Monique Cougo Rodrigues

Reflexiva, amante de literatura, fotografia, filosofia e artes em geral. Vejo poesia nos detalhes, questiono até o que é mais simples e valorizo além do que é apenas essencial

Mr. Darcy, de Orgulho e Preconceito e suas peculiaridades

Por que a personalidade de um dos mais conhecidos personagens masculinos nunca sai de moda.


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Uma das características de um clássico literário é sua atemporalidade, ou seja, o quanto o leitor pode se identificar com a obra, mesmo que a narrativa se passe em outras épocas. Na obra “Orgulho e Preconceito” (Jane Austen, 1813), percebemos personagens peculiares e com condutas e sentimentos nada idealizados, defeitos inerentes aos seres humanos e uma forte crítica à sociedade aristocrática do século XIX.

Em uma sociedade na qual as camadas sociais não se misturavam e as mulheres não possuíam valores igualitários aos dos homens, na Inglaterra, se passa a história da família Bennet. O sr. e a sra. Bennet possuem cinco filhas, tendo a mais velha, Jane, 22 anos de idade e a mais jovem, Lydia, 15. No entanto, a história se passa de acordo com a visão de mundo de Elizabeth Bennet, a segunda filha, então com 21 anos. Lizzy, como era chamada pelos entes queridos, chamava a atenção por sua beleza, inteligência e sagacidade. Essa última característica a levava, muitas vezes, a julgar as pessoas pelas primeiras impressões e quase a impediu de encontrar seu amor mais puro.

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A sra. Bennet sonhava em casar as cinco filhas, pois seu marido não possuía fortuna. Dessa forma, no momento em que ele morresse, sua casa seria entregue ao parente masculino mais próximo, no caso deles, o primo Collins. Esse primo era um clérigo desprovido de inteligência e que, mesmo assim, falava demais (dá pra imaginar companhia mais chata?). Só de pensar em ver suas filhas ser um lar, a sra. Bennet passava mal (ela sempre alegava ter problemas nos nervos). Essa necessidade de ver as filhas casadas a fazia agir impulsivamente em público, o que deixava as filhas mais velhas muito desconfortáveis e embaraçadas. Sua falta de discrição ao jogar as meninas para cima dos mais variados tipos de homens (desde oficiais do exército a homens muito ricos), fazia com que sua família, que já vinha de uma classe desfavorável, fosse cada vez mais mal vista em sociedade.

Os planos da sra. Bennet parecem se concretizar a partir do momento em que um jovem, dono de uma grande fortuna, aluga uma propriedade próxima à sua casa. O jovem em questão se chama Charles Bingley e junto com ele vieram suas irmãs e seu amigo mais íntimo, o sr. Fitzwilliam Darcy, 28 anos de idade, ainda mais rico do que o primeiro.

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O sr. Bingley prontamente se encanta com a beleza e a delicadeza de Jane, a Bennet mais velha. Nos bailes em que frequentavam, ele procurava convidá-la a dançar e ela logo também foi convidada a conhecer sua casa, pois as irmãs Bingley também a aprovaram. Em contrapartida, seu amigo Darcy não se aproximou de nenhuma moça, o que logo fez com que ele parecesse sentir-se superior às pessoas do local. Ao ouvir Bingley recomendá-lo a dançar com Lizzy, ele apenas respondeu que ela é “tolerável”, mas não era “bonita o bastante para ele”. A moça ouviu essa sentença e o desprezou em seus sentimentos.

O sr. Darcy era taciturno, calado e muito reservado. Porém, ninguém podia negar que ele era muito atraente e inteligente. Ao encontrar-se com Lizzy outras vezes, percebeu que gostava dos olhos dela e começou a tentar afastar-se, já que entendeu que não conseguia ficar indiferente ao jeito dela e que, na verdade, já estava se sentindo atraído. O dilema de ter sentimentos por ela residia no que sua família esperava dele, já que ele estava prometido a uma prima desde criança.

