Natalia Cola de Paula

A escrita pulsa em mim, ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve.

Sanidade X Loucura

O objeto de debate desse artigo contempla um embate entre a sanidade e a loucura no âmbito literário e como isso está mais presente em nosso cotidiano do que pensamos e de como a loucura e a sanidade são conceitos subjetivos e assim continuarão sendo, pois não há definição que diga perfeitamente o que é um comportamento maluco ou “normal”. No final entende-se que a loucura nada mais é do que um momento esplêndido de alcance e vislumbre da mais pura e verídica realidade.


Texto.png

O ser humano é um ser curioso, estranho, complexo, egoísta e surpreendentemente maluco. Realmente, somos tudo isso e muito mais, sem sequer saber quem somos, é por isso que buscamos diariamente em nossos estudos, no trabalho, nas músicas e filmes de cada dia expressar nossa personalidade e construir quem queremos ser através de influências que acreditamos serem benéficas para nosso crescimento humano. Quero debater com vocês, prezados leitores, amantes da música, teatro, cinema, arte plástica e, sobretudo, literatura, sobre como o tema sanidade X loucura, que esteve presente na literatura, só para citar exemplos direi do conto “O Alienista” do excelentíssimo e genial Machado de Assis (que dispensa apresentações prévias) e uma frase de autoria de Mário Quintana, que é a seguinte: “ A diferença entre um poeta e um louco é que o poeta sabe que é louco ... porque a poesia é uma loucura lúcida”. Mario Quintana.jpg

Essa citação remete-me a um provérbio popular que se encaixa como uma luva nessa discussão:“ De perto ninguém é normal ”. Mas o que é ser normal? Qual a definição? Normal é simplesmente seguir os padrões sociais impostos pelos meios de comunicação de massa, imposto pelo capitalismo de consumo? É seguir maquinalmente aqueles códigos, leis e normas impostas a nós, cidadãos, pelos legisladores que as formulam? Bem, não sei o que significa ser normal, até porque esse é um conceito extremamente subjetivo, nem possuo a pretensão de dar definições estáticas, pois meu objetivo é fomentar as dúvidas e não respondê-las banalmente e de forma incompleta. Talvez normal seja ser diferente, pois cada um de nós tem suas características pessoais próprias, características físicas, psicológicas, e comportamentais singulares, e isso é algo absolutamente normal, por isso é lógico afirmar que uma pessoa é normal justamente por diferir das demais.

A respeito da frase de Mario Quintana - poeta, tradutor e jornalista gaúcho, nasceu em 30 de julho de 1906 e faleceu em 5 de maio de 1994, um cânone de nossa literatura brasileira e como Machado de Assis, também dispensa apresentações - quero dizer que ela expressa a mais pura verdade a respeito dos poetas, que vivem em devaneios, com pensamentos longos, complexos, que ultrapassam a linha limítrofe da sanidade e avançam na loucura plena. Como afirma Mario Quintana, os poetas têm consciência de sua loucura, diferentemente dos loucos chamados de doentes mentais, os poetas controlam sua loucura, é como se a loucura fosse uma patologia benéfica para eles, uma espécie de válvula de escape da monotonia tapada e repleta de pré-conceitos do dia-a-dia. Se pensarmos por um prisma poético e distante do senso comum veremos que é nos momentos de loucura (que pensamos estar loucos, mas na verdade estamos em plena consciência e isso é enlouquecedor) que não suportamos mais as coisas do modo como são, nos revoltamos com a sociedade, com a política, com nossa cultura de massa, com nossa arte desvalorizada, quando enxergamos lucidamente nossa vida e nossos problemas, nesse instante alcançamos o estágio de loucura por algum tempo, que nada mais é do que a mais pura sanidade.

Isso, geralmente, dura minutos ou horas, tempo suficiente para aquelas pessoas com veia artística extravasarem todas essa elucidações malucas, porém tão reais, verdadeiras em sua arte. Assim surgiram obras como o conto “O Alienista” de Machado de Assis, em que o autor brinca com o conceito de alienação, sanidade e loucura de maneira sarcástica e com um desfecho irônico, assim como é de praxe desse autor realista. É um conto um pouco extenso, com quarenta e quatro páginas aproximadamente, mas que merecem ser lidas. No âmbito musical, por exemplo, indubitavelmente, aquela música escrita por Renato Russo e gravada pelo Legião Urbana “ Faroeste Caboclo” também foi fruto de um momento de escape da realidade, fruto de minutos de loucura que traz consigo a mais sã, verídica e surpreendente crítica social e principalmente política em seu desfecho.

Em suma, esse tema sanidade X loucura sempre esteve presente em nosso cotidiano e nem percebemos o quanto taxamos condutas alheias diariamente como sãs ou loucas sem ao menos nos indagarmos: “ O que é a sanidade?” e “ O que é a loucura?”. Pois é, esse tema embalou contos, poesias, músicas e muito mais, uma vez que inúmeros artistas e até pessoas normais depararam-se com a questão da loucura humana. O que é preciso salientar para finalizar esse artigo é que o ser humano possui, por natureza, momentos de loucura e erra ao envergonhar-se deles. Pois só os loucos são capazes de sair do senso comum, fugir dos pré-conceitos e dos dogmas q nos são impostos socialmente e alcançar, mesmo que por pouco tempo, a realidade dos fatos, que para os “normais“ são maluquices sem nexo, porque eles são incapazes de saírem de sua matrix ( saírem do óbvio, do cotidiano, pensarem por si mesmos) e enxergarem a realidade maluca em que vivemos.


Natalia Cola de Paula

A escrita pulsa em mim, ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/literatura// @obvious //Natalia Cola de Paula