raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, estudante de Psicologia, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria e tem um caso de amor com a década de setenta

Diamanda Galás, a sacerdotisa da fúria

A artista grega pioneira do estilo musical avant-garde é conhecida principalmente por seu terrorismo vocal e sua atitude provocativa: por muitas vezes, o trabalho de Galás causa uma legítima dor física ao ouvinte, que não consegue terminar de escutar seus álbuns. Em 1994, a artista uniu forças ao baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones, e o resultado, The Sporting Life, já é um clássico


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Diamanda Galás sente raiva. Muita raiva. E ela quer que você saiba disso. Em entrevista, afirmou: “Passei por períodos de depressão severa. Não durmo sem medicação desde a década de 80. Eu não escrevo ficção científica”. Antes de começar a se dedicar de corpo e alma para a música, Diamanda Galás foi prostituta e usuária de drogas na Califórnia durante a década de 70. Afirma que até gostava da carreira, na qual ingressou para conseguir financiar suas ambições musicais.

Tempos depois, concentrando-se em temas como a AIDS – seu irmão, Philip-Dimitri Galás, falecera de complicações decorrentes do vírus, o que provocou na artista uma ira jamais superada –, injustiça, genocídios, doenças mentais e o desespero humano, Galás já possuía ingredientes bastante eficazes para conseguir incomodar e provocar o público. Contudo, quando aliou tais ingredientes ao timbre excepcional e assombroso de sua voz, alcançou um patamar único na escala do desconforto.

Diamanda Galás cresceu isolada de televisões, rádios, escapadas românticas e coisas do gênero: em vez disso, explorava o lado obscuro através da leitura de Nietzsche, Sade, Artaud e Edgar Allan Poe ao lado do irmão. Incentivada pelo pai, começou a estudar piano, mas não cantou até ficar muito mais velha. O motivo? Seu pai não permitia, pois acreditava que o canto era algo “para idiotas”.

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Se uma voz conseguisse ressuscitar os mortos injustiçados para que estes levantassem e pudessem se vingar das mais severas formas, esta poderia ser a voz de Diamanda Galás. É relativamente comum que até mesmo os ouvintes habituados ao que é considerado “inaudível” pela grande massa não consigam digerir, por exemplo, Litanies of Satan: álbum de estréia lançado em 1982 e que conta com apenas duas faixas, “Litanies of Satan”, que é uma versão “musical” do poema de Charles Baudelaire, e “Wild Woman with Steak-Knives”. Durante o curto tempo de execução do álbum, a artista consegue fazer com que o ouvinte descubra como deve ser a programação das estações de rádio no inferno.

Com Diamanda Galás, é necessário que a ideia de profunda dissecação analítica seja descartada, e que o ouvinte se permita sentir a música, como se estivesse sendo conduzido de olhos vendados em um universo feito exclusivamente de sentimentos e sensações – quase nunca agradáveis.

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Em 1990, Galás elaborou uma missa dedicada para as vítimas do vírus da AIDS. O evento foi gravado e lançado com o título “Plague Mass”. Ela definiu o trabalho como sendo “uma documentação do processo da morte lenta em um ambiente hostil”. Citando trechos da bíblia de forma sarcástica e diversos trechos de seus próprios escritos, a missa foi conduzida de forma teatral na Catedral de São João, o Divino, localizada na ilha de Manhattan, em Nova Iorque, por uma Diamanda Galás em transe, seminua e coberta de um líquido vermelho que simulava sangue. Em um festival de música na Itália, membros do governo a denunciaram por blasfemar contra a Igreja Católica Romana. Sua intensidade em palco já levou indivíduos a terem crises de pânico e abandonarem seus concertos.

Bastante interessada no trabalho de poetas que foram exilados, aprisionados, assassinados ou viveram com medo por culpa de regimes políticos rígidos e controladores, Diamanda Galás já transformou em música o trabalho de figuras como Pier Paolo Pasolini, Konstantínos Kaváfis, César Vallejo e muitos outros. Diretores como Francis Ford Coppola, Clive Barker, Oliver Stone e Wes Craven utilizaram a voz de Diamanda Galás em suas obras, e a artista foi comparada com Maria Callas, sua conterrânea. Não que a saudosa Callas e a revolucionária Galás façam a mesma coisa. A comparação se dá quando concebemos o fato de que ambas artistas possuem o poder de inspirar os mais variados sentimentos através da voz.

Após conhecer um pouco de sua carreira solo, talvez seja difícil imaginar um álbum de canções de amor na voz de Diamanda Galás. Mas será tão difícil imaginá-la cantando sobre crimes passionais? Amor homicida? Tortura? Provavelmente não. The Sporting Life, o resultado da colaboração entre ela e o legendário baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones, é isso: uma coletânea de títulos como Skotóseme (Mate-me, em grego) e Devil’s Rodeo (Rodeio do Diabo). Não há distanciamento da agressividade presente em “Plague Mass”. Não existe serenidade em The Sporting Life. Existe revolta e indignação.

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Em “Do You Take This Man?”, Galás utiliza de elementos que remetem aos discursos matrimoniais para estabelecer um violento acerto de contas, e já começa de forma imponente: “Estou muito decepcionada com você / E não lido muito bem com decepções / Eu gostaria de dizer que posso perdoá-lo / Mas eu nunca perdôo, apenas esqueço”. “Sou sua melhor amiga, querido, eu realmente sou, e sempre serei, também”, canta ela ao fim da música.

Na faixa-título, Diamanda Galás utiliza de sua inigualável técnica vocal para criar personas diferentes que discutem entre si sobre como irão torturar e matar um homem, e a música começa de forma bastante simples e direta: “Eu não gosto dele. Vamos matá-lo”, manifesta uma das vozes. Um dos inúmeros pontos altos do álbum, a faixa “Tony”, é um lamento irado: “Meus dentes estão em sua veia / Eu sinto sua dor / Pois no fundo do meu coração / Eu te amo tanto / Não importa para onde você corra / Eu continuo com você / Eu ando pelas ruas à noite / Gritando seu nome”, canta Diamanda em voz surpreendentemente acessível. “Teus olhos estão cheios de esperança / Eu afio minha navalha / Você nunca conheceu dama assim / Mas é de mim que você sente falta”, continua. Para completar o caos, ela admitiu em entrevista: “escrevi Tony para um homem chamado Tony, do qual eu não gosto mais”.

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Mas a excêntrica Diamanda Galás não é uma figura tão inquietante quanto suas músicas. Pelo contrário. Em grande parte de suas entrevistas, ela parece muito bem-humorada, alegre e simpática. Trata-se de uma artista completa e ímpar, com o poder de não deixar espaço para a indiferença e causar reações extremas em quem decidir entrar em contato com seu trabalho.


Raquel Avolio

Escritora, estudante de Psicologia, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria e tem um caso de amor com a década de setenta.
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