recanto dos ventos indomados

Oferecendo um gole de leveza

Mariana Rosa

Num estado perpétuo de inspiração para ler, dançar, amar, e por em prática todos os verbos que regem o mundo.

O antigo novo

Limpando as lentes da convicção. Essa parcela ínfima de conhecimento e mundo que nos cabe, vai se tornando cada vez menor, quando nos deixamos surpreender com a amplitude de cada detalhe. E é isso que nos torna mais grandiosos, acolhedores, mais vividos, menos pedantes


Imagen Thumbnail para tumblr_ndcuiqLDdC1ts8igzo1_1280.jpg Todos os dias, encarcerados no nosso cotidiano, nos habituamos a tudo que está ao nosso redor. E é aí que mora o X da questão. Em qual bolso guardamos a estupefação que antes, na nossa infância tanto fazia parte do nosso dia dia? E temperava nosso mundo com todas as pequenas gigantes descobertas. Em qual dia deixamos de lado nossa essência infantil e vestimos a capa do costume e da indiferença?

Quando pequenos, temos necessidade de descobrir cada detalhe de tudo que nos cerca, não nos contentamos em ver, nos surpreender, temos que pegar, e muitas vezes até por na boca, pra sentir, conhecer . Afinal, nunca vimos aquilo. Aquele brinquedo, pedra, ou qualquer objeto que nos cruza o caminho. Ao nos tornarmos adultos* já sabemos do que se trata.

Jostein Gaarder, no O Mundo de Sofia perfeitamente explicitou a habituação que temos com o mundo. Todos nós somos pulgas na pelagem de um coelho. Ao nascermos estamos nas pontas dos pelos, e por estarmos na parte de cima conseguimos ver todo o universo, e nos surpreendemos frequentemente com tudo que vemos, afinal a parte lá de cima é ótima, a visão é espantadora. Com o decorrer do tempo vamos descendo, antes nas pontas, vamos para a base, mais perto da pele. A nossa volta vai se obscurecendo, de baixo não dá pra ver tão bem. Mas não precisamos ver mais nada, já conhecemos tudo, não é mesmo?

Nosso maravilhoso inventador de palavras,Manuel Bandeira com versos dos mais mágicos possíveis nos instigou (e muito )com essa dedicação de amor, nos fazendo repensar sobre com qual olhar estamos hoje reparando o mundo e as pessoas com quem vivemos

"Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:

-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.

A moça olhou de lado e esperou.

-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?

A moça se lembrava:

-A gente fica olhando...

A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doçura:

-Antônia, você parece uma lagarta listrada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.

O rapaz concluiu:

-Antônia, você é engraçada! Você parece louca."

Quando pequenos vemos um bicho diferente, uma lagarta, e aquilo nos toca de uma forma tão marcante. A descoberta de um outro ser. Gostamos de ver de perto, perguntamos aos mais velhos qual o nome, qual o sentido. Que cores! Que formato! Será que morde? O que aos nossos olhos é tão indiferente, tão rotineiro, aos olhos das crianças tem uma inesperada magia, cada detalhe é um extraordinário. Mas os anos vão passando e aquilo se torna apenas uma lagarta. Um animal que está no primeiro estágio larval dos insetos da ordem dos Lepidoptera, já vimos tantas vezes, que diferença que aquilo faz?

Nos começos de relacionamentos tudo é descoberta, a pessoa é tão interessante, seu modo de agir e pensar. Mas depois vamos perdendo o gostinho do novo. Cai na rotina, acostumamos. Com o passar do tempo vamos sendo abitolados, alienados. Nada é mais novidade. Quando reavivamos o que com o passar do tempo foi se desgastando, o amor se aflora.

Tivemos um ótimo impulso a quebrar essa costumeira forma de viver com as vanguardas europeias, que inovaram toda forma de arte. O Cubismo despertou essa mudança de perspectiva, que tanto precisamos. De um mesmo objeto que até então temos a ilusão de conhecer, já saber exatamente do que se trata, somos convidados a ver de diversas formas, ângulos diferentes. Pudemos ter um agito na nossa visão absorta de mundo.

Pablo Picasso A Musa- 1935

Georges Braque Violino e sheet music-petit oiseau-1913.jpg E é aí que descobrimos que na verdade nossa convicta compreensão era apenas a noção de uma exterioridade. Necessitamos a todo momento renovar nosso olhar, o incompreensível é tão mais belo que a certeza. "Eu prefiro ser/Essa metamorfose ambulante/Do que ter aquela velha opinião/Formada sobre tudo".

Quero ser sempre uma lagarta aos olhos daqueles que amo.

*Adultos: Aqueles que desaprenderam a incompreender


Mariana Rosa

Num estado perpétuo de inspiração para ler, dançar, amar, e por em prática todos os verbos que regem o mundo. .
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