Natalia Cola de Paula

Sou amante da escrita. Ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve.

Eudaimonia

Diariamente as pessoas acordam e partem em busca de seus sonhos e metas. Desempenham suas tarefas cotidianas, como trabalho e estudo em meio a uma rotina acelerada, em que não há tempo designado para parar, sentar e refletir sobre o que realmente buscamos com nossas atitudes. Fazemos tantos esforços e sacrifícios para a concretização de certos objetivos, como o esmerado diploma do curso superior, um carro novo, uma casa nova, subir de cargo no emprego, obter o sucesso, adquirir cada vez mais e mais dinheiro e bens, que nos esquecemos de nossa real busca: a felicidade, porque no fundo todos queremos viver momentos felizes, estar bem conosco e com as pessoas ao nosso redor.


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Primeiramente, o que significa eudaimonia?

Eudaimonia é um vocábulo de origem grega que geralmente é traduzido como felicidade ou bem-estar. Essa palavra é composta pelo prefixo "eu" que significa "bom" e "daimon" que é uma espécie de semi-deus que acompanhava os homens, um bom demônio. Todavia, é um equívoco pensar em eudaimonia como sinônimo do conceito atual de felicidade, pois os gregos tinham uma concepção de mundo(cosmos) assim como da felicidade, diferentes da nossa. Mas um aspecto que é consensual é que a felicidade é um sentimento, logo, é algo subjetivo, inerente a cada um, o que o faz feliz não necessariamente fará os demais. Por ser um sentimento complexo, pessoal e algo metafísico é que constitui um dos grandes temas da filosofia.

Para os gregos, principalmente para Aristóteles, a felicidade está relacionada com ter uma vida virtuosa. É preciso entender que Aristóteles apreende o cosmos como algo perfeito e em equilíbrio, e cada ser, vivo ou não, possui sua determinada função para a homeostase cosmológica. Assim também era com os homens na pólis (cidade grega), as pessoas desempenhavam seus papéis, suas funções específicas de acordo com suas aptidões e isso trazia equilíbrio à cidade, fazia com que ela continuasse funcionando em perfeita harmonia. Nesse sentido, o homem seria uma peça fundamental no andamento do mundo, como se esse fosse uma máquina perfeita, e como nas máquinas, cada peça desempenha um função vital para o funcionamento do todo, portanto, inexistem peças inúteis ou desprezíveis. Dessa forma, cada ser humano que nascia, possuía uma importância para o meio social, para o cosmos. Cada ser em si era importante simplesmente pelo fato de existir, só precisava descobrir suas aptidões.

Aristóteles trabalha com os conceitos de potência e ato. Potência seria a substância que todos seres possuem em si, em estado de latência, é aquela capacidade que o ser tem de desenvolver algo, de tornar-se algo. O ato seria o estado em que o ser encontra-se, o que ele é realmente, no momento presente. Segundo ele, a vida virtuosa consiste em transformar as potências em atos. Mas, o que de fato, é necessário para isso? Uma variável determinante é a condição de vida em que o indivíduo encontra-se. Muitas vezes a escola, a família, o ambiente social nos apequenam, minam nossas potências, fazem com que desacreditemos de nossa capacidade e impedem que tornemos essa potência em ato. A essa passagem da potência ao ato ele denominava eudaimonia. Assim, se fizéssemos uma analogia com as flores, eudaimonia seria o pleno desabrochar das virtudes humanas, quando o homem desabrocha suas potências e alcança a exuberância, a isso estava associada a verdadeira satisfação humana, a felicidade. Do mesmo modo que as condições interferem no desabrochar das virtudes humanas a vontade também, pois, há indivíduos que possuem a potência, as condições necessárias e não têm vontade de torná-las ato, não as concretizam pelo fato de não buscarem seu aperfeiçoamento. Cada um carrega consigo talentos e aptidões, porém, é preciso treinamento e aperfeiçoamento das capacidades em uma aprendizagem constante, porque nada é inato. Dessa forma, a eudaimonia pressupõe esforço pessoal.

Para que o homem alcance esse estado eudaimônico é preciso, antes de tudo, autoconhecimento, encontrar o seu lugar no mundo, encontrar sua função, enfim, encontrar-se inserido, integrado a algo que para ele seja considerado bom. Precisamos, na condição de seres humanos, animais sociais e gregários, nos sentirmos úteis, importantes, essenciais e, principalmente, termos consciência de que precisam de nós. Quando isso não fica claro para uma pessoa, ela sente-se desprezível, desimportante, desestimulada em viver, não quer trabalhar, estudar, sair de casa ou ver familiares e amigos. A vida para ela tornou-se um martírio, daí surge uma das causas da depressão e que em casos extremos levam ao suicídio, uma vez que a pessoa vê na morte a oportunidade de findar tamanha solidão e sofrimento. É um ato desesperado em busca de felicidade, da felicidade que não encontraram em vida, buscam-na na morte. Nota-se que, conforme pensam os gregos, ter uma vida boa, está intrinsecamente relacionado a viver em harmonia com o cosmos e de maneira feliz. É preciso salientar, que para eles, a vida de alguém só poderia ser analisada, ser avaliada como boa ou má após sua morte, pois enquanto há vida, há possibilidade de aperfeiçoamento.

Podemos aprender muito com a visão grega, que, apesar de ser tão antiga e diferente do mundo moderno, mostra que permanentemente os seres humanos fizeram da busca da felicidade o foco central de suas existências. Desde sempre o homem é o mesmo, só muda de contexto histórico, pois os dilemas persistem, e há questões como a da felicidade que são atemporais. Pode-se concluir que quando descobrimos nossos gostos, percebemos o que no mundo nos traz alegria e satisfação, compreendemos o que nos move, alterações internas ocorrem, é como se tivéssemos descoberto a nossa essência. É o que Sócrates defendia: "Conhece-te a ti mesmo". É através desse autoconhecimento que notamos nossa relevância para a sociedade na qual estamos inseridos. Quando temos essa consciência a respeito de nós mesmos podemos buscar fazer o que amamos, realizar atividades que nos trazem prazer, nos enchem de gozo e alegram-nos.

Assim, quando o trabalho desempenhado, mesmo que repleto de adversidades, é realizado com amor e por prazer, e não por simples obrigatoriedade, quando estamos fazendo o que queríamos, estamos onde gostaríamos, estamos com as pessoas que nos alegram, trazem-nos paz e fazem-nos bem, é que podemos dizer que estamos felizes. É querer que aquele momento nunca acabe de tão prazeroso e benéfico que ele é. E quando quiser saber se algo ou alguém lhe traz felicidade pergunte-se se você gostaria de que aquele momento se repetisse, se sim, é porque é um momento verdadeiramente feliz. Ademais, há quem pense que a felicidade é algo que se busque, algo que se alcance, quando, na verdade, ela está na busca, mas não é busca, ela não é ser, e sim estar, ela está no transcorrer do percurso e não na linha de chegada. A felicidade consiste em momentos, não é um estágio de vida, pois a vida sempre foi e sempre será alternadamente composta de felicidades e tristezas, um dualismo incessante, eterno.


Natalia Cola de Paula

Sou amante da escrita. Ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve..
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