redemoinho

Levantando a poeira de seus pensamentos

Fabí Araújo

Historiadora, pesquisadora árdua de sentimentos profundos meu maior desejo é aprender como me teletransportar.
Sonhadora por natureza acredito que rosas são estrelas e estrelas são pessoas brilhando por aí

VIOLETTE, O FILME: A ESCRITORA “FEIA” APADRINHADA POR SIMONE DE BEAUVOIR

A vida fez amigas duas mulheres talentosas. Numa pairava a certeza do seu dom, a outra uma visão distorcida de si mesma.


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Escritora nata, encantou e inspirou Simone de Beauvoir, Jean Paul Sartre, Albert Camus e Jean Genet, autores proeminentes na época, e Jacques Guérin colecionador de livros e manuscritos raros.

À frente de seu tempo gostava de se relacionar sexualmente com homens e mulheres, os retratando em seus livros. Intensa e tórrida em suas descrições foi incentivada por Beauvoir a ir além, passando para o papel todos os traumas, medos e angústias vividos como forma de libertação pessoal.

Admirada e aplaudida como autora ímpar por intelectuais renomados, fora incompreendida no começo da carreira pelo público em geral, que não a lia.

A ESTRELA INSEGURA

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“A feiura em uma mulher é um pecado mortal. Se você é linda, é olhada na rua por sua beleza. Se você é feia, é olhada na rua por sua feiura”. Violette

Violette Leduc considerava-se feia e sem atrativos, sem confiança para transpor as dificuldades e dar vazão as suas potencialidades. Foi Maurice Sachs um escritor com quem conviveu por um tempo que a encorajou escrever suas memórias.

"Escrever... Maurice falava disso como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Escrever... senti-me mole, anestesiada pela incapacidade..." Violette

Os abalos emocionais da infância eram mais fortes do que todos os elogios e estímulos recebidos. Sendo assim levou quase 20 anos para fazer sucesso e ficar para história.

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Se conheceram num rompante de coragem de Violette. Com as memórias em mãos, seguiu Simone para ver onde morava. Esperou-a sair.

Afoita, entregou o manuscrito dizendo: Olá senhora! Aqui está. Coloquei toda a minha vida aqui dentro.

− Desculpe estou com pressa. Mas vou ler! e pensou: Uma burguesa cujas lembranças devem ser tediosas.

Havia se enganado.

A ASFIXIA − O PRIMEIRO LIVRO

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Escrito em 1945, nas primeiras linhas lê-se:

“Minha mãe nunca me deu a mão. Ela ajudava a subir e descer calçadas beliscando sob a roupa onde se alcança a parte da mulher. Me ouça, tente entender, isso me humilhava.

Eu rejeitava a mão. Eu era só uma empregada. Ela apertava mais, e me levantava como se fosse um frango pendurado pelas asas. Eu ficava molóide. Não me mexia mais. Minha mãe via as lágrimas. 'Você quer ser atropelada? Está chorando?’ Era ela quem me esmagava”.

Beauvoir empolgada e surpreendida escreve um telegrama chamando-a para conversar. Fascinada diz: “Um belo livro. Poderoso, Intenso e intrépido. ... Preciso de uma cópia definitiva em uma semana, em 10 dias, no máximo. ... Nós duas vamos trabalhar bem, juntas".

"Vai contar tudo. O tráfico, os seus amores e principalmente o aborto. Irá ajudar a muitas mulheres".

O APADRINHAMENTO

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Violette sobrevivia vendendo produtos alimentícios adquiridos no mercado negro na época da guerra. O comércio acabou e o mercado fechou.

Frustada com a pouca procura do seu livro, disse a Beauvoir: Do que vou viver agora? Eu gastei todo o meu dinheiro. Como irei me sustentar? Escrever para quem? Não interesso a ninguém.

Juntos Beauvoir e Sartre começaram a depositar mensalmente uma quantia sem ela saber. Disseram que Albert Camus diretor da Editora Gallimard a estava patrocinando e gostaria de vê-la produzir mais livros.

Violette disse: "Sou um deserto que monologa"

A FAMINTA − O SEGUNDO LIVRO

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Escrito em 1947 e dedicado a Simone, lê-se:

“Se ela me mandar tirar os sapatos, correr sobre pedras, pregos, vidro, espinhos, eu saberei fazê-lo. Ela não precisa me ter descalça andando no vidro, nos espinhos, nos pregos, isso eu entendo. Eu grito porque consigo entender. Eu sonhei que você me amava, senhora ..."

Sartre achou um grande livro. A editora Gallimand assinou o contrato. Foram publicados juntos "O segundo sexo" e "A faminta".

O livro de Beauvoir causou polêmica e vendeu muito, o de Leduc não.

CAOS − O LIVRO MUTILADO

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Publicado em 1954, desagradou os editores. Eliminaram o relato amoroso com Isabelle a colega de internato, a história do aborto e o erotismo vivido com Jacques Mercier seu ex-marido.

Fracasso de vendas.

Entrou em crise existencial sendo internada por meses. Todas as despesas foram pagas por Simone. Quando recebeu alta, a mãe a amparou e a acolheu como nunca havia feito antes.

Recuperou-se e voltou a escrever.

TRECHO CENSURADO − O ROMANCE COM ISABELLE

"O polvo na minha barriga tremia. Isabelle bebia no seio direito e no esquerdo. Eu bebia junto com ela. Me amamentava da escuridão quando sua boca se afastava. Conduzia sua mão até as raras lágrimas de alegria. Cravei seu pescoço com meus dentes. Aspirei a noite sob a gola de seu vestido..."

TRECHO CENSURADO − O PRIMEIRO HOMEM

"Foi a primeira vez que penetrei na intimidade das cuecas de um homem. Minha mão aflorou uma pilha de ternura, como nos seios de uma mulher. Sobre ele, eu procurava, eu tateava. Eu encontrei. Toquei uma pele enrugada, delicada como uma pálpebra. Ele se ofereceu. Eu sufoquei um grito. Esta foi a primeira vez. Não há dinheiro que pague isto, dizia minha mãe".

A BASTARDA − TRIUNFO E CONSAGRAÇÃO

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A vocação latejava em seus dedos e sua aparência nunca foi empecilho para a fama, seus medos sim. Inúmeros foram os motivos das contínuas publicações fracassadas, porém o peso maior recaiu sobre a incapacidade de reconhecer-se talentosa e por se achar "feia".

Violette disse:

"... Dois passos que dei para me aproximar daquilo que jamais seria: Uma mulher rica, uma mulher bonita, uma mulher segura de si".

"... Consolava-me a perspectiva de enfarruscar o rosto e meu nariz tão grosso, no dia da festa, este rosto que me atormentava, do qual me considerava vítima..."

o sucesso de público e vendas veio em 1964, com o livro “A bastarda” pela Gallimard.

"Uma família que queria fazer-se passar por muito distinta, que não me respondia quando lhes dava bom dia, me chamou de bastarda. "O que significa isso?", perguntei a minha mãe, entrando como um furacão na cozinha. Minha mãe empalideceu. "Não significa nada." E saiu furiosa. Abri a fresta e a ouvi em alta grita. Arrependi-me da minha curiosidade". Violette

Após a consagração continuou a escrever e publicou mais 4 livros até sua morte em 1972.

"... Partirei tal como cheguei, intacta, carregada de todos os defeitos que me torturaram..." Violette


Fabí Araújo

Historiadora, pesquisadora árdua de sentimentos profundos meu maior desejo é aprender como me teletransportar. Sonhadora por natureza acredito que rosas são estrelas e estrelas são pessoas brilhando por aí .
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