reflexões em pauta

Da objetividade à subjetividade dos fatos

Leila Bonfietti Lima

Jornalista por curiosidade desde que nasceu e por formação desde 2006. Mestre em divulgação científica e cultural. Ama dançar, conversar e desenterrar fatos antigos. Não enxerga nada sem óculos e sorri para as pessoas na rua.

A Internet das Coisas e a era Jetson

Quem se lembra do desenho futurista “Os Jetsons”? Carros voadores, videofones e eletrodomésticos “inteligentes”. Aquela realidade que parecia estar tão distante da nossa está cada vez mais próxima. A Internet das Coisas, revolução tecnológica que tem o objetivo de conectar itens do nosso dia a dia à rede mundial de computadores, nos aproximou da era Jetson e nós nem nos demos conta disso. Saiba o porquê!


ep6-george-videophone-w-camera.jpeg Previsão de mobilidade: George Jetson conversa com sua esposa Jane e seu filho Elroy por “videofone” em seriado produzido pela Hanna Barbera originalmente em 1962. Imagem: Divulgação/internet

Aos oito anos de idade o meu desenho favorito era Os Jetsons [lembro-me até hoje de um jogo de dominó com personagens da Hanna Barbera que minha tia me ajudou a recortar de uma revistinha infantil. Minha carta favorita era a do George Jetson]. E, ao contrário das demais crianças, que adoravam os carros voadores e os armários inteligentes que sugeriam o look do dia, eu gostava mesmo do “telefone que dava para ver o rosto da outra pessoa”. Acho que minha curiosidade jornalística já falava mais alto nessa época. Imaginem como era incrível a possibilidade de conversar com uma pessoa por telefone - fixo é claro, pois nem sabia o que era celular na infância - e conseguir ver o que ela está fazendo ao mesmo tempo! Realmente isso era fantástico para uma criança dos anos 90 que interrompia qualquer conversa para sanar as suas diversas dúvidas.

E na adolescência esse cenário não mudou tanto assim. As horas ininterruptas no telefone fixo e na internet discada (que saudade do ICQ!) eram materializadas em broncas proporcionais aos valores das contas. Mas esse passado não tão distante já tem ar nostálgico. E sabem porquê? Porque a tecnologia se aperfeiçoa cada vez mais rápido. Em uma velocidade que muitas vezes nem percebemos.

Vocês já repararam que em 2015, 47 anos antes da era Jetson e 53 anos depois da estreia do seriado, já que a família vive em 2062 e o desenho estreou em 1962, videoconferências empresariais e conversas entre amigos e familiares pelo Skype acontecem a todo momento e já não nos surpreendem mais? Pois é! Esse cenário já é bem comum para a gente, não é mesmo? Mas, confesso que a primeira vez que conversei com alguém por webcam não contive a emoção e soltei um: “meu, estamos na era dos Jetsons!”

Apesar dessa felicidade momentânea com o “videofone” – como os aparelhos de videoconferência eram chamados no desenho – até pouco tempo atrás eu não tinha esperanças de vivenciar outra experiência da era Jetson. Mas isso foi até eu me deparar com os smartphones.

A fotografia digital já tinha me impressionado bastante, apesar de adorar passar horas apreciando álbuns de fotos “que podemos tocar” e ainda não ser tão adepta das fotos de celular para recordações importantes. Mas a possibilidade de enviar imagens (e outros tipos de arquivos) a qualquer momento e a sincronia entre o computador e o celular me deixaram de queixo caído. Foi aí que percebi que o cenário mudou, pois se eu fosse adolescente nos dias de hoje meu pai não iria mais ficar irritado com a conta do telefone fixo, mas sim com a dependência ao smartphone. Ainda bem que a gente cresce e percebe as belezas que estão além do fio do telefone ou, atualmente, da tela do celular (ou não... mas isso é tema para outro texto).

Então, já percebendo toda essa mobilidade, quando me deparei com o conceito de Internet das Coisas tudo começou a fazer sentido.

