rascunhando

Um Elogio ao Acaso

Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim

Apenas o Fim

Quando estiver lendo, vai saber. Vai entender o porquê do silencio. Das palavras não pronunciadas. Do camuflar de desejos secretos guardados no tempo. Eu, a vontade de abraçá-lo. Alma. Tanto carinho que fica difícil alcançar. Claro que ainda não existem palavras. Nem poderiam. Apenas a despedida da vontade de te aprender. Você que sempre será assim... Hipnotizante!


PhotoGrid_1472175174298.jpg

Se tudo terminasse hoje, possivelmente, eles seriam apenas dois desconhecidos que durante algum tempo dividiram a mesma historia. Apesar dele pesquisa-la repetidamente sempre encontra novidades a descobrir. A despeito do esforço dela para decodifica-lo por inteiro, conserva-se entre eles um mistério, um enigma indecifrável. Ela assim, tanto constante como distraída. Ele ali, com suas poucas certezas. E juntos, sempre se comprometendo com pequenos absurdos tão vastos que ultrapassavam qualquer entender. Todos os melhores detalhes. E era pra ser mesmo assim. Tudo ocorreu exatamente da forma que deveria acontecer enquanto durou. E agora, que a distância seja pouca, apenas para que possam entender. Apenas isso. Apenas o fim.

Com direção e roteiro de Matheus Souza - ainda estudante de cinema quando começou o projeto do filme - e feito em formato independente com o orçamento inicial arrecadado com a rifa de uma garrafa de uísque, o delicado Apenas o Fim, apresenta um roteiro linear e repleto de metalinguagem. Uma ideia simples, despretensiosa e divertida, que foi registrada através de câmeras fornecidas pela própria universidade, a qual serviu de locação para toda a película. Essa obra é permeada por diversas referências à cultura pop e traz também anedotas sobre grandes marcas e a indústria cultural da geração nascida nos anos 80, o que ocasiona uma identificação imediata. Além disso, a trilha sonora docemente selecionada ajuda a criar um clima ainda mais intimista.

Gregório Duvivier e Erika Mader vivenciam, em tempo real, a última hora antes da separação do casal. Ele, que é totalmente surpreendido com a notícia do término atravessa esse período tentando dissuadi-la da ideia. Ela, que pretende fugir e recomeçar a vida em outro local o instiga a relembrar momentos do passado e projetar um possível futuro. O longa é inteiramente realizado através de um diálogo delicioso entre os protagonistas. Esses se desdobram em confabulações inteligentes, permeadas por questões comuns, sem exageros ou personagens burlescos, nos fazendo sentir como parte fluida da trama. Vivenciamos assim tanto a despedida como a perspectiva do iminente recomeço. Mesclando amor e bom humor, num emaranhado emocional, o resultado é uma nova sugestão de final feliz, muito mais profundo.

PhotoGrid_1472175148036.jpg

Se tudo terminasse hoje, possivelmente, eles seriam apenas dois desconhecidos que durante algum tempo dividiram a mesma historia. No entanto, percebemos que o final de um relacionamento não precisa ser traumático. Pelo contrario, pode ser uma espécie de celebração de tudo o que foi edificado a dois. A comemoração de uma sinergia única que não se repetirá em outros pares. Tudo o que foi construído que não desvanece com esse fim. A despeito do tempo do relógio, cada encontro, cada pessoa que já foi muito querida por nós, deixa marcas intensas que se enraízam gerando enormes mudanças. Carregamos eternamente, experiências que nos transformaram em quem somos. E isso, por si só, já nos inunda de bons sentimentos, trazendo um pouco mais de magia ao que seria habitual.

PhotoGrid_1472175163080.jpg

De certo, deveriam lembrar com afeto dessa relação que foi tão impactante em suas vidas. Onde o encontro naturalmente os impulsionava, trazia novas descobertas, fazia evoluir. Esse amor que apagava o mundo inteiro pra reconstruí-lo o mais rápido possível de forma que ele se tornasse perfeito para o outro. Que criava instantes esvaziados de problemas para que não houvesse fugas. Com frescuras, maluquices, complicações e saudades inclusive das discussões mais tolas. Onde não faltava assunto e desconhecia-se o que é não desejar estar com o outro. Que não permitia questionar o que seria o contrário do amor. E trazia consigo um contexto de inevitável doação. Uma historia singular. Em algum lugar entre o era uma vez e o nunca mais.

Aqui falo sobre pessoas de fato, cujas dessemelhanças e erros possivelmente se confundiram eventualmente. E que também são as mesmas que acertaram tanto e de tantas formas, durante o período que foi possível, que seria uma perda deslembrar. Falo sobre intimidades produzindo aquele silêncio que traduz qualquer sentimento, sobre as brincadeiras que somente os dois entendem, sobre lembranças que os singularizam em meio a tantos romances espalhados. A súbita alegria, a inquietação, o acaso, a urgência do encontro entre almas que se pareiam. Dessas onde cadarços amarelos e o ingresso de cinema para assistir “A Bússola de Ouro” viram símbolo de união. Das que acabamos por nos perder no momento em que encontramos. Das que, uma vez ou outra, sente-se muita falta.

Se tudo terminasse hoje, possivelmente, eles seriam apenas dois desconhecidos que durante algum tempo dividiram a mesma historia. E se assim fosse, permaneceriam, então, opacos com uma falsa calma. Entre eles, um eterno relance de não se acabar, que embriagaria pelo oculto e assombraria pelo obvio. Continuariam com passos lentos, de quem não quer seguir depressa demais. Aquele desapego manso, do lado avesso de um olhar distraído. Qual seria mesmo o filme? Não importa! Alias, não importa mesmo o que aconteceria nesse momento, pois estariam em todos os livros, textos ou peças. Escolheriam não esquecer. E isso, agora, seria apenas o fim. O que realmente é fundamental já estaria feito. Já existiriam todos os momentos especiais. E é isso que valeria no final, ter algo pra lembrar, algo pra nunca esquecer.

Uma coisa que não tem fim...

PhotoGrid_1472173016951.jpg


Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Bruna Richter