raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

Karla Homolka: uma história de amor, submissão e morte

Por sua aparência, a canadense Karla Homolka foi comparada à boneca Barbie. No entanto, sua união afetiva com Paul Bernardo revelou o que havia de mais perverso na mulher de aparência angelical. Karla e Paul estavam muito longe de ser um casal perfeito: a aparência atraente da dupla mascarava psiques extremamente problemáticas e desequilibradas, que, quando combinadas, resultaram em tragédias que não são passíveis de esquecimento


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Certa vez, Karla Homolka guardou em um de seus cadernos um bilhete para consultas futuras. No papel, lia-se:

“Nunca deixe ninguém saber que nossa relação não é absolutamente perfeita. Não retruque quando Paul falar. Sempre sorria quando estiver com Paul. Seja uma namorada perfeita para Paul. Se Paul pedir uma bebida, traga-a logo e de boa vontade. Lembre-se de que você é burra. Lembre-se de que você é feia. Lembre-se de que você é gorda. Não sei por que lhe digo essas coisas, pois você nunca vai mudar.”

A psicopatia é um assunto delicado e complexo, talvez delicado e complexo demais para ser descrito com precisão em um texto relativamente curto, e, portanto, creio ser interessante simplificar minha explicação do tópico ao máximo: psicopatas são, em suma, indivíduos que possuem um transtorno de personalidade de ordem gravíssima, cujos sintomas manifestam-se ainda na infância: da ausência de sentimentos como vergonha, culpa e remorso até a turbulência em relacionamentos interpessoais, da irresponsabilidade em níveis estratosféricos até o hábito de mentir em qualquer circunstância, são seres humanos vítimas de uma afecção mental que pode produzir consequências desastrosas, e desafia qualquer possibilidade de cura.

Necessitam de acompanhamento médico adequado, e, muitas vezes, precisam até mesmo de um monitoramento diário: medidas que são aconselháveis para que o desequilíbrio não impulsione os mais variados tipos de crimes, incluindo atentados violentos contra o bem estar alheio e contra si mesmos. Egocêntricos e frios, indivíduos que sofrem da doença também possuem uma profunda falta de empatia para com outros seres, o que faz do ato de matar algo não muito difícil ou exigente. É nesta categoria que, muito provavelmente, a serial killer canadense Karla Leanne Homolka está enquadrada.

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É um caso excepcionalmente complexo, que até hoje suscita dúvidas e divide estudiosos da área: de um lado, há os que acreditam que a atraente jovem foi apenas uma das vítimas de um homem abusivo e controlador, que veio a ser seu marido; de outro lado, há os que acreditam que ela é tão perversa e culpada quanto ele, e desempenhou um papel de suma importância em três dos mais hediondos crimes da história do Canadá.

Em Outubro de 1987, com apenas dezessete anos, Karla conheceu Paul Bernardo, e foi amor à primeira vista. Ela descreveu o homem para sua família e amigos próximos como “incrivelmente bonito”, e exaltou o fato dele estudar para ser contador. Paul conquistou com facilidade a família Homolka, o que incluía não apenas a mãe e o pai de sua mais nova namorada, mas também as irmãs de Karla, Tammy e Lori. Não era, na verdade, um homem muito vulnerável a críticas negativas: da aparência impecável e os modos exemplares até a carreira para a qual se dedicava com paixão, Paul fez com que o casamento anunciado em 1990 soasse, para todos os que conheciam o casal, como um tipo de sentença de felicidade. Felicidade que, real ou não, duraria pouquíssimo tempo.

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O casamento de Karla e Paul estava marcado para Junho de 1991, e, pouco tempo antes do evento se concretizar, a família Homolka receberia notícias trágicas. Na véspera do Natal, a irmã mais nova de Karla, Tammy, de dezesseis anos, morreu do que o médico legista descreveria como “causas acidentais”. Profundamente abalados, os pais da menina sequer suspeitaram de que o “acidente” não havia sido um “acidente”, e sim um crime brutal que fora planejado, calculado e executado por ninguém menos que o encantador genro e a irmã mais velha da vítima. Casaram-se mesmo assim, numa cerimônia pomposa e idílica, e Karla fez comentários sobre estar impaciente com o fato da morte de Tammy ter “abalado” um pouco o clima de comemoração e júbilo que cercava seu tão esperado casório. Duas amigas que vestiram Karla para a festa notaram uma quantia alarmante de manchas roxas espalhadas pelo corpo da noiva.

Em Junho de 1991, Leslie Mahaffy, uma adolescente de Ontário, saiu de casa para ir ao velório de três amigos que haviam morrido num acidente de carro. Passara mais tempo fora de casa do que o habitual, e estava ciente de que levaria uma bronca de seus pais por isso. Ligou para uma amiga para pedir ajuda, mas a mãe de sua amiga atendeu a ligação e disse para que Leslie “enfrentasse as consequências de seus atos”. A menina seguiu o conselho. Em vez de se esconder na casa da amiga, foi para casa – e desapareceu durante o percurso. Em Abril de 1992, outra adolescente desapareceu. Kristen French seguia para casa a pé, após sair da escola. Ao passar por um estacionamento, avistou um carro Nissan com uma mulher atraente na direção. A mulher pediu informações, mas, poucos momentos depois, Kristen se viu ameaçada por um homem que, além de imobilizá-la por trás, portava uma faca. Ambas as garotas haviam sido vítimas dos crimes de Paul e Karla.

