reflexões de um cronista

Sentimentalismos, opiniões e reflexões de um jovem que vive numa sociedade desumana e acrítica.

Matheus Dantas

Pernambucano, acadêmico de jornalismo, blogueiro e eterno aprendiz na complexa escola da vida

A crônica que nunca existiu

A história por trás da obra que sequer foi criada.


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A tarde está bela, o sol inunda os cômodos da casa, o céu está limpo e azul, e os pássaros cantam numa sintonia ímpar, capaz de despertar inveja em qualquer concerto musical decenário.

Em meio a tudo isso, estou eu, um aprendiz de escritor, de olhar afiado e dedos inquietos, que pedem para rabiscar com a mesma veemência de uma criança que berra e chora, tentando chamar a atenção do seu responsável. Embebedado pelo ambiente, decido caminhar entre a tênue linha que divide o real e o subjetivo, logo, penso em produzir uma crônica.

O papel, branco e plano, é estirado sobre a superfície uniforme e regular da mesa da cozinha. A cadeira é posicionada num local estratégico, que favorece o conforto e uma boa visão do campo de escrita. Sento-me. Saco a caneta de material predominantemente preto e resistente, a tinta da mesma pulsa, quer lançar-se sobre a folha assim como um esfomeado que encara um prato de comida.

Encosto a ponta fina e esferográfica do objeto na superfície do derivado do eucalipto. O vazio e a imensidão daquela folha podem ser preenchidos de várias maneiras, das mais simples, as mais complexas, porém, nenhuma se mostra acessível no momento.

O tempo avança, os segundos começam a se amontoar, os minutos aparecem e logo chegam as horas. Mas lá estou eu, encarando o papel de forma fixa e ininterrupta, abismado com tamanho bloqueio imaginativo. O pigmento da caneta, antes disponível e prestativo, resseca-se na extremidade metálica e redonda, recusando-se a deslizar na superfície incolor, perante tamanha falta de criatividade do escritor.

O suor escorre pela testa, denunciando que tamanho esforço mental começa a ser cobrado pelo corpo. Numa tentativa espontânea de arejar a mente, levanto-me. As pernas doem, estranham o movimento após tanto tempo suspendidas e estáticas. Desesperado, decido preparar uma jarra de café, já que vi em algum lugar, que não há nada mais inspirador para redigir. Munido da bebida milagrosa, retorno ao ambiente de criação. Porém, nada muda.

As xícaras esvaziadas de café começam a disputar o espaço da mesa, e passam a tumultuar não só a já limitada área, mas também o campo de visão, que agora está divido entre a folha e as porcelanas, muitas porcelanas. Além disso, os raios de sol, provenientes da pequena janela do recinto, anteriormente fortes e intensos, afracam, denunciando que o astro rei irá se pôr.

A noite logo cai, e nem o brilho das estrelas, é capaz de iluminar minhas ideias. Logo, a grande dúvida que me acompanhou durante toda a tarde é cessada: a inspiração, sem avisar ou ao menos deixar um pequeno recado, tirou férias. Encerro o dia sem nenhum final para meu texto, ou melhor, sem nenhum começo também.

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Matheus Dantas

Pernambucano, acadêmico de jornalismo, blogueiro e eterno aprendiz na complexa escola da vida.
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