Natalia Cola de Paula

A escrita pulsa em mim, ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve.

A liquidez do amor

Uma conversa acerca dos reflexos da modernidade nas relações humanas.


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Em 2003, o sociólogo e escritor Zygmunt Bauman redigiu uma obra que é o espelho da modernidade, expressa os reflexos da vida moderna nos relacionamentos humanos. Tal livro é: "Amor Líquido" - sobre a fragilidade dos laços humanos. Essa obra revolucionária nos traz algumas verdades, a saber, os relacionamentos se tornaram cada vez mais fugazes, efêmeros e superficiais, embebidos da mesma ilusão e fragilidade das redes sociais, em que as pessoas se esforçam demasiadamente para parecerem felizes, lindas e ricas, ostentando um sorriso que, por vezes não ocupa sua alma. Como bem diz a frase do referido livro de Bauman, "Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar". Infelizmente, tal frase está mais do que consumada na era digital, em que nada dura. As pessoas mudam de ideia rapidamente, são voláteis; valores sofrem inversões,o que é justo e correto passa a ser careta e ultrapassado; a justiça, que deveria ser sinônimo de imparcialidade, muda de lado conforme os réus; as pessoas são cada vez mais influenciadas pela mídia, adeptas ao consumismo e dependentes dessa incessante necessidade de estarem atualizadas em todos aspectos. Realmente, vivemos tempos estranhos, em que o ter vale mais do que o ser.

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Se analisarmos a compulsividade das pessoas por novidades, por consumir cada vez mais produtos recém lançados, por comprar mesmo sem precisar, por substituir seus produtos tecnológicos por outros mais modernos, vamos compreender que essa compulsão pelo novo afeta também nosso relacionamento com as pessoas. Precisamos sempre estar fazendo algo novo, experimentando coisas novas e, consequentemente, pessoas novas. Atualmente, cada vez mais nos deparamos com amores relâmpagos, amores virtuais, que aparecem e nos contagiam instantaneamente, e na mesma rapidez se esvaem. Isso, para alguns, é algo normal, usam a famosa expressão "segue o baile", todavia, será que o baile segue mesmo? Por mais que as pessoas tentem mostrar ao mundo em seus "status" e "stories" que estão bem, repletos de amigos, sorrindo, em festas, com bebidas e diversão, muitas vezes elas estão só mascarando um sentimento de vazio. Um vazio que, comumente, tenta ser preenchido com esses amores relâmpago, que suprem, momentaneamente, sentimentos de carência, solidão, medo, e insegurança, nos dando uma falsa impressão de felicidade e plenitude. Uma coisa é certa, só seremos felizes conosco quando possuirmos autoconhecimento suficiente para sabermos quem somos, quais são nossos sonhos e prioridades, o que nos move e, principalmente, que tipo de pessoa nos faz bem, que tipo de pessoa queremos ter ao nosso lado.

Pessoas bem resolvidas, seguras, que se amam, se respeitam, e que possuem autoconhecimento sobre si mesmas, não se sujeitam à tentativa de suprir um vazio existencial seu se relacionando com pessoas que mal conhecem. Esse vazio, que assola muitas pessoas e deixam-nas deprimidas quando estão sós, somente existe pelo fato delas não apreciarem sua própria companhia e sempre precisarem da aprovação do outro para sentirem-se bem consigo mesmas. É nesse ponto que entram as redes sociais, servindo para expor as pessoas, expor carências, expor falsas seguranças, expor ostentação, expor uma felicidade que, muitas vezes, não é sincera, no intuito de que essa exposição exacerbada tragam-nas a sensação de plenitude e paz interior, de segurança e felicidade que todos querem obter, através da aprovação e elogio alheios.

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Nesse mesmo contexto surgem os relacionamentos líquidos, como diria Bauman, em que as pessoas se encantam, se apaixonam subitamente por uma ideia de pessoa perfeita que não existe, por isso é algo ideal. Depois acabam se frustrando quando se deparam com os defeitos e com a vida real, nem tão "glamourosa" quanto aquela ostentada nas redes sociais. Momento em que as frustrações chegam, as dificuldades e problemas também, momento em que há essa simples e fria ruptura de laços que já eram frouxos, e se rompem de vez. É sabido que outra facilidade incorporada pela modernidade é a facilidade de romper laços, é só "bloquear", desfazer a amizade, excluir, e pronto! Tudo volta como antes, ao menos virtualmente falando, é como se não tivesse tido a mínima relevância aquela pessoa em sua vida. Dali a alguns dias lá estão as mesmas pessoas à procura de um novo "amor", não que isso seja errado, mas é sim precipitado. Ingressam em um novo relacionamento ao invés de pensarem em si mesmas e se recuperarem daquele relacionamento pretérito. Vira um ciclo vicioso e incurável, de amores e desamores. Deveriam pensar nos acertos e erros, fazerem uma breve reflexão acerca daquele relacionamento, afim de aprender e sair daquela relação uma pessoa melhor e mais madura, sem rancores ou traumas.

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É imprescindível que tenhamos a sensibilidade de notar quais pessoas são compatíveis conosco, não diria parecidas, mas sim que nos aceitam do jeito que somos, que possuem os mesmos valores e visões de mundo. Para evitarmos dizermos a palavra "amor" em vão. Não existem pessoas certas ou erradas, existem pessoas com visões de mundo parecidas, caminhos convergentes e sonhos em comum, pessoas que simplesmente se agregam, fazem bem uma a outra. É essa sensibilidade sábia que precisamos ter para escolher com quem nos relacionamos, para não nos frustarmos com a ideia que criamos das pessoas. Pois, cada vez que nos relacionamos com pessoas incompatíveis conosco ou com energias e modos de encarar a vida opostos dos nossos, tais relacionamentos tendem a nos exaurir, nos deixar mal pelo fato de culminarem em fracasso. Não acredito piamente no ditado popular "os opostos se atraem", prefiro aderir à letra de uma música de O Teatro Mágico que diz: "os opostos se distraem, e os dispostos se atraem".

Penso que todas pessoas que passam em nossas vidas nos ensinam muito, deixam muito de si e levam um pouco de nós ao partirem, porque relacionamento é troca, é intercâmbio de vivências e experiências. Justamente por isso é tão importante dar-se um tempo após um relacionamento, pensar, dar um novo significado àquela pessoa em sua vida. Só assim estaremos prontos para seguir em frente, e , quiçá, encontrarmos uma pessoa que nos acrescente, não que nos preencha, porque ninguém nasceu pela metade ou incompleto, mas que nos transborde à medida de que a sua presença e companhia nos faça seres melhores a cada dia.


Natalia Cola de Paula

A escrita pulsa em mim, ela é capaz de transformar as pessoas, emocionar, transmitir conhecimentos e sensações. Por isso que escrever é sinônimo de compartilhar saberes, e sonhos. Ademais, é uma experiência que proporciona prazer e aprendizagem a quem escreve..
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