raquel avolio

Minha alma canta e dança enquanto meu coração bombeia poesia

Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria

Bates Motel, uma história de amor

No prólogo moderno para o clássico de horror imortalizado por Alfred Hitchcock, vemos uma Norma Bates ferida, vulnerável, capaz de inspirar compaixão e empatia, e um Norman Bates traumatizado e problemático. A relação simbiótica de mãe e filho dá origem a um romance trágico e, por que não, belíssimo


ATENÇÃO: O texto contém spoilers.

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No romance de Robert Bloch que cativou Alfred Hitchcock e o levou a adquirir todos os três mil exemplares disponíveis nas livrarias para então trancá-los num galpão no intuito de ocultar do público o final da história, Norma Bates é vilã.

Inteiramente responsável pelos problemas psicológicos que levam Norman, seu filho, a se tornar um dos mais notórios assassinos em série da ficção, Norma foi originalmente concebida como uma personagem manipuladora, instável, perversa e dominadora. Sua sede por controle a conduz ao extemo de querer que o filho abdique de uma existência no mundo exterior e passe a existir apenas no universo que só é grande o suficiente para comportar mãe e filho, o que faz com que a dinâmica da relação entre ambos ultrapasse os limites do que entendemos como “socialmente aceitável”.

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Alfred Hitchcock optou por conservar Norma no posto de vilã no icônico Psicose (1960), um marco do cinema que viria a influenciar e pavimentar o caminho para a criação de diversas outras obras do gênero.

Com uma atmosfera sombria e ominosa, Psicose é um dos poucos filmes de horror clássicos que permanece tão perturbador quanto deve ter sido na época de seu lançamento. Anthony Perkins dá vida a um Norman Bates perigoso e delirante, roubando a cena a cada instante em que aparece na tela. Ao estudarmos sua performance bastante convincente ao retratar um homem que é brutalmente torturado pela própria mente, é difícil, se não impossível para alguns, imaginar que Freddie Highmore, o Charlie, adorável menininho ganhador do ticket dourado para visitar a fábrica de chocolates de Willy Wonka em A Fantástica Fábrica de Chocolates (2005) viria a assumir seu lugar muitas décadas depois.

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A proposta da brilhante série televisiva que é Bates Motel é muito simples: mostrar para o público os anos de formação de Norman Bates, sua juventude, sua relação com a mãe e com a família (como sabemos, a relação de Norman com a família não é explorada no filme ou no livro). As perguntas que a série faz ao espectador são diretas: o que foi responsável por criar o Norman Bates que conhecemos? Por qual (ou quais) motivos ele é assim? O que deu errado? A culpa é da mãe? Ele é mau ou apenas louco? A boa notícia é que, para cada uma dessas perguntas, obtemos uma resposta satisfatória.

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A carismática Norma Bates de Vera Farmiga pode ser, como Norman a descreve na quarta temporada da série, “frágil, assustada e pequenina como um passarinho”, mas também pode ser um verdadeiro tour de force. E quase todas as mães não são assim?

Para lidar com sua imensa bagagem de traumas e dores pessoais, Norma constrói uma barreira ao redor de Norman, na intenção de protegê-lo dos terríveis males do mundo e não permitir que ele sofra tanto quanto ela sofreu – uma gama ampla de abusos físicos e psicológicos capaz de deixar o mais durão dos espectadores de queixo caído. Norma nega para si mesma e para os outros tudo que tem potencial para lhe causar dor (o que inclui o fato de que seu filho, Norman Bates, é portador de graves distúrbios psicológicos e precisa receber ajuda). Esse é um de seus principais (e mais danosos) mecanismos de defesa. Norma Bates acredita que o amor que sente pelo filho será capaz não apenas de curá-lo de todo e qualquer mal, mas também de manter tudo sob controle na vida de ambos, o que faz de Bates Motel não uma série de horror, mas uma história de amor cego, obsessivo e intenso.

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Por sua vez, Norman cria em sua mente a “Mother”, uma versão ciumenta, homicida, sedutora e destemida de Norma. É o mecanismo de defesa criado por ele para conseguir lidar com as muitas adversidades de sua vida, e é também o que lhe custará a vida.

A vida de Norma Bates não foi fácil, apesar dos belíssimos sorrisos e do olhar iluminado que Vera Farmiga emprestou à personagem. Estuprada e negligenciada, precisou fugir do lar abusivo através de um casamento com um colega de escola. O marido, também abusivo (a clássica repetição de padrões que vemos nos relacionamentos posteriores de frutos de lares problemáticos se faz evidente), era agora o pai de seu segundo filho, Norman. Em uma releitura moderna de Édipo, certo dia, em uma tentativa de proteger a mãe de uma das muitas agressões de seu pai, Norman o mata. É quando, pouco tempo depois, o motel entra em cena.

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Norman Bates é retratado como sendo uma vítima das circunstâncias, bem como sua mãe. Ele não é mau, perverso, não é um maníaco. É apenas um garoto com severos problemas psiquiátricos nascido no seio de uma família disfuncional e que tenta, em vão, ter uma vida normal. Se há um verdeiro culpado em Bates Motel, podemos deduzir que são os pais de Norma Bates, com ênfase no pai: um homem violento e alcoólatra que causava medo na esposa (que, por sua vez, vivia dopada para esquecer da situação miserável na qual vivia) e nos filhos, Caleb e Norma.

Norma não aprendeu, ainda na infância, sobre os limites de intimidade que precisam ser impostos entre familiares (era obrigada a fazer sexo com o próprio irmão e dessa relação incestuosa nasceu seu primeiro filho, Dylan). Isso a leva a trocar de roupa na frente dos filhos, dormir na mesma cama que o filho de dezoito anos de idade, etc. De certa forma, Norma tem sua parcela de culpa. Seu medo de ficar sozinha faz com que ela possa ser manipuladora, egocêntrica e dramática, e sua cegueira voluntária no que tange os problemas de Norman são cruciais na criação do Norman Bates que nos é apresentado em Psicose ( e no fim de Bates Motel).

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Apesar disso, o que Bates Motel nos apresenta é uma mãe de verdade. Uma mãe resiliente, como todas as mães devem ser. Uma mãe que é capaz de, literalmente, matar e morrer pelo filho. Uma frase que não sai de minha cabeça quando penso na relação de Norma e Norman é: “a estrada para o inferno está repleta de boas intenções”.


Raquel Avolio

Escritora, mãe, apaixonada por artes, sonha acordada por mais tempo que deveria.
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