O termo Internet das Coisas se refere a uma revolução tecnológica que tem o objetivo de conectar itens do nosso dia a dia à rede mundial de computadores para facilitar a nossa rotina. Vocês já perceberam como cada vez mais surgem eletrodomésticos, veículos e até mesmo tênis e acessórios conectados à Internet?

De acordo com o jornalista João Loes, em texto publicado na seção tecnologia do portal Terra, nos primeiros dias de 2015 o mundo registrou 25 bilhões de dispositivos conectados à internet. E a Internet das Coisas, que veio para ficar, foi um dos temas mais discutidos na maior feira de tecnologia do mundo, a CES 2015.

Se pararmos para pensar, com certeza vamos perceber toda tecnologia que nos ronda. No entanto, um dos princípios da Internet das Coisas é exatamente esse: passar despercebida! De acordo com Mark Weiser, o pai da Computação Ubíqua – que descreve exatamente essa onipresença da informática no cotidiano das pessoas - “as tecnologias mais profundas são aquelas que desaparecem. Tecem-se no tecido da vida cotidiana, até que sejam indistinguíveis dele”. Portanto, a partir dessa premissa podemos dizer: estamos vivendo a era Jetson e nem nos demos conta disso!

Como exemplo de Internet das Coisas é possível citar o protótipo Mobii, que está sendo desenvolvido pela Ford e pela Intel. De acordo com o Portal TechTudo, quando um motorista entra em um carro com essa tecnologia, uma câmera reconhece o seu rosto e o sistema lhe oferece informações sobre seu cotidiano, recomendações de músicas e orientações para acionar o mapa do GPS. Se o dispositivo não reconhecer a pessoa, tira uma foto e manda as informações para o celular do dono do veículo, evitando furtos. Já me sinto como George Jetson entrando em seu carro. Só falta voar...

Em um futuro não muito distante, outros exemplos que atualmente podem parecer totalmente fora da nossa realidade (coisa de filme de ficção científica ou desenho animado da Hanna Barbera) farão parte da nossa rotina. Eu até poderia usar a imaginação e citar alguns cenários futurísticos nesse texto, mas não vou fazer isso com medo de tais tecnologias já existirem e eu ainda não saber!

Mas é claro que essa revolução tecnológica não é simples. O advento da Internet das Coisas também traz à tona, por exemplo, questões como segurança da informação, privacidade e infraestrutura. Será que estamos preparados tanto tecnologicamente quanto psicologicamente para incorporar tanta tecnologia ao nosso dia a dia? Com tantos carros, casas, roupas, TVs e geladeiras “inteligentes” nossos dados pessoais, horários e preferências estarão cada vez mais expostos na rede e, consequentemente, estaremos cada vez mais vulneráveis a pessoas de má fé que, de uma maneira ou de outra, tiveram acesso as nossas informações.

João Loes também citou em seu texto um estudo realizado em 2014 pela Pew Research. Apesar de otimista, o trabalho, intitulado “A vida digital em 2025” também aponta alguns problemas que podem surgir com a popularidade da Internet das Coisas. “Será uma corrida entre os que têm boas intenções (para o uso da informação gerada pela Internet das Coisas) e os que têm más intenções”, disse Maurice Vergeer, pesquisador em comunicação da Radboud University, na Holanda, aos profissionais da Pew.

Nessa perspectiva, é possível dizer apenas que, além de nos aproximar da era Jetson, a Internet das Coisas também será (já é) foco de vários estudos e reflexões, tanto no âmbito científico e tecnológico - para garantir o desenvolvimento de aplicativos cada vez mais seguros e práticos - quanto sociológico, que abordarão as novas formas de interação em sociedade, privacidade e individualidade. Afinal, George Jetson e sua turma faziam parte de uma família da ficção; e a realidade é só um pouquinho mais complexa.


Leila Bonfietti Lima

Jornalista por curiosidade desde que nasceu e por formação desde 2006. Mestre em divulgação científica e cultural. Ama dançar, conversar e desenterrar fatos antigos. Não enxerga nada sem óculos e sorri para as pessoas na rua..
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