rascunhando

Um Elogio ao Acaso

Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim

Ode à Psicologia Gestáltica

"Eu sou eu, você é você.
Eu faço minhas coisas, você faz as suas.
Não estou neste mundo para viver de acordo com suas expectativas,
E você não está neste mundo para viver de acordo com as minhas.
E se por acaso nos encontramos, é lindo.
Se não, não há nada a fazer"
Fritz Perls


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Eu não gostei dela! Não! Espera... Me deixa começar do começo pra que você possa entender! Primeiro dia de aula! Corrijo-me: Primeiro dia de aula de alguém que já tinha duas faculdades anteriores. Recomeço. Alias, recomeço do recomeço! Aquele friozinho na barriga inerente aos novos rumos que se iniciam... E lá vamos nós! Aula de Bases Neurológicas. Assim que entrei a professora me perguntou quem eu era e respondi alegremente que havia começado a faculdade naquele dia. Ela riu. (Ah... Me esqueci de contar que entrei na faculdade faltando apenas duas semanas pra AV1). A professora me alertou que dificilmente conseguiria fazer a prova sem todo o conteúdo que já havia sido dado. Principalmente naquela matéria.

Pronto! Tinha que encontrar uma solução, porque não era uma opção pra mim naquela época não ir bem na avaliação. Como de praxe, fiquei atenta! Observei! Comecei a perceber as pessoas à minha volta e uma pareceu especialmente singular. Sabe daquele tipo de pessoa que parece figurinha premiada?! Ela não passava despercebida: gesticulava muito, perguntava varias coisas ao mesmo tempo, pontuava tantas outras e se ria – largamente! Tão a vontade que parecia frequentar aquela sala de aula há tempos. Ok, meio extravagante pro meu jeito tímido, mas naquela hora achei que seria uma saída simples. Alias, me deixe fazer um parêntese pra falar da minha timidez: Resumindo... É enorme! Serio! Sou muito, muito, muito tímida! Dessas que paralisa, gagueja, tem taquicardia e tudo ao falar com pessoas que não conheço!

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Mas voltando ao que interessa... Percebi que ela anotava tudo, estava sempre muito atenta e registrava cada palavra proferida pela professora. Aguardei até o final da aula e, ainda titubeante - intimidada pelo seu jeito expansivo - me enchi de coragem e decidi me aproximar. Apresentei-me e disse que eu era aluna nova. De tão ansiosa, nem deixei ela falar e já emendei perguntando se poderia me emprestar o caderno pra eu xerocar os conteúdos que não tinha visto. Ela me disse pura e simplesmente: não! Não emprestava o caderno dela pra ninguém! E seguiu dizendo que, se eu quisesse, ela ATÉ me deixaria tirar uma foto, no máximo. Que antipática, eu pensei. Até o momento ela estava lá toda sorridente e foi só eu pedir o tal caderno que ela me deu logo um não!

Ahh.. Vou abrir mais um parêntese – e dessa vez vai ser um longo. Me esqueci de falar sobre as minhas duas faculdades anteriores e vou precisar usar essa informação. A primeira foi em Ciências Biológicas e a segunda em Artes Cênicas. Alias essa segunda é diretamente responsável por eu estar conseguindo, minimamente, me expressar, nesse momento. Mas é a primeira que se relaciona ao que quero dizer. Então, vamos lá! Sempre fui ligada a coisas mais exatas. Então, na faculdade de Biologia, de acordo com o método cientifico, com os códigos binários e com um pressuposto altamente positivista reforcei gradualmente o pensamento de que certo é certo e errado é errado e não ha espaço para dúvidas! Então, fechando o parêntese e voltando a história que estava descrevendo, estava definitivamente decidido! Não falaria mais com ela! Eu estava certa disso!

