rascunhando

Um Elogio ao Acaso

Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim

Sobre o Desamor

Quando desautorizo aquilo que é próprio do outro ou o impeço de raciocinar eu crio deliberadamente indestrutíveis precipícios entre nós.
Violo sua liberdade e cerceio seu direito de se desprender de um eterno carrasco.
Desse modo, cada vez mais surge o silêncio como resposta a algumas situações. Surge o desamparo.
É perdida por completo a dimensão do amor nas relações.


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Quando eu era mais nova, minha mãe adorava comprar xarope de groselha de uma marca específica, cujo paladar ela acreditava ser menos doce do que o usual – eu detestava. Quando descobriu que a fábrica que a produzia iria fechar, ela decidiu comprar uma grande quantidade de garrafas, pois sabia que não sentiria mais aquele sabor em especial. Certo dia, procurando algo doce pra comer e sem achar alternativas em casa, eu encontrei uma delas, e para que ficasse bem açucarado, recheei meio copo com xarope e completei o restante com água. Enquanto bebia, por acaso, pois não faço isso usualmente, comecei a ler o rotulo que já estava inclusive bem deteriorado. Por consequência, descobri que estava em 2004, bebendo algo com data de validade prevista para novembro de 1997 e como consequência inequívoca fui para o hospital.

Tanto por conta do produto vencido como pelo efeito potencializador gerado ao ler tal etiqueta, consequências graves poderiam ter sido geradas. Ao contrário, o acontecido é contado atualmente com leveza e, por vezes, serve como um apropriado exemplo pra descrever o quanto somos capazes de nos distrair e de permanecer alheios a certas coisas se elas não estiverem selecionadas em nosso campo de vigilância. Com isso, vêm à tona certas reflexões sobre algo que venho observando nesses últimos tempos: apesar de sabermos que toda nova concepção é atravessada por outra ideia prévia, existe na atualidade a tendência a desviarmos a atenção do que diverge de nós de forma a tentar tamponar algo que se torna cada vez mais da ordem do insuportável - as dessemelhanças.

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Para que possamos construir pontes, criar parcerias, dialogar verdadeiramente, se faz indispensável que estejamos disponíveis a entender os indivíduos nas diferenças arraigadas de suas histórias, vivencias e percursos. Essa condição é extremamente necessária para que então tudo isso consiga convergir com nossos juízos e ponderações. Possivelmente, caso desviemos nosso foco do que há de mais próprio no outro, caso decidamos por professar nossas crenças e valores de maneira desmesurada sem levar em consideração a forma como as pessoas recebem nossas palavras, estaremos nos predispondo em meio a caminhos híbridos, às guerras, exílios e desencontros de forças, marcados severamente pelas diferenças. E há bastante desamor contido nesse ato.

Hoje em dia, vemos uma crescente e descontrolada onda de intolerância sem explicação obvia manifesta. Diante da impossibilidade do diálogo, percebemos falas grotescas de indivíduos que se autodenominam autoridades nos mais diversos assuntos e rotulam ou classificam com ares de certeza conclusiva e irrestrita. Surge assim, talvez, como interesse primeiro o particular, mas não é assumida uma estima pelo coletivo que nasce como consequência disso. Assim, cada vez mais abrimos mão da conversa de ordem modesta, e acabamos percebendo uma prática que busca o poder, com o objetivo de instituir uma hegemonia de procedimentos e condutas a serem seguidas. O desigual acaba gerando tanta angústia que se acaba preferindo extingui-lo a tentar conversar com ele.

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Por vezes, ao não conhecermos profundamente os diversos assuntos abordados, nos vemos compelidos a emitir uma opinião cada vez mais bipartidária, sem o mínimo espaço para incertezas ou possíveis mudanças. A contemporaneidade nos move de maneira tal a não mais permitir que tenhamos dúvidas ou inseguranças. Precisamos de forma clara e rápida assumir um dos lados em qualquer que seja a discussão abordada. E essa dicotomia acaba por aumentar crescentemente os abismos que se desdobram entre as pessoas, gerando cada vez menos possibilidade de troca. Percebemo-nos tão compelidos a assumir uma postura concreta e imutável, que acabamos por afastar os díspares, gerando ilhas de pessoas homogêneas – o que nos causa certo conforto por estarmos em meio ao conhecido – mas inibe assim, de forma hostil, a própria subjetividade e a capacidade de pensamento crítico.

A dificuldade de entender sistemas e regimes como algo histórico, temporal e cultural, nos faz perpetuar de forma enérgica e naturalizada algo que é sim, singular, e que depende bem mais dos nossos sistemas de valores e princípios do que daquilo que está regulamentado pela sociedade. A terminologia imposta do que seria o correto se faz sempre do ponto de vista de alguém ou de algum grupo. Com isso, a pergunta inicial deveria ser para quem determinado pensamento é apropriado e sobre qual pressuposto. A minoria que detêm o poder, por certo, continua operando de forma a esmagar a capacidade pensante dos demais de forma cruelmente antiética. De resto, quando falamos de pessoas, as generalizações são falhas, prepotentes e ingênuas – até porque maioria nunca foi parâmetro pra assinalar o que é o adequado.

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Numa época onde cada vez menos se busca entender qual é a nossa participação na desordem da qual nos queixamos, assumir uma postura ativa seria fundamental. Entender tantos conflitos e desentendimentos como sintomas de algo interno poderia gerar ponderação sobre as grandes inflexibilidades modernas. As regras existentes nas instituições de diversos níveis nos preparam para tomadas de decisões diametralmente opostas, como se existisse um embate invisível entre o mundo da eficácia e o mundo da reflexão. Talvez inclusive seja necessário admitir a falência atual do campo coletivo diante da tendência mundial de movimentos bastante extremistas. Sair da passividade, do papel de vitima e tomar pra si a responsabilidade de assumir uma posição pode ser o grande diferencial nas relações.

De volta à groselha, à minha mãe e ao que chama ou não minha atenção, penso em como pode ser severamente grave ignorar. Quando desautorizo aquilo que é próprio do outro ou o impeço de raciocinar eu crio deliberadamente indestrutíveis precipícios entre nós. Violo sua liberdade e cerceio seu direito de se desprender de um eterno carrasco. Desse modo, cada vez mais surge o silêncio como resposta a algumas situações. Surge o desamparo. É perdida por completo a dimensão do amor nas relações. Em sentido contrário a tudo isso, felizmente, há quem recicle pensamentos com prazo expirado acreditando nas diversas possibilidades do estar com o outro. Quem reveja suas próprias certezas de tempos em tempos. Aqueles que creem que os encontros são e sempre serão a maior potência humana. E que entendem que o afeto e a empatia, esses sim são - e sempre serão - revolucionários.

“Qual sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?” (Freud)

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Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim.
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