rapadura com sotaque. imagens e outros olhares...

Inquietações de uma Recifense, advogada e triatleta em São Paulo.

Éricka Gouveia

Humanos ou Androides: Há melhor escolha?

Ex Machina.
Filme inglês que traz à baila a nova-velha discussão acerca da IA entre humanos. Para além da dicotomia entre o bem e o mal, nos faz forçosa e delicadamente reflexões sobre potência, liberdade, autoconhecimento e solidão, nos levando necessariamente a Nietzsche, Deleuze, Freud e Thomas Hobbes.
Afinal, o que é ser " humano, demasiado humano ?" (Nietzsche)
E, como se dá o verdadeiro pensar ?


Ex-Machina-Download-Wallpapers.jpg Todos os direitos reservados a Universal Pictures.

Diante da enxurrada de filmes ora apocalípticos, ora pós apocalípticos ou de zumbis, finalmente veio uma lufada fresca e astuta acerca do tema Inteligência Artificial, contextualizado em um mundo ficcional não tão distante…

Trata-se de um filme Ex Machina do diretor inglês Alex Garland, de ritmo veloz nos diálogos carregados, porém, lento, em sua fluidez de imagens. De primeira, nos deparamos com uma fotografia exuberante das tomadas externas, que se contrapõem aos claustrofóbicos aposentos da mansão de um jovem milionário, gênio em tecnologia, que faz valer um projeto de criar androides com alta capacidade de sentir, de se emocionar e decidir. Enfim, um androide com uma inteligência artificial, equiparável ao ser humano.

Para teste final (chamado Teste de Turing, tipo uma prova cabal, onde há uma suposta ceriticação de que o homem é incapaz de distinguir a máquina do ser humano) .

Nathan simula um concurso em sua própria empresa de tecnologia escolhendo um ainda mais jovem e talentoso programador de softwars, Caleb para passar 7 dias - sim, o filme basicamente se passa em 7 dias - em sua companhia, em contato quase exclusivo com a androide, AVA, para mensurar o quão de humano há ali.

A partir DE ENTÃO, vem à tona inúmeras discussões e um jogo ardiloso, sutil e sedutor entre a androide e seu avaliador Caleb.

Impossível, de imediato, não ser tomado pelas lembranças do clássico ” Blade Runner“, muito embora Ava seja em caráter diametralmente oposta a Rachel. Em comum, ambas enfrentam os mesmos dilemas.

Outro filme que nos assola à lembrança, “ELA”, também envereda pela solidão e vulnerabilidade do homem dos grandes centros urbanos, diante de apelos doces e sedutores de voz máquina, tentando suprir o vazio da existência.

Em Ex Machina, igualmente estas questões estão postas, suscitando grandes dilemas filosóficos, senão vejamos:

- “ Vontade de Potência” - Nietzsche disse que, se um cão corre atrás de um osso ele o faz não por fome, e sim para exercer SUA POTÊNCIA. Exatamente assim se deu com Ava! Tão logo percebeu seu sucesso de sedução junto a Caleb, manifesta de forma obsessiva seu anseio em exercer sua potência, potência esta pura, primitiva e selvagem, através da sua liberdade (outro desejo antológico e atávico do homem) , usando para tal artifícios “ humanos”, como: manipulação, sedução, dissimulação e traição… Ora, nada mais Nietzschiano que Ava e seu plano: conseguir sua liberdade, desbravar o mundo, exercendo sua potência de forma plena e absoluta.

Estaria ela assim se assemelhando ao homem?

O que, talvez, realmente distingue a máquina do homem, senão essa (in)sujeição, (in)subordinação? Essa não subserviência, a não concordância a tudo? O homem, por necessidade social, acaba se sujeitando ao Estado, aos poderes, às leis, à igreja, à escola - biopoder de Foucault.- que tão sabiamente pontifica: "As luzes que descobriram as liberdades inventaram também as disciplinas " Exercer essa potência não seria , no entanto, o desejo de todo ser humano? Aí está o ponto de interseção e o paradoxo, pois, tanto o homem como o robô se submetem, uma vez que se trata de um robô com Inteligencia, à imagem e semelhança do homem. Ele há de transgredir, ao menos ansiar por tal...Eis Ava!

