raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

O cinema mainstream e a romantização dos transtornos mentais

A problemática que envolve a indústria cinematográfica e questões de saúde mental é pertinente. Já passou da hora de falarmos um pouco sobre a representatividade (e a romantização) dos mais diversos transtornos psiquiátricos no cinema mainstream


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É tudo ficção. Por mais que algumas das histórias sejam baseadas em fatos reais, em pessoas reais, é tudo ficção a partir do momento em que um diretor toma a liberdade de orientar e filmar atores. A história não se desenvolveu daquela forma, o que sucede na tela é uma dramatização, é o ato de revisitar em sua mais plena forma. Isso é cinema. E não há nada de errado nisso. No entanto, ao rever alguns dos meus filmes favoritos do cinema mainstream, a conclusão foi inevitável: através do olhar sofisticado e criativo de certos diretores, algo tão complexo quanto o suicídio e tão dramático quanto o autoflagelo pode parecer poético, belo e até atraente. Foi aí que concluí que, sim, isso é um problema. Dos grandes. Infelizmente, ele não para nesse ponto. Ele piora.

Quando Daisy Randone, personagem da falecida Brittany Murphy em Garota, Interrompida, comete suicídio, Susanna Kaysen, interpretada por Winona Ryder, encontra o corpo enforcado no banheiro e fica em estado de choque. O corpo em questão encontra-se penteado, metido em um sofisticado roupão amarelo e pende delicadamente para os lados num movimento involuntário. The End of The World, a balada clássica e melancólica de Skeeter Davis, é a trilha sonora da cena. Susanna chama uma ambulância. Em dado momento, senta no chão e chora. A música continua tocando. Não fosse pela atuação verossímil de Murphy durante todo o filme, pode-se dizer que não há qualquer indício de que, naquele apartamento, vivia sozinha uma pessoa deprimida, debilitada, com distúrbios alimentares e severas tendências autodestrutivas. No entanto, a cereja no topo do bolo fica com o aconchegante hospital psiquiátrico para o qual Susanna é enviada. Admito que, ao ver o filme pela primeira vez, desejei que um lugar tão legal quanto aquele pudesse existir de verdade, porque os hospitais psiquiátricos da vida real não são bem o tipo de lugar no qual você e sua amiga interna tocam violão escondido e cantam pelos corredores de madrugada. O filme, que rendeu um Oscar para Angelina Jolie, é baseado no livro de memórias de Susanna Kaysen, que, por sua vez, realmente viveu maus bocados da década de 60 ao ser diagnosticada como portadora do transtorno de personalidade Borderline e internada numa clínica psiquiátrica.

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Em As Virgens Suicidas, adaptação esteticamente impecável do romance de Jeffrey Eugenides, Sofia Coppola, a rainha dos filmes adocicados, faz com que tudo atinja um novo nível na escala do peculiar quando levamos em consideração que, neste filme que abusa dos elementos graciosos da juventude e dos tons pastéis, todas as protagonistas principais, as irmãs Lisbon, tem tendências suicidas, desconhecem a autonomia e vivem num ambiente claustrofóbico, marcado pelas relações de controle e dominação com seus superiores. Ainda assim, as irmãs estão sempre impecavelmente arrumadas, aparentam desconhecer sofrimentos terrenos e possuem uma aura enigmática de sedução e mistério que é suficiente para enlouquecer os meninos da vizinhança. O filme se inicia, devo ressaltar, com uma cena que faz a tentativa de suicídio da mais jovem das irmãs parecer algo tão bonitinho quanto heroico e indolor. É um ótimo filme, e, mesmo assim, não deixa de ser problemático em toda a sua sutileza. Me pergunto quantas jovens no apogeu dos conflitos da adolescência não pensaram em fazer o mesmo após terminarem de assistir ao filme, afinal, uma solução tão simples como aquela não pode estar errada, certo?

