?”. A não ser na ficção como é o caso do livro e do filme “O Curioso caso de Benjamin Button” não temos casos relatados nesse sentido, de adultos que se transformaram em crianças. Existe uma doença chamada Leucodistrofia que devido a problemas genéticos que leva pessoas adultas a terem mentalidade de crianças. Ela é causada pela destruição progressiva da mielina, item importante do sistema nervoso que leva mais rápido os impulsos nervosos. Em resumo é uma anomalia, uma exceção que contudo altera a mentalidade do indivíduo, nada a ver com a evolução física.

Outro erro é achar que os chimpanzés não evoluíram. Mais uma vez o professor Walter Neves chama a atenção para o fato que os chimpanzés vieram de um processo evolutivo. A prova disso é que a há cerca de 2,5 milhões de anos a partir dos chimpanzés comuns surgiu outra linhagem conhecida como chimpanzés pigmeus ou bonobos. Por que isso acontece? Acontece que novas espécies evoluem quando se soltam da sua espécie originária. A espécie estabelecida de onde saiu a nova espécie pode viver de forma indefinida ou ser extinta. Não existe projeto na evolução, se fosse assim linhagens evolutivas não teriam sido extinguidas na história da evolução. Podemos pensar por exemplo no caso dos Neandertais. A complexidade evolutiva pode ser vista no GIF ao final do texto, ele revela o pensamento linear que guia muitas mentes achando que a evolução é um processo histórico. E depois mostra a realidade do processo evolutivo, complexo onde as espécies se reproduzem, sofrem mutações e se adaptam pela seleção natural e como já foi dito a espécie genitora pode ou não sobreviver, como fica claro na animação.

A cada nova evolução de algum modo se diminui outras inovações evolutivas, contudo de modo algum determina um tipo de evolução especifica dentre todas as possibilidades. Reforçamos que não existe projeto definido na evolução. Na mesma linha nem sempre temos uma solução adaptativa perfeita, conforme explica Walter Neves. Diante disso pode-se afirmar que uma ameba jamais terá um braço bem desenvolvido como de um ser humano. Qual a explicação? Uma ameba não possui fixadas na sua linhagem do passado estruturas adaptativas que fixaram em algum momento um membro bem articulado. Logo sua linhagem não apresenta uma historicidade evolutiva que faça com que apareça nela de uma hora para outra um braço funcional. Caso reste dúvidas, lembremos que um braço necessita de milhões de células especializadas. Como a ameba é unicelular, suas inovações evolutivas serão limitadas, por mais mutações que venham a ocorrer.

Depois do essencialismo psicológico temos a visão teleológica promiscua. Nesta perspectiva explicamos todas as coisas com uma função ou um proposito já definido, sobrepondo desta forma a causa dos fenômenos. Quando falamos que uma mesa serve para colocar utensílios ou alimentos em cima dela. Ou as orelhas servem para sustentar os óculos, estamos caindo na teleologia e nem percebemos. Novamente o artigo traz o exemplo das crianças e como elas são mais afetadas por esse tipo de pensamento, para ajudar a explicar seus propósitos, muitas vezes acompanhada do "para que". Eis alguns exemplos descritos pelas crianças: as árvores existem para que os pássaros possam criar seus filhotes. As jabuticabas nascem agarradas ao pé para que não caia e possamos come-las. Os cavalos andam sobre quatro patas para que os homens possam montar em cima deles. Esses são só alguns exemplos até onde a teleologia pode nos levar. O jornal salienta que a teleologia promíscua acontece: “[...] em crianças independentemente de como é a cosmovisão de seus pais, ou da religião ou cultura na qual estão sendo criados.” Engana-se quem pensa que pesquisadores estão imunes a essa explicação. Um exemplo clássico é seria dizer que as abelhas produzem mel para que os apicultores possam depois colher o produto. A evolução não tem meta preconcebida ou um design a ser seguido e alcançado, sequer um propósito final. Quando se deixa levar pelo senso comum da teleologia a hipótese do design inteligente fica mais sedutora e plausível.

Como superar esses limitadores da ciência que dificultam o entendimento da evolução? Uma alternativa é ensinar mais cedo pelo menos conceitos básicos da evolução e gradativamente ir aumentando o nível de análise proporcional a idade.

Referências: NEVES, Walter Alves. E no princípio... Era o macaco! Estudos Avançados, vol. 20, n.58, São Paulo, 2006.

UNIVERSO RACIONALISTA. The Guardian, “Evolution makes scientific sense. So why do many people reject it?” Traduzido e adaptado por Matheus Coelho. Disponível em: https://www.universoracionalista.org/teoria-da-evolucao-faz-sentido-por-que-entao-muitas-pessoas-rejeitam/ Acesso em: 28 mai. 2017.

giphy do evolução humana.gif


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