reflexões de um cronista

Sentimentalismos, opiniões e reflexões de um jovem que vive numa sociedade desumana e acrítica.

Matheus Dantas

Pernambucano, acadêmico de jornalismo, blogueiro e eterno aprendiz na complexa escola da vida

O quão destrutivo pode ser o passado?

Quando se dá muita importância ao que já passou, há um sério risco de privar-se do que é novo.


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Certa vez, um homem descobriu que um sábio monge que residia num povoado remoto, tinha o poder de voltar ao passado. Sem pestanejar, decidiu procurá-lo. Após meses de viagem, muitos recursos e tempo investidos, conseguiu encontrar o suposto sacerdote. Depois de muita conversa, o homem descobriu que tal façanha só era possível graças a um medalhão mágico. Intrigado, implorou para que o monge o desse o objeto.

- Você o quer mesmo? Então pode levá-lo. Mas tenho uma pequena observação a fazer: Todas as pessoas que usaram o medalhão deixaram de viver. - Afirmou o monge.

- Como?! - Perguntou o homem com a voz embebedada em curiosidade.

- Você só pode saber se usá-lo. - Retrucou o sábio.

Tomado pelo impulso, o homem decidiu levar o medalhão, mesmo sabendo do risco que o objeto poderia trazer. Já em casa, o homem começou a voltar no tempo. Ele ficou impressionado como podia rever toda a sua vida de vários ângulos diferentes, por quantas vezes quisesse. Matou a saudade da época em que sua esposa era viva, relembrou do quão nervoso ficou no dia do primeiro beijo, reviu o dia em que tirou a primeira habilitação, escutou novamente a música de sua formatura.. e continuou repetindo as viagens, a fim de rever cada detalhe dos momentos de sua história.

Dez anos se passaram e o homem continuou usando o medalhão. Mas a observação do monge estava fixada no seu pensamento. Estaria ele errado? Em busca de respostas, voltou ao povoado e reencontrou o sábio.

- Sábio, estou usando o medalhão há dez anos, mas não deixei de viver, acho que você errou. - Disse o homem, com um tom de ironia.

- Tem certeza? - Perguntou o monge.

Após uma breve pausa, o monge continuou:

- Quantas pessoas novas você conheceu durante esses dez anos? Quantas novas histórias tem para contar? Quantas novas experiências viveu? Reencontrou um novo amor? O quanto evoluiu como pessoa?

O silêncio pairou no ambiente. O homem, estático, não conseguiu pronunciar nenhuma palavra. Vendo a falta de reação do visitante, o monge concluiu seu pensamento:

- Você se preocupou tanto com o passado, que esqueceu de construir seu futuro. Você não morreu, mas deixou de viver. Durante esses dez anos, você apenas existiu.


Matheus Dantas

Pernambucano, acadêmico de jornalismo, blogueiro e eterno aprendiz na complexa escola da vida.
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