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O perigo da romantização do suicídio é amplo. Incentivados por cenas que retratam o ato como uma espécie de glorioso último ato, indivíduos com tendências suicidas sentem-se compelidos, caem em tentação. Há beleza na tristeza, no sofrimento e nas angústias existenciais que acometem (talvez mais vezes do que o necessário) as almas mais sensíveis, e ouso dizer que talvez exista ainda mais beleza na tristeza do que na alegria, mas isso não é uma justificativa para fazer com que as agruras vividas por personagens desequilibrados pareçam atraentes. A dor não é objeto de desejo ou culto. No cinema mainstream, há ainda um padrão que já se tornou a receita instantânea para a construção de roteiros e a subsequente produção de filmes que abordam os transtornos mentais: personagens invariavelmente enquadrados no antropo-ideal estético passam por dificuldades, sofrem, encontram o verdadeiro amor ou uma outra razão para viver, o sofrimento cessa, eles aprendem A Lição (há sempre uma espécie de lição a ser aprendida nesses filmes) e triunfam, vencendo as adversidades (vide O Lado Bom Da Vida, adaptação do romance homônimo de Matthew Quick, estrelando Jennifer Lawrence e Bradley Cooper). A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Seja como for, a vida não costuma ser assim.

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Por outro lado, os filmes que ficam mais distantes do universo mainstream conseguem captar com êxito a dimensão dos conflitos que se propõem a retratar. Cito como exemplo o quase desconhecido La Influencia, filme do diretor espanhol Pedro Aguilera, que conta a história de uma mãe solteira, atormentada pela depressão e pela crise financeira em seu país. Outro exemplo poderia ser o sombrio O Sétimo Continente, do austríaco Michael Haneke, baseado em um evento real e trágico (o suicídio coletivo de uma família de classe média) que invadiu os noticiários quando da época de seu acontecimento. Em ambos os filmes, a dureza com a qual as tormentas pessoais dos personagens são retratadas faz com que você jamais tenha vontade de experimentar aquilo na própria pele. Há também o desconcertante Miss Violência, do grego Alexandros Avranas, que conta a história de uma família bastante disfuncional a partir do momento em que uma das filhas comete suicídio. Enquanto isso, em filmes como As Virgens Suicidas, o telespectador sensível chega ao ponto de admirar as personagens, e a delicadeza que domina cada cena torna-se incompatível com o teor dramático do que o filme tenta abordar.

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Em Control, cinebiografia de Ian Curtis, líder do Joy Division, Sam Riley interpreta o jovem rebelde e talentoso que é vítima de uma doença que o deixa ainda mais deprimido que o habitual, e, quando somada ao abrupto estrelato que vinha pairando ao redor da banda e todas as pressões da vida em família, é suficiente para fazer com que Curtis tenha um fim trágico. Há uma cena específica, na qual Riley acende um cigarro na rua e então anda de costas para a câmera trajando uma estilosa jaqueta estampada com a palavra “HATE” (ódio). É inegável que o fotógrafo e diretor Anton Corbijn faz um excelente trabalho ao deixar bem claro que todos nós, em algum ponto de nossas vidas, tivemos ou teremos vontade de possuir ao menos uma fração do carisma e do magnetismo que o ator exala naquele momento.

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Todos os que já viveram a depressão e outros transtornos mentais na própria pele podem afirmar que, durante uma sessão de automutilação, a música só toca se você se der ao trabalho de colocá-la. No ápice de uma crise depressiva, você não pensa em roupas bonitas, higiene corporal e cabelo penteado, você pensa apenas em sobreviver ou desistir, e é válido ressaltar que a sobrevivência em sua forma mais crua pode ser algo muito, muito feio. Quando concluí que alguns de meus filmes favoritos possuem o potencial para fazerem com que doenças mentais pareçam atraentes, imaginei que, muito provavelmente, tais filmes já transmitiram para algumas pessoas a ideia errada do que é a depressão, o suicídio, os transtornos de personalidade e de humor e muitas outras afecções graves.

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Também há o problema dos finais extremistas: um deprimido que faz uma maratona de filmes como esses pode ficar com a sensação de que sempre há apenas duas saídas para o sofrimento individual: ou ele viverá feliz para sempre ao vencer a doença ou precisará morrer para se libertar de toda a dor, mas, como prega o budismo, a alternativa correta para a libertação é a prática do distanciamento de soluções extremistas. Conseguir se equilibrar no meio-termo é a chave para uma vivência livre do caos. Somos impressionáveis durante a juventude, e estar em contato com tantos ícones cultuados que tiveram seus fins trágicos adaptados de forma a parecerem heroicos é algo um tanto perigoso, uma potencial alavanca para os hipersensíveis, que, cegos de fascínio e encanto, podem se inspirar além da conta.


Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria.
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