rascunhando

Um Elogio ao Acaso

Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim

Prefiro Morrer de Amor

“Te amei e amei a minha fantasia. Amei de novo e amei a nossa estreia. Amei meu próprio amor e amei a tua audácia. Te amei muito e pouco e comovidamente. Amei a historia construída, os ritos e os porquês. Te amei no crível e no incrível. Amei ser dona e te amei freguês. Te amei e amei a farsa arquitetada. Amei nosso caso e amei a nossa casa. Amei a mim, amei a ti, parti-me ao meio. Te amei no profundo, no raso e com atraso. Não era tua hora, não era minha vez.”


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Esta carta não é sua, não adianta insistir. Sei que espera algumas poucas palavras dóceis, mas esta é uma mensagem que escrevo endereçada a mim. Aqui, resolvo desdobrar meus pensamentos, que se encontram incorrigivelmente enovelados, para tornar transparente o desejo de me manter alheia às configurações tradicionais. Eu, que sempre vejo graça nos sentimentos abrandados e me circundo de emoções exageradas que a mim parecem mais reais. Que opto por perceber com leveza esse pulsar intenso que reverbera dentro de mim. Que pelo excesso me denuncio numa imensa profundidade de dúvidas e devaneios junto a essa liberdade atemporal em que se pode tudo sem nenhum tipo de censura. Que deliberadamente escolho enlouquecer de tanto amar.

Escrevo aqui, para explicitar que ser intuitiva também é uma forma de vinculo. Decodifico seus silêncios desde que te conheci, aliás, eles já se tornaram minha categoria literária favorita. Antecipo com certa facilidade alguns comportamentos que possivelmente você acredita serem os mais instintivos. Percebo nas entrelinhas o que está por acontecer. Rendo-me às evidencias. Vejo previsibilidade nas suas improvisações e acho seu desaparecimento covarde, mas prudente. Entendo sua tentativa de nos proteger. Apenas um amor desmedido provocaria essa nossa ruptura. Suporto em silencio e aos gritos. Chego até aqui inteira, mas suponho estar despreparada, pois te encontraria diversas vezes mais caso ainda me permitisse - sem ao menos concluir essa carta, sem pegar o ônibus, sem chegar ao ponto.

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Inexplicavelmente a vida segue e eu a acompanho com uma eterna gratidão. Agradeço, essencialmente, o amor que você despertou. Esse mesmo que aceitou e contra o qual se protegeu. Que cultuou e ao mesmo tempo disfarçou. Que existiu tanto quanto foi inventado. E te amo além do possível, não te amo menos que a mim. Ainda me inquieta esse seu sorriso largo e gostoso. Seu jeito encantador que faz com que eu me sinta sua desde o inicio. Suas frases que ecoam no que há de mais secreto em mim. Porque tudo, definitivamente tudo o que diz respeito a você me completa e ao mesmo tempo me devora. Sempre vou gostar da ideia de te ter bem dentro de mim, muito além da periferia. Aqui comigo trago incontáveis possibilidades guardadas pra te mostrar. Não me desfiz delas. De nada.

Não sei bem como continuar essa carta que já nasce atrasada. Embora novamente lembre que não é um bilhete endereçado a você. A disposição das letras não acontece por sua causa. Não se engane nem por um instante. Eu decidi que não te escrevo mais. À proposito, sinto muito por não ter sido pra você o que você foi pra mim. Desculpo-me caso não tenha conseguido te fazer crer que podíamos vivenciar a melhor história da nossa vida. Se não te fiz acreditar em nós apenas com um olhar. Eu e você. Juntos. Por vezes, sou assim, distraída. Perco-me em meus propósitos. Mudo o foco. Contudo, entre as sutilezas dos sentimentos, não questiono que te amo muito, até quando não percebo. Gosto tanto de você - por inteiro - que esqueço inclusive de me ocupar de outros assuntos que não sejam de você e de mim.

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Pode acreditar em mim. Confie nas verdades que te conto e também nas mentiras. No fundo, tudo isso é por você. Acreditei que poderia me ajustar às suas constantes demandas e na possibilidade de te ajudar me fiz firme. Fiz-me ilha e me vi cercada de você. Você é toda a água em meu entorno, tudo o que há. Todo o restante circula, desvia de mim. Exceto esse amor que se entranhou junto aos meus fragmentos, justificando-me. Gostaria que continuasse. Que permanecesse comigo, pois é só o que eu sei fazer, ficar. Mas além de um par, somos ímpares. Pensamos de forma irregular. Desse modo, o tempo se faz infindo ate que no nosso desconhecimento mutuo os sentimentos se tornem eternos fazendo em nós moradia. Sem o outro, esmaecemo-nos.

Nesse hiato de tempo em que você se oculta não imponho limite algum ao imponderável. Assim, sou eu a que sempre rejeita prazos de validade. Vejo-me preenchida por uma incrível liberdade que experimento ao seu lado, num ajuste silencioso, que tanto me desnorteia como orienta. Não faria sentido desprender-me desse laço, desse nó que me conecta ao que insisto em saborear. Não conseguiria porque não há a menor necessidade. Porque só descontinuo o meu apego quando me param. Porque não tenho duvidas sobre minha vontade de te amar. Sigo carreada por um afeto tão claro e denso que não se cura. Um amor que absolve. Daqueles de códigos suaves que trazem nostalgia, poesia e sonho. Subjetivo e irreproduzível. Incomensurável seja qual for o desfecho.

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O que escrevo não é direcionado a ninguém. Nem a você. Escrevo movida por essa mania de acreditar, de achar que vai. Não foi. Tudo segue incerto, mas não é por isso que preciso desistir. Prefiro morrer de amor. Atravessar os dias por intuição do caminho, entorpecida antes, durante e depois de te encontrar. Você, fluido em minhas abstrações, morando mais em mim do que em qualquer outro lugar. Eu, percebendo que sua alegria é a minha diante de tanta delicadeza. E assim, o amor vive apesar de nós. É dele o mérito de nos ter tornado eternos. E no fim das contas isso é amor. Amo-te mais do que o mundo permitiria. Deveria ir mais devagar, talvez. Desacelerar. Aceitar outro ritmo imposto pela exterioridade. Vou começar agora... pausadamente... res... piro.

Te amo muito e subscrevo-me

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Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim.
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