raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

Cisnes Negros: Jarboe e Michael Gira

Swans é uma banda norte-americana de rock experimental fundada em 1982 por Michael Gira. Quando questionado acerca do nome que escolhera para sua banda, explicou: "os cisnes são criaturas majestosas e de aparência bela, mas com temperamentos realmente horrendos". Em 1986, Jarboe entra em cena, adicionando melodias ominosas e certo lirismo mórbido aos acessos de agressividade e brutalidade de Gira. O restante é história.


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“Caminharei contigo / Através do espaço e do tempo / E quando a hora de dormir se aproximar / Abraçarei-te bem forte / Desaparecerei com você / Em límpidas chamas azuis / E, quando nossa hora chegar, / Deslizaremos através do espaço…”

Os versos acima são de uma canção de amor, “Her”, que Michael Gira – frontman da banda Swans, que, em meados da década de 80, já fazia com que o recém-nascido Heavy Metal parecesse brincadeira de criança – gravou para sua então companheira de banda e de vida, Jarboe. Após tais versos serem cantados por Gira num tom surpreendentemente doce, ouvimos uma gravação de voz amadora feita por uma alegre menina de treze anos, que Michael Gira explicou ser a própria Jarboe.

Gira, nascido Michael Rolfe Gira em 19 de Fevereiro de 1954, certamente deve muito do som inicial do Swans a uma experiência que teve quando jovem: quando era mochileiro e viajava pela Europa, viveu em Israel por um ano e passou quatro meses e meio numa prisão de Jerusalém por vender drogas. Ele comenta que via, repetidas vezes, um garoto de porte frágil ser estuprado por um grupo de homens fortes. Michael Gira passou seu aniversário de dezesseis anos na prisão.

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Jarboe é alguém com quem ainda tomarei um chá da tarde: nascida Jarboe La Salle Devereaux em 30 de Janeiro de um ano desconhecido no Mississippi, Estados Unidos, é filha de agentes do FBI e estudou ópera e órgão Hammond quando criança, incentivada por seus pais – que imaginavam que Jarboe seria uma cantora tradicional, seguindo a linha clássica e operática. Tempos depois, ela estaria explicando para sua mãe que Michael Gira ajoelhado e berrando de forma catártica em palco coisas como “eu sou um covarde, crave sua faca em mim” estava fazendo uma performance, estava cantando. A mãe de Jarboe assistia ao clássico VHS “A Long Slow Screw”, e não entendeu muito bem o que acontecia naquele palco escuro e tomado por montanhas de som abrasivo. Jarboe, que bem cedo já era uma artista por conta própria que gravava suas músicas e as apresentava em galerias de arte, tornou-se um membro do Swans pois havia adquirido certa “obsessão” pela banda, nas palavras da própria, e decidiu ir atrás de Gira – que, por sua vez, respondeu ao chamado dela e ambos começaram a conversar por horas no telefone sobre música, arte, cultura e tudo que estivesse dentro desses temas. Numa viagem para Nova York em Março de 1984, ela se encontrou com Michael Gira pela primeira vez e comenta que a ligação que tiveram foi “imediata”. Ela logo começou a acompanhar os membros do Swans em tour, primeiramente como uma espécie de roadie: sendo vegetariana, de porte atlético, não fumante e não adepta de bebidas alcoólicas, carregava malas e aparelhagem de som por todo canto quando os membros estavam muito bêbados e fora de si para desempenhar tais tarefas. Ela comenta que foi no momento em que ouviu a música “Power for Power”, presente no álbum Filth (1983), que soube que estava destinada a se tornar parte da banda.

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Em 1985, o álbum Children of God marcava uma nova era para o Swans: a influência melódica – por “melódica” não entendam “pacífica” ou “bela”, e sim “melódica” mesmo – e obscura das composições de Jarboe se mesclava a toda a violência e agressividade das composições de Michael Gira, originando um som tão único quanto aterrorizante – no sentido bom da palavra. Em 1986, Jarboe gravou um álbum com o auxílio de Michael Gira para um projeto paralelo de ambos que chamava-se World of Skin. O álbum, denominado Blood, Women, Roses é uma oportunidade para que o ouvinte se familiarize com o estilo que Jarboe levou para o Swans, tanto em termos de melodia quanto em termos líricos. O projeto conta com mais um álbum, Shame, Humility, Revenge, que, por sua vez, foca nas composições e nos vocais de Michael Gira. Jarboe, em uma entrevista, sugere o DVD Live in NYC, que foca em sua primeira apresentação solo em Nova York após o ponto final que Gira deu no Swans – e em seu relacionamento romântico com Jarboe. Ela conta que o próprio estava na arquibancada durante essa apresentação, e, ao término, ele foi até o camarim, a abraçou e disse a ela: “você é uma ótima cantora”.

Atualmente, Jarboe é uma prolífica artista em carreira solo – francamente, a acompanho já faz muito tempo e não lembro de tê-la visto tirar pelo menos um ano de descanso de alguma colaboração ou projeto ou tour ou até mesmo um álbum. Recentemente, Jarboe fez uma participação no álbum The Seer, do Swans – que levou aproximadamente 30 anos para ser feito, nas palavras de Michael Gira, e é uma “fusão” de todos os álbuns anteriores do Swans. Ela conta que, em 2011, foi assistir um show da banda e sentiu-se muito estranha estando na platéia e não no palco, mas, por questão amor ao que um dia fez parte de sua vida, não negou a pequena participação em duas faixas do álbum quando convidada por Gira.

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O álbum Anhedoniac, de 1998, é um must: algo como Björk passeando pelo inferno, repleto de sussurros, gritos, grunhidos e gemidos. Instrumentos exóticos orientam letras capazes de perturbar até o mais familiarizado com músicas perturbadoras – e é uma ótima forma de começar a conhecer o trabalho de Jarboe em carreira solo, juntamente com Blood, Women, Roses. Anhedoniac, ou Anedoníaca, refere-se a “anedonia”, que é o estado de inabilidade em vivenciar prazer, e também é um retrato do estado mental de Jarboe após o término do relacionamento com Michael Gira e a dissolução do Swans. É o primeiro álbum solo de Jarboe pós-Swans, e, se ela queria demonstrar que toda a situação a deixou com muita, muita raiva, obteve êxito. O álbum foi lançado originalmente para uma audiência limitada que recebeu o disco pelo correio, porque Jarboe queria estar em contato direto com as pessoas que iriam consumir aquele conteúdo. O encarte tem fotografias do legendário Richard Kern, que retratam Jarboe exatamente como ela havia ficado: anoréxica, vulnerável, exausta e aprisionada numa situação desagradável. O álbum é fechado com a arrebatadora “I’m a Killer”, uma faixa intensa na qual Jarboe deixa bem claro que possui um domínio excepcional de melodias e consegue criar um crescendo impressionante. Na faixa, ela canta: “então tragam os paus e pedras / os chicotes e correntes / para acariciar meus machucados com ternura / os vergões em vão / a lâmina brilhante / acariciando cortes / abençoados sejam o mijo e a merda / agora venha ungir / eu lambo seu punho raivoso / eu amo seu toque”.

Talvez Michael Gira não goste tanto dessa música quanto eu.


Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria.
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