rascunhando

Um Elogio ao Acaso

Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim

Não Acredito em Bruxas, Mas que Existimos, Existimos!

"Não gosto da vida em banho-maria,
Gosto de fogo, pimenta, alho, ervas.
Por um triz não sou uma bruxa!"

(Martha Medeiros)


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Roupa preta, corcunda acentuada, chapéu grade e pontiagudo, nariz imenso com verruga na ponta, caldeirão, vassoura velha, asas de morcego e gargalhadas histericamente assustadoras. Quando o imaginário coletivo evoca a ideia da figura da bruxa, possivelmente alguns desses atributos – ou todos eles – vêm à tona. Acrescento também, para além das características externas, o traço perverso de personalidade e a conduta duvidosa atribuída à feiticeira. O aspecto sombrio da alma feminina.

Quando crianças, ouvimos fábulas que, de uma maneira geral, nos servem como instrumentos para a expressão do pensamento mítico, proporcionando a representação simbólica de questões concretas e seus possíveis desdobramentos. Isso permite algumas identificações com nossas vidas de tal modo que parecem nos ser apresentados ao mesmo tempo alguns conflitos e também as diferentes formas de superá-los. Com isso, podemos inferir que não foram criações oriundas apenas de uma fértil inspiração, mas sim, uma reprodução de arquétipos encontrados de fato em nossa sociedade.

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Contudo, essa bruxa que antigamente nos era descrita nas histórias infantis como cruel, vingativa, perigosa e diabólica, hoje em dia, em diversas releituras de contos de fada surge como a nova protagonista. Acaba sendo, inclusive, mais atraente do que a própria mocinha lânguida e indefesa - tanto mais interessante como também sedutora: ao passo que as donzelas se mantêm atreladas aos seus aspectos celibatários e inacessíveis, as bruxas nos trazem tudo àquilo que nos parece genuinamente humano.

Num paralelo com a realidade, seriam bruxas aquelas que detêm conhecimento, e através dele, algum tipo de poder indisponível aos demais. Essas que possuem tendência a se organizar entre amigas buscando ser a fortaleza das outras, que confiam em seus instintos, que possuem noções inatas sobre a cura de diversas enfermidades e que conhecem os segredos da natureza humana. Mas por destacarem-se numa era patriarcal, são colocadas frequentemente em posição de inferioridade em relação aos homens. E assim, surge da paranoia masculina sobre o que lhes parece impenetrável o estereótipo negativo que cultivamos.

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No entanto, através da sua busca por independência e do resgate dos valores do feminino, essa imagem vem passando por um rápido processo de transformação. Se antes a participação da mulher na sociedade tradicional, organizada a partir da família hierárquica, era definido no casamento e seus papéis sociais limitavam-se à função de esposa e mãe, atualmente elas são herdeiras de tradições libertárias e estão engajadas, fortes e atuantes.

Possivelmente não somente a bruxa mudou como se modificou também a visão que temos dela. Com a ampliação da sua função e dos seus direitos, não há mais lugar para tribunais da investigação. Não existe a possibilidade de aceitarmos caladas cerca de 60 mil mulheres queimadas vivas como aconteceu entre os séculos XIV e XVIII. Torna-se inadmissível o genocídio contra o sexo feminino apenas para sufocar e punir aquelas que ousarem almejar algo além do que já está determinado.

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Bem como na época da inquisição, atualmente busca-se eliminar tudo o que representa uma ameaça à classe detentora de poder e assim iniciam-se lenta e veladamente as perseguições. A caça as bruxas não passa de um massivo movimento para silenciar nossa voz. Um movimento que acusa, julga, condena e mata como se através de nosso gênero acabássemos por herdar algum mal. Como se ao permanecer na direção das nossas vontades inventássemos um novo sentido para a palavra imoralidade.

É bem verdade que nós mulheres continuamos segregadas e duramente criticadas por lutarmos pela igualdade de gênero e pela divisão do poder social e econômico. Por isto, as bruxas representam para o movimento feminista não somente resistência, força e bravura, mas também a obstinação na busca de novas possibilidades emancipadoras. E deixemos bem claro, mais uma vez, que feminismo não é o contrário de machismo. Machismo é um sistema de dominação e opressão enquanto feminismo é uma luta por direitos iguais.

Sim, eu não sou obrigada! Eu me posiciono, conheço tanto meus deveres como todos os direitos que deveriam ser ofertados a mim, luto pelo meu lugar de fala e sei do meu papel politico e social! Sim, me mantenho numa longa jornada sobre mim mesma, faço tudo aquilo que eu desejo e que não acabe por prejudicar outras pessoas e busco estar sempre conectada com o que me faz bem! Sim, toda mulher carece, toda mulher merece e toda mulher pode (e talvez deva) ser uma bruxa!

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Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim.
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