raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

Ensaio sobre o ciúme

Destrutivo, caótico e complexo. O ciúme, sentimento humano que leva algumas pessoas ao extremo passional, fazendo com que cometam crimes hediondos ou até mesmo atentem contra si mesmas, não é sempre um sinal de desequilíbrio ou algo que precisa ser corrigido: quando situado em um nível saudável, pode até mesmo trazer benefícios para todos os envolvidos na teia. Entenda um pouco mais a respeito desta emoção dramática, pouco compreendida e difícil de ser controlada


tumblr_nfrqadRxET1r2ph00o1_1280.jpg

Mas eu me mordo de ciúmes...

O espectro das emoções humanas é, sem dúvidas, muito extenso: do amor ao ódio, da satisfação até a decepção, da dor ao êxtase, da timidez até a autoconfiança e muito mais, existem inúmeras outras emoções – algumas delas são intraduzíveis, como Schadenfreude: do alemão, é uma palavra utilizada para designar a satisfação pessoal diante do azar de outrem, ou, em outras palavras, o prazer que podemos sentir ao vermos alguém sofrer. Já Toska, oriunda do russo, foi descrita por Vladimir Nabokov como uma palavra que não possui qualquer possível paralelo em língua inglesa digno de dar conta de todas as suas nuances – é uma sensação de grande angústia espiritual, muitas vezes sem uma causa específica. Em níveis menos mórbidos, descreveu ele, trata-se de uma dor oca na alma, um desejo sem alvo, uma ânsia doentia, uma vaga inquietação, um anseio. Em determinados casos, pode ser causada pelo desejo de alguém ou algo específico, nostalgia, uma doença de amor. No nível mais baixo, transforma-se em apatia ou tédio.

va_pc_2006ap3708_large.jpg

O ciúme, trabalhado de forma definitiva por Shakespeare em seu clássico Otelo, o Mouro de Veneza (c. 1603), talvez seja uma das emoções mais complicadas dentre todas as que conhecemos. Para quem sente, pode ser insuportável; para quem é o alvo, pode ser igualmente insuportável. O sentimento é tão poderoso que consegue aproximar e afastar pessoas, semear e destruir relacionamentos. Mas o que há de tão problemático e extremo no ciúme? O que faz com que algumas pessoas venham a cometer crimes em nome dele? Quando é que ele deixa de ser saudável e natural para ser perigoso e patológico?

A encenação de Otelo na Broadway no ano de 1943 possui um recorde impressionante: é, até hoje, a peça de Shakespeare mais reproduzida de todos os tempos. E, bom, se dizer isso não foi suficiente, reforço que trata-se de um recorde impressionante, tendo em mente que Shakespeare teve todos os seus trabalhos clássicos transpostos para os palcos dos quatro cantos do mundo de forma incansável. Até onde podemos ver, as estatísticas indicam que as pessoas compareceram em massa. Pode-se presumir que algumas se identificaram com o tópico (ou possuíam grande curiosidade acerca dele), o que é algo compreensível, visto que sentir ciúme é algo natural, humano, talvez humano demais. Da mesma forma que não devemos nos envergonhar ao sentirmos alegria, tristeza, orgulho, nojo, culpa, pânico e muito mais, não devemos nos envergonhar quando sentirmos ciúme, pois não há nada vergonhoso em ser acometido por um sentimento inerente ao ser humano.

Mas o ciúme nem sempre é tão natural e saudável quanto deveria ser. A síndrome de Otelo, também conhecida por ciúme mórbido ou doentio, é um transtorno psicológico no qual algumas pessoas acreditam piamente que estão sendo traídas por um parceiro sem qualquer evidência para provar ou justificar o sentimento, que, por vezes, é extremo ao ponto de fazer com que tais pessoas cometam os chamados crimes passionais. Quando não tratada, a síndrome pode levar relacionamentos à ruína e pode ser responsável pela deterioração psíquica de seus portadores. É um transtorno sério que requer não apenas o tratamento adequado (que muitas vezes é feito com auxílio de terapia cognitivo-comportamental e remédios), mas também a compreensão e o apoio de quem convive com o enfermo.

jealousy (1).jpg

Habitualmente relacionado a sentimentos de inadequação, insegurança e preocupação tendo em vista a possível perda de algo de grande valor (muitas vezes trata-se de uma conexão afetiva com outro ser humano), o ciúme é uma experiência típica em relações humanas que consiste em uma combinação de sentimentos primitivos, tais como raiva, aversão e medo. De forma errônea, é ligado com frequência ao sentimento de inveja – que está relacionado, por sua vez, com a cobiça, com a vontade de possuir o que é do outro, enquanto o ciúme está relacionado com a vontade de não perder o que já foi conquistado por si e é de grande estima. No entanto, é bastante compreensível que a relação entre inveja e ciúme tenha sido estabelecida: pode ocorrer dos acometidos pelo ciúme também sentirem inveja, e terminarem sentindo ambas as coisas ao mesmo tempo. Pode ocorrer de, por exemplo, num caso de ciúme romântico, quem o sente cobiçar certas características, qualidades ou particularidades do rival em decorrência de uma profunda sensação de inferioridade.

jealousy.jpg

Há quem sustente a teoria de que o ciúme como o conhecemos é visto em todas as culturas, e há quem acredite que apenas em algumas culturas ele está presente, mas em um aspecto todos parecem concordar: fatores como valores e crenças culturais contribuem para que ele esteja mais presente em algumas culturas do que em outras. A predisposição biológica e fatores situacionais também desempenham importantes papéis na gênese do ciúme.

o-POLYGAMY-facebook.jpg

O surgimento do sentimento quando este é inserido em um contexto romântico, por exemplo, está mais relacionado com a personalidade, crenças pessoais, fatores culturais – tenhamos em mente as sociedades poligâmicas – e a predisposição biológica de cada indivíduo do que quando ele é inserido em um contexto sexual, que pode ser desencadeado quando um elemento X engajado em relações com um elemento Y passa a exibir interesse sexual em um elemento Z. Nesse caso, especialistas acreditam que o ciúme sexual é, de fato, um imperativo biológico, ou seja, pode ser parte de um mecanismo através do qual os seres humanos e outros animais asseguram acesso aos seus melhores parceiros reprodutivos.

hippie_commune_001.jpg

Em termos gerais, o ciúme é o zelo levado ao extremo, o cuidado e o medo de perder que, ao sofrerem uma mutação, tornaram-se uma coisa só e foram temperados com uma quantia (por vezes imperceptível) de egoísmo. O ciúme é o extremo do amor. O amor no limite. E, como diria Sartre, o inferno são os outros.

tumblr_nuomev9vCl1s1s0zko1_500.jpg


Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Raquel Avolio