LIANA GAZZONE

Toda história tem dois lados – uma breve análise sobre o lado negro do casamento apresentada cruelmente em “Garota Exemplar”

A ideia central do filme Garota Exemplar é demostrar que, apesar de ser mais interessante acreditar no conto de fadas, há sim o lado obscuro do casamento! E que você só vai descobrir depois de vive-lo!


Garota Exemplar (inspirado no livro de Gillian Flynn) parece ser um drama/suspense que te deixa inicialmente confuso sobre “do quê” realmente se trata a trama. Até mesmo após o fim do filme, parei e pensei: “acho que vou assistir de novo pra ver se entendi mesmo...”. Mas o que mais me intrigou foram as críticas que ouvi sobre ele. Percebi, enfim, que talvez as pessoas têm agido como se a vida fosse um círculo perfeito, um caminho longo e florido com tudo aquilo que te contaram na infância sobre “viver feliz para sempre”. Eu sei que muito disso vem do “querer acreditar” ou do próprio receio em fracassar nas tentativas de cumprir o roteiro social estabelecido para a vida perfeita, que é natural ao ser humano! Mas a ideia da produção é demostrar que há sim o lado obscuro do casamento! E que você só vai descobrir depois de vive-lo!

“O mundo é negro, e então, hora do show!” (Nick Dunne) Talvez a forma como a Autora tenha demonstrado seja irreal ou exagerada – ou como alguém me disse: “viajada” – típica das grandes histórias de ficção. Porém, a beleza do suspense criado está na demonstração daquilo que muitas e muitas pessoas vivem dentro de um relacionamento e que essas teorias os fazem se sentir verdadeiros ET’s (de cor verde e tudo) por não viver exatamente o lindo conto de fadas que um dia lhes foi contado, por estarem em desacordo ao que um dia lhe disseram ser “normal”. O que dizer sobre a vida a dois quando ela insiste em rumar por estradas tortuosas? O que dizer sobre interesses divergentes e caminhos traçados que, de repente, “como num passe de mágica”, tomam rumos totalmente diferentes, tornando-se no fim das contas, o “desencontro” perfeito? O que dizer quando tudo desmorona e você simplesmente não consegue mais sequer manter uma convivência pacífica? O que dizer para aquele que descobre a “tragédia anunciada” para um relacionamento entre pessoas de mundos completamente distintos que insistem em trilhar um itinerário em comum?

“É humilhante se tornar a coisa de que você caçoava.” (Amy Elliot) E aí está o ponto principal... Nem sempre aquele destino traçado no início de uma vida a dois se concretiza... Aliás, é mais comum do que se imagina tudo se desencaixar e desabar como um castelo de cartas... É mais comum do que se imagina você “dormir com o inimigo”... É mais comum ainda você deixar de viver sonhos e concretizar objetivos para manter o seu conto de fadas às avessas. Ouvindo uma conversa de amigas, em que uma delas dizia “ruim com ele, pior sem ele”, percebi que os atos extremos, conforme ocorre na ficção, só não acontecem de verdade quando um dos pombinhos resolve sofrer de sintomas de anulação. Assim como Amy, que deixou seus sonhos e ideais para viver o casamento perfeito, em que a mulher cede e o homem nem nota seu sacrifício perfeito, milhares ou milhões de mulheres desabam em suas camas em lágrimas, todas as noites procurando entender: “o que estou fazendo aqui?”, ou “qual o sentido de tudo isso?”. Mas a grande questão vai mais além: como acabar com esse sofrimento que insiste em se derramar por tantos e tantos relacionamentos? Isso porque sempre haverá um dos indivíduos, nessa união, que vai ser insensível suficiente para deixar de lado toda e qualquer emoção e escravizar o outro, aquele outro que sempre é o “romântico incurável” da relação, a uma vida nula e fria! Não que eu levante aqui a bandeira da solteirice eterna – longe disso – também não acho que não se deve lutar para que a escolha que um dia os fez sonhar, possa realmente trazer os frutos desejados. Pelo contrário, acho que é esse o segredo de manter o relacionamento a dois: Mudar os objetivos e construir metas em comum!

Porém não adianta dizer que não existem casos como de Amy e Nick Dunne, ou que a ficção seja uma grande baboseira demasiadamente exagerada! Ou mesmo que não existem pessoas capazes de fazer de tudo para aparentar à sociedade ser o esposo ou a esposa perfeita. Existem e estão por aí aos milhões... Estão em todos aqueles que estão casados ou mesmo que já passaram pelo tão temido divórcio! Acontece que em todos esses relacionamentos de aparência, ou mesmo nesses em que houve o rompimento do “laço matrimonial”, houve um dia o grande desejo pelo imperfeito, e mais, o desejo de mostrar toda essa imperfeição! Mas o mais importante vem à tona: o tal do “felizes para sempre”, daquele safado conto de fadas lá do comecinho (ops, finalzinho) da história!

“Nenhum relacionamento é perfeito.” Pronto! Nada mais é perfeito! E aí? E aí vem o a aflição e o desalento de ver tudo vir abaixo... e aí vale tudo, tudo mesmo... E aí mostrar para os outros que você fracassou é realmente muito, mas muito pior do que construir uma história ousada que vai além da imaginação, que vai além dos limites da sensatez... E aí você se torna capaz de fazer o inimaginável para não ver seu lindo castelo ruir (assim como na ficção)... E aí você se torna o casal Dunne que sequer sabia que existia. E por fim pensa: O que ficou?

É... Amy e Nick existem, e muitas vezes estão dentro de sua casa... Você só não aceita que isso é possível! Também, em um mundo em que até em “Sherek” (o conto de fadas mais torto que já existiu) há um “feliz para sempre”, porque com você deveria ser diferente?


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