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Ainda mais com aquele nome excêntrico! Nome de quadro antigo! Desses que grudam na cabeça da gente... Onde já se viu hoje em dia alguém se chamar assim?! Alias, já citei o nome dela antes? Acho que não... Pois bem, falo agora: Monaliza. Monaliza: filosofa por oficio e por essência. Aquela que nunca foi binária porque se sabe gradiente. Que aceita a si, aceita aos outros e aceita o mundo como é. Que repete que a vida não tem sentido previamente dado, mas tudo o que a vida não é sem sentido. - E a partir desse momento farei uso de minha licença poética e onde eu disser ‘Monaliza’ ou ‘ela’, pode-se ler também a ‘Psicologia Gestáltica’. Fique a vontade pra substituir. Pra escolher o que for melhor pra você. Eleja o que lhe fizer mais sentido! - E sabe?! Acho que nem todo mundo conhece a gente, mas quem conhece, sabe que somos unha e carne. Tipo figura e fundo ou fundo e figura. Não importa, aliás, porque tudo faz parte do campo. Esse campo que é correlato a mim, que se estabelece comigo.

Serio! Estamos sempre tão juntas estudando, conversando, trocando, compartilhando, que hoje tem gente que me chama de Mona e vice e versa - E sigo pensando que não poderia ser uma referencia melhor! Nosso mapa nunca foi o território e o todo é sempre muito maior do que a soma das nossas partes! Assim... Ela invadiu a minha vida! E in-va-diu é o termo mais apropriado mesmo! Ela me diz que estou condenada a ser livre incitando meu ajustamento criativo e me fazendo sempre o convite a perceber minha própria vida, contemplar, revisitar, reformar sempre que necessário minha visão de mundo. Esse mundo que muda “pois quando a gente muda o mundo muda com a gente”. Chegou bagunçando todas as minhas certezas e questionou todas as minhas únicas maneiras. Ensinou-me que “ninguém se liberta sozinho, ninguém liberta ninguém, mas nos libertamos em comunhão”.

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E eu vinha numa sequencia logica - filogenética, ontogenética e cultural - de classificação, enquadramento, chaves botânicas e evolução - e foi preciso que ela me mostrasse que nada – nada mesmo - tem sentido previamente dado, nada é apriorístico. De repente, ela me mostra com ternura e gentileza que existir é uma abertura em direção ao mundo. É apertar o botão de restart continuamente e me atualizar, me entender e por consequência mudar. E como não mudar se são exatamente “os silêncios entre as notas que me fazem ouvir a musica”?

Ahh... Ela! Que me ensina diariamente o valor e o poder da empatia! De verdadeiramente estar implicada com o outro! E com ela aprendo até que o mundo não existia antes que eu existisse. Não o meu, dessa forma com que o vejo agora, com minha própria medida de mundo (tão diferente de outros tempos -porque real é aquilo que se vive a cada vez e não há contradições nisso). Que me faz perceber, em meio a tantas formulas e estruturas, que NADA substitui a experiência. Porque a chegada dela, num olhar leigo, foi apenas a entrada de um elemento, mas não se engane: isso modificou o campo inteiro.

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E não canso de falar e repetir que em meio a um mundo em expansão, repleto de novos conhecimentos teóricos e práticos, ela foi o melhor presente que a faculdade me deu! Enfim... Tantas emoções se confluem que qualquer tentativa de colocar tudo em palavras se perderia na tradução. Porque qualquer ensaio de explicação seria minimamente uma representação, não a tal experiência. Ainda assim, não existiria um relacionamento mais apropriado para que eu dissesse que esse meu ‘eu’ que existe na relação com ela, não emerge em nenhuma outra relação. Esse meu ‘eu’ é dela. E só dela. E por saber agora disso, sinto uma indizível gratidão! Enfim... Em meio a diversas Gestalts abertas... Um dia apareceu Monaliza, meu fechamento!

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Bruna Richter

Cabem tantos mundos da minha janela tímida que transbordo em palavras tudo o que me conduz para muito além de mim.
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