Apesar de tudo isso, esse homem tão reservado e de aparência arrogante, possuía um bom coração e somente as pessoas mais íntimas podiam ter acesso a esse lado de sua personalidade. Seu jeito único de ser sincero, um dia, o fez abrir-se com Elizabeth e admitir que a amava “ardentemente”, pedindo-a em casamento e admitindo que estava em agonia por estar longe dela. Essa atitude revelava mais um traço muito admirável em Darcy: Ele era maduro o suficiente pra não fazer jogos e ser verdadeiro em relação ao que queria. Ao pedi-la em casamento, ele se libertou de seus preconceitos e buscou a felicidade ao lado da moça que ele tanto admirava, pouco valorizando as questões sociais e o que seus parentes esperavam dele.

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Para sua surpresa, Lizzy negou o pedido. Na verdade, esse já era o segundo pedido que ela negava, o primeiro partiu de seu enfadonho primo, o sr. Collins (o clérigo). Dessa vez, porém, sentiu-se lisonjeada, pois percebeu que os sentimentos eram verdadeiros e sabia que muitas moças desejavam estar em seu lugar. O motivo para a negativa residia no fato de que ela descobriu que o sr. Darcy havia afastado sua irmã Jane do sr. Bingley. Mais uma vez se mostrando sincero, Darcy não negou o fato e explicou que tinha apenas alertado seu amigo de que Jane não parecia gostar tanto dele quanto ele gostava dela. Lizzy também disse que ouvira histórias de que ele havia sido cruel com um afilhado de seu pai (o sr. Wickham), negando a ele uma propriedade que lhe havia sido deixada por herança. Sentindo-se rejeitado, o sr. Darcy deixou-lhe uma carta explicando sua inocência em relação às acusações de Wickham.

Com tantos conflitos, julgamentos precipitados e se tratando de um enredo que se passa em época muito distante da atual, ainda assim, os leitores da obra se encantam facilmente com o principal personagem masculino, criado por Jane Austen. Talvez o que mais chame a atenção em Darcy é o fato de que todos o julgam de uma maneira e acabam se surpreendendo com ele de acordo com os acontecimentos. Ele é o típico homem que fala pouco, porém que tem atitudes que o diferem dos demais. Aliás, atitude é a palavra-chave. Enquanto muitos buscam os galanteios e as falsas histórias em prol de autopromoção (como o sr. Collins e o sr. Wickham), Darcy não se preocupava com o que as pessoas pensavam dele. Ele preferia sempre ter discrição em todos os seus atos de bondade.

Pensando na felicidade de Lizzy, mesmo sabendo que ela não queria casar-se com ele e mesmo tendo ouvido muitos insultos da parte dela ao perdir-lhe a mão, o sr. Darcy se envolveu ao máximo com os problemas familiares dela e os resolveu sem contar-lhe nada. Lizzy descobriu tudo sozinha e sentiu-se muito envergonhada por tê-lo julgado tão mal.

Outra atitude admirável do sr. Darcy foi ter ouvido os insultos de Lizzy e realmente ter pensado sobre eles, buscando melhorar sua personalidade. A partir daí ele admitiu seus defeitos e tentou mostrá-la o quanto ele poderia ser diferente do que ela pensava. Ao conhecê-la, ele admitiu que quisesse uma mulher que fosse prendada (soubesse cantar, dançar, tocar piano e falar vários idiomas, além de ler muito), mas por fim, essas qualidades não importavam diante da vivacidade de Lizzy.

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Do século XIX pra cá, o mundo já é outro. Mas a verdade é que mesmo que as mulheres tenham conquistado seu espaço em sociedade e seus direitos, tendo hoje diferentes preocupações, fica difícil resistir a uma personalidade como a do sr. Darcy, o que o tornou um dos personagens ingleses mais conhecidos no mundo.


Monique Cougo Rodrigues

Reflexiva, amante de literatura, fotografia, filosofia e artes em geral. Vejo poesia nos detalhes, questiono até o que é mais simples e valorizo além do que é apenas essencial.
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