raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

O presente de aniversário de Sylvia Plath

Sylvia Plath, escritora norte-americana transformada em ícone após sua morte trágica, é autora de Ariel, uma das coletâneas poéticas mais importantes e influentes do século XX. Plath não poupou o leitor de sua poesia de ter uma visão ampla dos aspectos mais íntimos de sua vida: através de breves análises de sua obra poética confessional, podemos conhecer muito sobre uma mulher intensa, instável e atormentada, mas, acima de tudo, à frente de seu tempo.


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Sylvia Plath e sua imagética ominosa ocupam um lugar de destaque em minha lista de inspirações literárias. Em Ariel, sua cultuada coletânea clássica, um poema em especial chamou minha atenção: A Birthday Present, ou, em tradução imediata, Um Presente de Aniversário, é o que considero um dos exemplos máximos de seu amplo domínio do aspecto visual da poesia. Por ter uma imaginação predominantemente visual, costumo gostar de obras que estimulem tal característica em mim – e, em minha opinião, ter boas fontes de inspiração nunca é demais.

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No poema em questão, somos apresentados a um título um tanto misterioso: o que será o presente de aniversário? Para quem é o presente de aniversário? Quem dá o presente de aniversário?

Todas essas questões provocam a imaginação e causam certa curiosidade, como se a intenção do título fosse, de fato, atrair o leitor para dentro do poema, seduzir sua curiosidade até que ela se renda. No entanto, se engana quem tira a conclusão precipitada de que tal poema é algum tipo de canto de júbilo pois o título remete a algo que é essencialmente agradável: logo de início, Plath mostra-se tão confusa com o “presente” quanto o leitor curioso: “O que é isto, atrás deste véu, é feio, é bonito?”, questiona ela no primeiro verso. Ao longo do poema, somos bombardeados por imagens assustadoras e densas, todas remetendo ao ato de morrer – e morrer voluntariamente, de forma consciente, precisa e metódica, pelas próprias mãos: “Façamos nele nossa última ceia, como prato de hospital”, “O mundo subirá num guincho, e junto sua cabeça / Em relevo, brônzea, um escudo antigo / Maravilha para seus bisnetos”.

Aprisionada pela rotina e pelas tarefas que precisa desempenhar (“É esta a eleita, com olhos fundos e cicatriz? / Medindo a farinha, cortando o excedente / Aderindo a regras, regras, regras. / É esta que fará a anunciação? / Meu deus, que piada!”), Plath assume uma voz um tanto debochada e sarcástica ao longo do poema, um tipo de sarcasmo autodepreciativo e corrosivo que demonstra sua plena insatisfação consigo mesma e com a vida que leva. Ela se mostra exausta em decorrência de um cotidiano pautado em tentativas de desempenhar seu papel com perfeição. Ainda no início do poema, fica claro que o presente misterioso de aniversário não é mais um ano de vida, e sim a própria morte, e que Sylvia sente-se assombrada, atraída e até mesmo conectada com ela: “Mas ele cintila, não pára / acho que me quer. / Nem ligaria se fossem ossos ou um botão de pérola”. Plath informa ao leitor de que não se importa se a morte for algo além do que conhecemos ou o nada, ela simplesmente quer morrer: “Não pode dá-lo para mim? / Não se envergonhe, não ligo se for pequeno. / Não seja mesquinho, estou pronta para a imensidão.”. Ela chega a confessar que já atingiu um ponto no qual não espera sequer a possibilidade de ganhar a morte de presente: “Não espero muito de um presente esse ano. / Afinal, estou viva por acidente”.

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A Birthday Present é um poema obscuro e dramático, no qual Sylvia Plath praticamente implora ao leitor – ou melhor, nesse caso, ao ouvinte – que dê a morte para ela como um presente, que permita que ela morra, tudo isso enquanto tenta justificar que morrer é o melhor que poderia lhe acontecer. Ela convida o ouvinte-leitor a admirar a morte com ela, num tipo de culto de adoração macabra: “Sentemos, um de cada lado, admirando o brilho / O vidro, sua variedade espelhada”. “Apenas vou pegá-lo e me afastar em silêncio. Você nem vai me ouvir abrindo-o, nem barulhos de papel / Nem fitas pelo chão nem gritinhos no fim.”, confessa. Sentindo que o outro pode se recusar prontamente a deixá-la tomar tal decisão, ela enche o poema de versos que tentam assegurá-lo de que ela está certa do que quer e ele não terá que lidar com uma morte caótica, como: “Você não crê que posso ser discreta”, “Você está aterrorizado”, “Não tenha medo, não é bem assim”, “Hoje só uma coisa desejo, e só você pode dá-la para mim.” Ela não quer esperar até que a morte venha natural e lentamente, não quer ter que esperar até “a hora certa” chegar, não quer nada além de ser presenteada com a permissão de dar fim para a própria vida: “Que não venha pelo correio, de mão em mão. / Que não venha de boca em boca, eu teria sessenta anos / Quando ele fosse inteiramente entregue, entorpecida demais para usá-lo.”.

Ao longo do poema, também percebemos que Plath conecta imagens puras e inocentes com a morte: “Os cetins diáfanos de uma janela em janeiro / Brancos como lençóis de bebês”, “E a faca não cortaria, mas entraria / Pura e limpa como choro de bebê, / E o universo fugiria de mim.”.

Para tornar a situação ainda mais macabra, o método de suicídio escolhido por Plath no poema é o método de suicídio escolhido por Plath na vida real, e ela chega a descrever sua morte com lucidez: “Mas – meu Deus, as nuvens são como algodão – / Exércitos delas. São monóxido de carbono. / Suavemente, suavemente as inspiro / Enchendo minhas veias com invisíveis, milhões / De prováveis partículas que marcam os anos da minha vida.”

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Aqui você pode ouvir uma gravação do poema para a BBC em 1962.

Ariel é como o canto de cisne de Sylvia Plath, e, muito provavelmente, A Birthday Present é um dos atos mais emblemáticos desse canto.


Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria.
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