Natalia Cola de Paula

A escrita pulsa em mim, ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve.

O egoísmo por detrás do eu lírico

Muito comenta-se dos desdobramentos, reflexos, bem como benefícios do hábito da leitura. Porém, pouco se menciona a respeito dos reflexos que o ato de escrever exerce sobre o autor. É sobre isso que esse artigo fala. Mostra que o eu lírico do escritor não é puramente altruísta, havendo uma face egoísta, uma vez que o autor precisa da escrita para viver, para afirmar-se como ser humano. Na verdade, o escritor precisa da escrita tanto quanto ela precisa do mesmo para existir.


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É sabido que a arte da escrita tem a virtude de criar, eternizar, denunciar e embelezar a vida. Ademais, é clichê dizer o quanto ela transmite conhecimento, histórias, momentos e sentimentos, fazendo-nos viajar sem sair do aconchego de nossas casas. Enfim, a escrita tem todas essas funções e características, mas é sob outro prisma que será abordada neste artigo. " A priori ", vamos analisar a escrita como instrumento de comunicação, com a existência de dois pólos: o do emissor da mensagem, que é o escritor, e o do receptor, nosso caro leitor. Muito fala-se dos desdobramentos e reflexos dessa mensagem no leitor, aquele que a recebe, interpreta e extrai dela o que lhe aprouver. Porém, pouco se menciona a respeito dos reflexos que essa mensagem exerce sobre o autor, sobre o próprio escritor. É olhando através desse prisma que analisaremos a escrita.

Primeiramente, o poeta ou o escritor tem seu lado altruísta, quer sim ser lido, deseja alcançar um elevado número de leitores, sonha que seu texto inspire e mude a vida de alguém, ou apenas que lhe abra um leve sorriso e aquiete o coração. Mas o que poucos sabem é que o poeta é também egoísta, ele escreve, em primeiro lugar, para si, para sanar suas necessidades. Como assim? Quais necessidades são essas? Muito simples, necessidade de expressar-se, de desabafo, de descargo emocional, de fuga do mundo externo, de abrigo na arte. Antes de mais nada, os autores são seres humanos, não estão isentos dos problemas cotidianos, das dores, das tristezas e nem do amor. Logo, eles buscam na escrita alento, ou usam-na como crítica social, denunciadora do que veem e sentem. De todo modo, os autores, como seres humanos, pais, filhos, alunos, cidadãos, apaixonados e profissionais que são, precisam da escrita mais, talvez, do que ela precisa deles para existir. É esse o ponto essencial de tal artigo, fazê-los compreender que a escrita é a vida pulsando no escritor, sem ela ele simplesmente não vive, pois não se expressa.

Há um poema metalinguístico na forma de um soneto magnífico redigido por Celso Henrique Fermino, poeta e docente rio-pretense, chamado " Minha poesia ", em que o eu lírico exalta os pontos característicos de sua própria construção literária, a saber, a expressão da verdade, a espontaneidade vinda do coração, a simultânea transparência e misteriosidade de suas poesias, em que certas coisas são totalmente reveladas, enquanto outras, por mais que o leitor tente, sempre permanecerão como mistérios particulares pairando. Por fim, em seu ultimo verso, vem a frase arrematadora, que revela o viés egoísta dos poetas, bem como dos autores : " Lembre-se: o poeta é um egoísta! ".

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Há uma bela reflexão feita por Clarisse Lispector que exprime exatamente esse caráter egoístico, mas nem por isso desnobrecedor, do eu lírico dos autores. " Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida. " ( Clarisse Lispector - Um sopro de vida ). Certamente, os autores escrevem para salvarem-se de si mesmos e das pressões do mundo, escrevem para se entenderem; organizam pensamentos, opiniões, críticas e amores que estão lhe atormentando o juízo, cuja transposição para o papel parece ser seu álibi. Dessa forma, o autor é tão dependente da escrita quanto ela desse. O eu lírico do poeta, por exemplo, necessita da poesia para sobreviver, não apenas a faz por hobby ou prazer, a faz porque ela o mantém vivo, e sem ela, o poeta, nada mais é do que um mero mortal sem identidade. Fazendo uma analogia, a poesia está para o poeta como a lágrima está para aquele que sofre. Ambas têm o poder de afagar o coração e propiciar aquela sensação de alívio, descarregando um peso que cansava a alma. O choro não é sinônimo de tristeza, mas sim de liberdade, assim como a poesia, que liberta o poeta de suas próprias amarras, trazendo-o à luz de fora da caverna. Portanto, a poesia é para o poeta e o texto é para o escritor, pura liberdade, pura identidade, pura vida transposta em palavras. lagrimas-300x215.jpg


Natalia Cola de Paula

A escrita pulsa em mim, ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve..
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