- “ O homem é o lobo do homem” - Freud ,com essas palavras, junto com a visão desencantada e pessimista de Thomas Hobbes acerca da natureza humana, nos coloca em xeque diante da atitude sem moral e sem ética de Ava, em conquistar sua liberdade. Ela, em tempo algum, demonstra arrependimento e/ou compaixão, entretanto, sem o “ medo necessário” tão decantado por Hobbes, teria o homem a mesma construção da noção de moral e ética, tendo ele, o destemor, posto que sabedor de sua infinitude e imortalidade? É, o comportamento de Ava nos faz pensar que sem o "medo da morte" Hobbesniano, o homem seria tal e qual : amoral, antiético, isento de arrependimentos ou compaixão, posto que esta é a natureza humana.

E, exatamente por estes motivos, Ava no desenrolar do filme foi se assemelhando cada vez mais ao homem, com suas paixões, vícios e misérias. - Deleuze e sua (des)territorialização - Caleb, num dado momento, de tão confuso, começa a duvidar de sua própria natureza humana. Encontra-se trancafiado com uma doce androide, terna, sexualizada e por isso sedutora, enquanto ele, carente, inexperiente, sozinho e vulnerável, cria um outro território, um outro espaço, nem liso como o nômade, nem estriado como o sedentário, no conceito Deleuziano. O isolamento diante de um "ser" que transmitia pensar e sentir com verdadeira alma, resultou em uma desterritorialização de Caled . Um novo território naquele ambiente se formou, e ele, em cena marcante, começa a se cortar para ver se flui sangue de sua veias, se ele próprio era humano… É de se notar ainda, uma fala de Nathan -o criador - dirigida a Caled, contemplando uma paisagem bucólica: "UM DIA AS IA's VÃO NOS OLHAR DA MESMA FORMA QUE OLHAMOS PARA FÓSSEIS NAS PLANÍCIES DA ÁFRICA. UM PRIMATA ERETO, VIVENDO NO PÓ COM LINGUAGEM E FERRAMENTAS PRIMITIVAS. TUDO PRONTO PARA A EXTINÇÃO". Mais uma vez, "o homem lobo do homem", desejando, quem sabe, conquistar sua imortalidade através dos IAs. Outro ponto curioso é que este filme parece mesmo a realização proféticas de Jaron Lanier ( "Religião das máquinas do Vale do Silício") que afirma que a Google coleta informações, lê todos os livros existentes, para serem incorporados a um grande computador com IA. Realidade transformada em ficção? ou ficção traduzindo a realidade? Nova versão do "Big Brother", o grande olho que tudo vê e tudo sabe, com o diferencial de se passar em tempos modernos, monitora, guarda e compara, criando um padrão das preferências e conhecimentos. Tudo armazenado, que alimenta um grande androide com inteligência muito mais potente que a humana, que é capaz de ir além de um mero decalque DO HOMEM.

Sem o menor constrangimento ou indagações de questões éticas e morais, tudo é exposto em nome de nosso "avanço" tecnológico.

O fim é quase previsível, um tanto taciturno, o que não desmerece a força e o teor filosófico das questões levantadas, até porque, quem sabe, não ser este nosso fim? Vale a música, a fotografia, a discussão rica e, principalmente, a impressionante beleza, delicadeza e frieza humana de Ava. Paradoxal? talvez...mas, como negar, à luz das ideias dos filósofos aqui abordados, as contradições do homem? as modificações físicas e metafísicas operadas pelo tempo e pela ciência nos seres humanos ou não ? a transitoriedade da vida? a realidade mostra que vivemos num mundo multifacetado e fragmentado, sem muitas certezas e sem grandes verdades!

Afinal, Ava, representa a nossa mais recente e legítima androide humanizada e "demasiada humana".


version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Éricka Gouveia