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Em 1990, Paul havia mencionado pela primeira vez que gostaria de fazer sexo com outras mulheres, ênfase em adolescentes. A polícia entrou em contato com ele no mesmo ano para conseguir uma amostra de DNA em virtude da investigação de uma série de estupros que ocorreram em sua cidade natal, Scarborough, começando no ano de 1987. Nada relevante foi concluído e nenhuma investigação mais profunda foi estabelecida. Karla Homolka declarou que, desde os primórdios de seu relacionamento com Paul Bernardo, ela havia sido vítima de sua personalidade volátil, de seus ataques de fúria – que quase sempre terminavam com violência física – e das mais diversas formas de humilhação, envolvendo de sua família e amigos até sua aparência e trabalho. Karla diz que foi espancada pela primeira vez no ano de 1988, mas a situação só assumiu ares preocupantes quando, em 1990, Paul a esmurrou, chutou e espancou em inúmeros ataques, cada vez mais intensos e brutais. Há os que se perguntam: bom, então por qual motivo ela não abandonou esse homem e tentou recomeçar a vida em outro lugar, tornando público o fato de que era abusada? Não é uma pergunta de fácil resposta.

Grande parcela da trajetória de Karla é um tanto obscura e confusa, sempre passível de levantar porquês. Em diversos momentos, ela teve a oportunidade de pedir ajuda ou simplesmente desaparecer da vida de Paul, mas optou por ficar ao lado dele, e desempenhar o papel que lhe foi designado mesmo sabendo que seu marido não era o bom moço que todos acreditavam que fosse. Mesmo sabendo que estava casada com um estuprador, com um assassino frio, não contatou a polícia e não se confessou para amigos ou familiares: ela preferiu tomar parte nos crimes, e tinha legítimo interesse em saciar todos os desejos do marido sádico. Ela comentou: “Ele costumava dizer que o motivo de eu ter a aparência que tinha era ele. Dizia que eu não era nada sem ele e me xingava. (...) Fazia com que eu me sentisse totalmente dependente dele”.

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Um vídeo feito por Paul Bernardo momentos antes da irmã mais nova de Karla morrer mostra o estupro da adolescente e um Paul profundamente depravado ordenando para que Karla também praticasse inúmeros atos de cunho sexual com a própria irmã desacordada. Embora ela seguisse as ordens, aparentava não estar muito confortável, e não sorria – mesmo quando Paul mandava. Ele se irritou com essa recusa, e Karla foi espancada por isso. Nas fitas de vídeo que mostram o estupro das duas outras adolescentes, Leslie e Kristen, Karla aparece sorrindo, e afirmou que só fez isso para agradar o marido e prevenir outro espancamento.

Em Janeiro de 1993, Karla Homolka decidiu terminar o relacionamento com Paul Bernardo. Karla comentou que, após a primeira tentativa de deixá-lo, em 1992, seguiu-se um período negro: suportou vários espancamentos e humilhações, incluindo um episódio mórbido no qual Paul a obrigou a dormir sozinha no porão da casa, onde estava o cadáver da adolescente Kristen French. Tais martírios, diz ela, duraram até o dia em que decidiu ir embora de verdade. Após abandonar Paul Bernardo, foi examinada num hospital para verificar se não possuía algum osso fraturado e para tratar as contusões e fortes dores que sentia.

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Em Fevereiro de 1993, Karla Homolka foi interrogada na casa de tios, onde havia decidido ficar após sair da casa que dividia com Paul Bernardo. Pouco antes do fim do interrogatório, a polícia informou-a de que o marido estava prestes a ser preso por diversos crimes de ordem sexual. No dia seguinte, Karla imediatamente entrou em contato com um advogado e começou a detalhar até onde ia sua participação nos assassinatos. Em troca de uma pena menor, ela apresentou provas contra o marido: Bernardo foi preso em Fevereiro de 1993 por ser o responsável pelos assassinatos e estupros cometidos em Scarborough, e Homolka, em Julho de 1993, recebeu a sentença de doze anos na prisão pelos dois assassinatos após um julgamento breve. Depois de cumprir três anos, ela teria condições de pedir a liberdade condicional.

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O juiz resumiu o julgamento dizendo que, embora o envolvimento de Karla fosse inegavelmente condenável, ela não era a vilã da história, e não teria desempenhado tal papel abominável caso não estivesse sob influência do marido. John Rosen, um dos encarregados de interrogar Karla, disse: “Você está vivendo com alguém que detesta e fala em sequestrar uma menina na rua, e, apesar disso, você não corre para a delegacia de polícia e diz: ‘Estou vivendo com um maníaco e vocês precisam detê-lo antes que mais alguém se machuque’”. Paul Bernardo foi condenado à prisão perpétua sem qualquer chance de liberdade condicional antes de cumprir o mínimo de vinte e cinco anos na prisão.

Karla Leanne Homolka foi solta em Julho de 2005. Hoje é casada com um homem chamado Thierry Bordelais, irmão de seu advogado de defesa, com quem tem três filhos: Noah, Aurelie e Loic. Ela agora atende por Leanne Bordelais.


Raquel Avolio

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