LIANA GAZZONE

Batalha épica: Mulher X Paradigmas Sociais

"Falamos hoje de uma mulher forte, que foi educada para ser profissional e competir pelo espaço com os “machos alfa”. Falamos de uma mulher que além de estudar muito e conquistar um emprego, precisa manter a casa, filhos e marido. Falamos de uma mulher que precisa abaixar os olhos para não ser agredida moralmente enquanto pensa no que vai cozinhar para janta, apesar de trabalhar o dia todo e lidar com os problemas de sua profissão."


Faz alguns dias que eu ando conversando sobre isso com algumas pessoas e batendo nessa mesma tecla: Por que as mulheres precisam tanto batalhar por espaço ou para serem ouvidas, enquanto aos homens basta falar grosso? Transcrevi um trecho de Grey’s Anatomy que relatava a tese, cientificamente provada, de que a mulher é menos ouvida do que o homem; li e compartilhei no Facebook um texto que descrevia que os homens não foram criados para conviver com mulheres independentes e por esses dias li um artigo de uma advogada com o título “Vai de decote que a causa é ganha”. Isso tudo tem me feito pensar muito: o que acontece com esse mundo contemporâneo que se diz nada machista, mas que esqueceu de evoluir? Isso mesmo: EVOLUIR!

A evolução a que digo respeito é a de uma sociedade que insiste em manter paradigmas criados e que deixou de perceber a mudança progressiva de uma mulher que passou a ser totalmente avessa ao modelo “perfeito”. Falamos hoje de uma mulher forte, que foi educada para ser profissional e competir pelo espaço com os “machos alfa”. Falamos de uma mulher que além de estudar muito e conquistar um emprego, precisa manter a casa, filhos e marido. Falamos de uma mulher que precisa abaixar os olhos para não ser agredida moralmente enquanto pensa no que vai cozinhar para janta, apesar de trabalhar o dia todo e lidar com os problemas de sua profissão. Falamos de uma mulher que acorda pela manhã e precisa estar linda, mas ao mesmo tempo com a cabeça no que vai dizer para seu chefe e em como vai fazê-lo entender que ela sabe do que está falando. Falamos de uma mulher que é cobrada pelo marido em ganhar maiores salários, em ser a primeira, em passar nos concursos, mas ser modelo de submissão conforme as leis de Deus. Falamos de uma mulher que chora de raiva e é acusada de ser sentimental demais, e que transforma esse sentimento em força para continuar. Falamos de uma mulher que não abandona os filhos, apesar de ter que colocá-los na escola muito cedo e ensiná-los a “se virar”. Falamos de todas nós que lutamos por espaço dia após dia e ainda somos vistas com certo receio...

Essa evolução aconteceu, a mulher está inserida no mercado de trabalho e competindo com os homens “mais fortes, maiores e mais rápidos” e sabemos que, muitas vezes, ela faz sim um trabalho mais bem elaborado ou capricha mais no que faz. Porém, infelizmente há muito “pré-conceito”! “Preconcebido”, “predefinido”, “pré-formado” são esses conceitos que os homens sempre fazem e a maioria das vezes é sem perceber! Não podemos culpá-los! Tudo é tão enraizado nesta sociedade predominantemente machista que nem sequer percebemos! Só que nós mulheres sentimos... sentimos os olhares, as dúvidas e até mesmo os deboches! Sabemos que isso existe, mas sentir na pele é deveras doloroso!

E quando me refiro a tantas experiências, não só minhas, mas de histórias que ouço, acabo me lembrando de que o meu aprendizado tem sido no mesmo caminho de tantas mulheres, e vejo que estamos sempre no mesmo embate moral. Mas nós, advogadas, sabemos que há esse infeliz preconceito e que é muito constante nessa nossa profissão! Hoje mesmo, e como em tantos outros dias, procuram-me para consultas e ao final perguntam “Você trabalha pra qual advogado?” ou “Será que você trabalha com um homem que possa cuidar do meu caso?” ou ainda “Você é advogada mesmo?”... e por aí vai...

E nas tantas vezes que não somos ouvidas, ou que alguns colegas de profissão pensam que “o que ela está falando?” estamos construindo teses e argumentos que fogem da compreensão, mas que são levados pelo conceito de que não sabemos sobre o que estamos discutindo, ou que somos literalmente “limitadas intelectualmente”!

Não é relato de mulherzinha revoltada! É relato de MULHER que luta todo dia por espaço e, simplesmente, para conquistar sua liberdade! Porque nesse mundo de homens “fortes e rápidos”, a mulher NÃO nasce livre... ela se torna livre quando conquista isso!


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