realismo fantástico

As coisas de todo dia podem conceber descobertas e pensamentos fantásticos

Lara Matos

Chão de Estrelas

Perfis em redes sociais que abordam a astrologia de forma divertida surgem aos montes. Se de um lado muita gente gosta de aprender mais sobre o tema, outros dirigem a essa “modinha” uma antipatia e uma descrença que beira a revolta. Contudo, a astrologia é uma forma ancestral de autoconhecimento e pode, sim, ser auxiliar da compreensão da natureza humana, ultrapassando os estereótipos de ser mera superstição determinista.


zd3.jpg Perfis em redes sociais que abordam a astrologia de forma divertida surgem aos borbotões. Se de um lado muita gente gosta de aprender mais sobre o tema, outros dirigem a essa “modinha” uma antipatia e uma descrença que beira a revolta. Bem, astrologia é uma forma de conhecimento (gnose) milenar, que auxiliou a nossa noção de contagem do tempo e contribuiu incrivelmente para a astronomia. O zodíaco mais conhecido hoje, de doze signos astrológicos foi popularizado pelos gregos, baseado em crenças egípcias, babilônicas e mesopotâmicas. Mas a maioria dos povos antigos, como hindus e chineses, consultava os astros para aprender sobre o destino e têm seus próprios horóscopos. O principal problema para a astrologia, a despeito dos muitos curiosos a seu respeito, ser tão odiada de modo crescente é a forte tendência das pessoas de fazer confusão entre forma de conhecimento com ciência. Apesar de ser uma forma de gnose há muito conhecida, a astrologia NÃO é científica pelos padrões cartesianos o kantianos (fórmula para distinção de validade científica amplamente aceito em que hipóteses podem ser provadas e experimentadas com resultados mais ou menos semelhantes). É algo que não pode ser provado, mas da mesma forma são as lendas que, longe de serem fáticas, nem por isso perdem seu valor instrutivo sobre o inconsciente coletivo e a natureza humana. As histórias de como surgiram as constelações dos signos também são muito belas e inspiradoras. O meu, sagitário, vem de Quirão, o mais sábio centauro (metade homem metade cavalo, conhecidos pela impetuosidade, inteligência e selvageria), mentor de muitos heróis, dentre eles, Hércules. Era também professor de medicina, ginástica e astronomia. Por acidente, Hércules acertou uma flecha no ombro de Quirão, que era imortal e após mesmo buscar todos os tratamentos, não conseguiu livrar-se da dor. Em agonia, pediu a Zeus que o matasse. O deus, então, transformou o sábio na constelação de sagitário. Quirão lutou para ser livre, feliz e não sentir dor, nem que isso lhe custasse muito sacrifício. Esta história é uma inspiração para luta com dores diárias e a demonstração de que não se deve aceitar todos os fardos em sacrifício ao espírito. Muito me preocupa essa repulsa crescente por aqueles em que acreditam (ou apenas se divertem com as curiosidades sobre) em tão algo leve e simplório, porque o cientificismo também cega: se fôssemos pensar só pelo lado do que foi estudado e pode ser provado e decantado pelo método científico, muito do conhecimento que temos estaria perdido, ainda mais na parte subjetiva da personalidade humana, que é muito complexa para se enquadrar em um só método rígido. De testes de revista a perfis psicológicos, muitas pessoas buscam auto conhecimento de modo leve e descompromissado. Tudo o que permita saber melhor quem se é pode ser válido e bem-vindo. Não significa que estas coisas vão me limitar a personalidade de alguém. Mas a astrologia ajuda, e muito, no reconhecimento de pontos positivos e negativos do modo de ser, algo fundamental para a construção de uma autoestima saudável. E se algo assim é instrumento para aprimorar a convivência com outras pessoas, nossa, que seja usado, então. E agora aqui estou, fazendo mapas para meus amigos e escrevendo sinastrias, na maioria das vezes por diversão, mas também encantada por ser descendente de estrelas. Em algum lugar dentro de mim ainda creio que somos todos um pouco estrelas, planetas, galáxias. Somos universo, complexo e com uma infinitude de possibilidades. Talvez seja essa a lição final da astrologia.


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