rascunhando

Um Elogio ao Acaso

Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim

Metáfora do Amor Incondicional

Não sei o que a vida quer de mim, mas talvez, o sentido da minha existência seja encontrar meu dom. E talvez o propósito dela, seja oferecê-lo. Portanto, pra você, todo o meu amor.

O amor que sempre sabe transbordar...


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Amor é construir um elo com o outro. Alias, amar é igualmente isso e tantas outras coisas – que apesar de ser um tema recursivo, ainda guarda em si um imenso repertório a ser desnudado. Ele que pode disfarçar-se em acanhados gestos simples, declamar-se esparramado impregnando tudo o que é nossa continuação ou encaixar-se sorrateiro em construções de diferentes tempos e espaços. Existem tantas formas de percebê-lo quantas possíveis forem as maneiras de repensá-lo. Em meio ao acaso e diante das mais variadas volições, estando vulnerável a qualquer tipo de situação, muitas vezes, ele emerge de maneira arrebatadora, incontestável e impactante. Em outras, vem subitamente revestido de canções que se eternizam e nos presenteiam.

Lançada originalmente em 1981 no álbum ‘Inclinações Musicais’ a canção ‘Dia Branco’ composta por Geraldo Azevedo em parceria com Renato Rocha, possui livre inspiração em composições de George Harrison. Em seus versos de ternura há uma beleza irretocável que persevera de forma atemporal. A melodia é dedilhada de forma pausada, passional e densa, pulsando numa cadencia própria do afeto. A despeito dos anos em que estava sendo elaborada e aliada à interpretação peculiar e muito suave, germina assim uma das mais belas declarações que a musica brasileira nos oferece. Aquela que coloca luz nos momentos em que estamos prontos para nos desfazer do controle - que pode nos ser tão apaziguador - e nos permitimos ser conduzidos pelo que a vida tem a oferecer.

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A letra explicita o que não se sabe. O que está em branco e precisa ser preenchido. Nela, percebemos que o futuro se manterá continuamente como uma pagina vazia - ele e suas infinitas possibilidades. E não existindo um meio eficaz de dominar o amanhã, nem de prever tudo o que pode vir a ser, não há juramentos a serem consolidados. Como se estivéssemos numa eterna sucessão de improvisos, aceitando o que vier e simplesmente nos atendo a própria conexão gerada por permanecermos juntos, como deveríamos estar. Não cabe nele compromissos que não possamos cumprir. A promessa contida nas entrelinhas da canção não é precisa, mas é concreta e declarada. É a que se pode fazer. Uma metáfora ao amor incondicional.

Falamos aqui de um canto de amor que pode referir-se tanto a melodia exposta como ao local em que o relacionamento se dá. Subjetivamos as situações em que pode acontecer, pois ele permeia qualquer tipo de adversidade, superando-a. Não há expectativas vãs, pois os protagonistas da musica já se sabem seus. E se buscam de forma irrestrita. Sendo esse sentimento integral, sua duração é irrelevante diante da imensidão do que emerge. A entrega é tão absoluta que ignora infortúnios ou desventuras que possam aparecer. Salienta-se que a emoção é, ao mesmo tempo, tanta e tonta, por sua imensidão, proporção e magnitude. A única premissa a ser destacada é o desejo, a vontade de se estar disponível pra qualquer possibilidade que se apresente.

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Nesse sentimento em expansão, por nos sentirmos infinitos, não nos limitamos nem nos definimos. Sentindo uma imensa necessidade de seguir em frente, mesmo sem saber o que nos está reservado e o único condicionante verdadeiramente importante é que estejamos unidos. Nós e tudo o que nos for ofertado pelas múltiplas probabilidades. Os comprometimentos entre nós se dão às avessas, pois neles haveria o esvaziamento. E, no entanto, seguiremos favoráveis à aceitação das condições impostas pela exterioridade. Estamos acessíveis às mais variadas experimentações desprovidas de ensaios, porque é assim, afinal, que a vida se apresenta. Essas são as verdadeiras qualidades do amor a ser vivido.

Por conseguinte, sendo capazes de criar nossas próprias interpretações em relação ao mundo e munidos das mais variadas perspectivas, percebemos o quão belo é estar ligado à outra pessoa. Quando nos sintonizamos no outro, então, se torna uma questão de tempo até seguirmos insistindo nessa grata desordem que é amar. Sem admitir aviso prévio, o que nos agita nesse caos, é a lacuna de explicação lógica que atenda a dimensão do gostar. Assim, continuamos sem saber como a vida se apresentará. E possivelmente é exatamente nisso que se enlaça todo o encanto encoberto nos mais diversos relacionamentos que nos mobilizam e nos trazem inspiração. Portanto, que o amor nunca permaneça sufocado sob o peso da passividade. Que ele receba de braços abertos o oculto. E que continue aquele que sempre sabe transbordar...

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Dia Branco

Se você vier pro que der e vier comigo

Eu lhe prometo o sol, se hoje o sol sair

Ou a chuva, se a chuva cair

Se você vier até onde a gente chegar

Numa praça na beira do mar,

Num pedaço de qualquer lugar

Nesse dia branco, se branco ele for

Esse tanto, esse canto de amor

Se você quiser e vier, pro que der e vier comigo

Se branco ele for

Esse tanto, esse canto, esse tonto,

Esse tão grande amor, grande amor

Se você quiser e vier, pro que der e vier comigo

Dia Branco.mp3

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Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim.
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