raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

Para te trazer o meu amor: PJ Harvey e o martírio de amar

“Rejeitei o paraíso / amaldiçoei Deus / deitei com o diabo / para te trazer o meu amor”, canta PJ Harvey na faixa que dá título ao álbum “To Bring You My Love”, de 1995. A cantora inglesa sempre teve o hábito de assumir personas ao lançar álbuns, como uma atriz de teatro trocando de papel. Neste trabalho intenso, somos apresentados a uma mulher que conhece o lado negro do amor


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No auge da década de 90, a Q Magazine elaborou uma matéria intitulada Hips, Lips, Tits, Power. O título curioso vinha seguido pelos nomes de PJ Harvey, Björk e Tori Amos, e a matéria era ilustrada pelos frutos de uma sessão de fotos memorável entre três das mais emblemáticas vozes femininas da época. Björk, a islandesa criativa de voz ímpar, Tori Amos, desbravadora do universo do confessionalismo lírico ao abordar eventos traumáticos como seus pensamentos durante um estupro na canção acapella “Me and a Gun”, e PJ Harvey, talvez a mais misteriosa das três mulheres, com uma energia que parecia ser resultado de mistura explosiva entre violência, dor, sexo e amor, e a recusa veemente – que persiste até hoje – de ter sua obra vista como algum tipo de tratado autobiográfico.

Um relacionamento relâmpago com o australiano Nick Cave tomou forma na época, e PJ terminou sendo a inspiração para metade das músicas de um dos álbuns mais melancólicos do príncipe das trevas e sua trupe: The Boatman’s Call, de Nick Cave & The Bad Seeds, que conta com a faixa “West Country Girl”, uma descrição nada velada de Polly Jean. Quem terminou de coração partido foi Nick Cave, que soa bastante ressentido ao cantar “Her lovely lidded eyes I've sipped / Her fingernails, all pink and chipped / Her accent which I'm told is "broad" / That I have heard and has been poured / Into my human heart and filled me / With love, up to the brim, and killed me”. Além disso, o encontro entre os artistas rendeu também a incrível canção “Henry Lee”, um dueto presente no tão mórbido quanto genial Murder Ballads, álbum de Nick Cave que trata de, naturalmente, canções de amor homicidas.

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Durante a década de 90, rumores de que Polly Jean Harvey sofria de um transtorno alimentar surgiram, e ela jamais discutiu o tópico de forma pública. Com seu físico fragilizado, a inglesa que parecia tímida e contida em entrevistas alternava entre fúria feminina e sussurros por clemência em palco, assumindo uma persona teatral que mesclava a vulnerabilidade com a obsessão, cantando como se estivesse de joelhos e pedindo socorro num primeiro momento, mas, logo após conseguir o socorro, resolvesse assassinar seu salvador, que terminava por ser seu carrasco usando um disfarce.

PJ Harvey é conhecida não apenas por seu talento como musicista, mas também por assumir personas. O álbum To Bring You My Love parece ser o manifesto de uma mulher torturada, mas que também tortura, e dialoga com seu antecessor, o agressivo e cômico Rid of Me, de 1993, em diversos momentos. Apresenta um aspecto até então inédito na carreira de Polly Jean: a incorporação de elementos do universo feminino em sua persona, como maquiagem, saltos altos e vestidos curtos. Tais elementos fazem uma aparição em álbuns que viriam depois, como Stories from the City, Stories from the Sea, de 2000, e Uh Huh Her, de 2004, mas com uma intensidade mais branda e controlada. Talvez a intenção de PJ tenha sido essa: exagerar, porque a loucura não costuma fazer amizade com a moderação, e o eu lírico das canções em To Bring You My Love não está, nem de longe, agarrado ao equilíbrio.

A tormenta é narrada já na primeira faixa, homônima, na qual Polly Jean parece fazer o eu lírico emergir da dor para contar sua jornada, com a certeza de que já fez muito pelo ente amado: “Climbed over mountains / Travelled the sea / Cast down off heaven / Cast down on my knees / I've laid with the devil / Cursed god above / Forsaken heaven / To bring you my love”.

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Em “C’mon Billy”, “Teclo” e “Send His Love To Me”, PJ Harvey parece implorar para que sua necessidade de amor seja saciada de uma vez por todas, porque o sofrimento se tornou insuportável. Mas talvez ela precise de outra coisa, e não do amor do objeto em questão nas músicas: é provável que a paz da narradora seja atingida apenas através da libertação do sentimento obsessivo, como fica claro em “Send His Love To Me”: “Oh, wind and rain they haunt me / Look to the North and pray / Send me, please, his kisses / Send them home today” ela canta, mas pouco tempo depois parece se corrigir e ansiar pelo que realmente precisa: “Oh lover please release me / My arms too weak to grip / My eyes to dry for weeping / My lips too dry to kiss”.

Outro destaque fica em “Down by the Water”, canção que narra o drama de uma mãe que, num lapso de insanidade, afoga a própria filha: “Oh help me jesus / Come through this storm / I had to lose her / To do her harm / I heard her holler / I heard her moan / My lovely daughter / I took her home / Little fish, big fish, swimming in the water / Come back here, man, gimme my daughter”. Em entrevista, PJ Harvey comentou que alguns ouvintes possuem o hábito de relacionar a obra de um artista com a vida pessoal, e criticou o fato de que, na época de seu lançamento, “Down by the Water” levou alguns indivíduos a levantarem a hipótese de que talvez Polly Jean pudesse ter dado à luz e afogado a criança.

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O apogeu do álbum se dá no fim, durante “The Dancer”. PJ Harvey parece atingir o legítimo desespero na última faixa do álbum, desespero que, quando aliado ao delírio ao qual a narradora parece ter sucumbido, faz de To Bring You My Love uma experiência singular, e, para os que chegam despreparados ao universo de amor e sofrimento, assustadora. O álbum termina, e a protagonista dos dramas passionais não encontra o fim de sua tormenta.

Um dos momentos mais pungentes ocorre quando PJ Harvey canta, ou implora, “traga paz ao meu coração negro e vazio”, e então finaliza a jornada por este inferno da obsessão, da loucura e do amor disfuncional sem uma ascensão aos céus.


Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria.
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