reflexões em pauta

Da objetividade à subjetividade dos fatos

Leila Bonfietti Lima

Jornalista por curiosidade desde que nasceu e por formação desde 2006. Mestre em divulgação científica e cultural. Ama dançar, conversar e desenterrar fatos antigos. Não enxerga nada sem óculos e sorri para as pessoas na rua.

IMC: Índice da Moda Capitalista e a Ditadura da Numeração

Você fica constrangido em presentear alguém com uma roupa GG mesmo que essa seja a numeração da pessoa? Pois saiba que a grande gafe é dar uma roupa menor apenas para não dar G e ter que fazer a pessoa ir trocar depois. Conheça o IMC – Índice da Moda Capitalista - e saiba como funciona a Ditadura da Numeração.


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“Não... você não pode dar uma blusa G de presente para ela. Isso é chamá-la de gorda!”

Por mais incrível que pareça, tenho certeza que muitas pessoas já ouviram essa frase algumas vezes. Aliás, já me deparei com discurso pior, como: “Eu nunca usei G”, com um tom de superioridade.

Bom, então vamos lá... uma pessoa que nunca usou G não é melhor ou pior do que ninguém. Aliás, quando estamos com uma roupa que caiu como uma luva em nosso corpo, que diferença faz a etiqueta? Por isso, e daí usar G?

Será que usar uma roupa com a 7ª letra do alfabeto estampada em sua etiqueta, que, coincidentemente, é a inicial das palavras 'gordo' e 'gordura' representa realmente estar acima do peso?

Não! Isso não significa estar acima do peso ideal para a sua altura, ou seja, com sobrepeso de acordo com o IMC (Índice de Massa Corpórea). Isso representa uma coisa muito pior: estar acima do padrão estabelecido por uma determinada marca ou grife, que etiqueta aquela peça de acordo com outro IMC, o Índice da Moda Capitalista, que dita (por isso ditadura) um padrão de numeração e, consequentemente, de beleza e faz com que muitas pessoas se prejudiquem apenas para usar/consumir um produto de determinada marca que, como dizem por aí, agrega valor ao camarote.

Vou contar um pouco da minha história para exemplificar como essa padronização atua. Saí do número 18 de criança, dos famosos conjuntos de moletom, para a calça jeans 44. Até os 18 anos nunca tinha usado 40 ou 42 na vida... 38 ou 36 então, nem vamos comentar. Mas, por outro lado, ao mesmo tempo em que usava uma calça 48, tinha um casaco 42, por exemplo. Como pode, produção?

É simples! Não dá para tachar uma pessoa como 38 ou 48. Porque, além de toda relatividade e competitividade que engloba a Ditadura da Numeração, questões como o tecido e a parte do corpo da pessoa devem ser levados em conta. É claro que uma blusa com elastano para uma pessoa que tem menos seio do que quadril será menor do que uma calça jeans dura. Afinal, por que será que as lojas de biquíni começaram a vendar as peças separadamente, não é mesmo?

Portanto, já usei P, M, G, GG, XG, XGG, G1, G2, G3 e G4 e do 44 ao 56. Falar que isso nunca me incomodou seria mentira. No entanto, o meu incômodo não era devido à numeração que eu estava usando, até porque, como disse nos parágrafos acima, isso realmente não faz diferença depois que a gente está vestido. Já a falta de opções de peças estilosas em tamanhos maiores... isso sim me incomodava.

Mas, aos poucos, as coisas estão mudando. No auge dos meus 12 anos, lá em 1997, por exemplo, era muito mais difícil encontrar uma roupa legal para uma pré-adolescente acima do peso. Atualmente, apesar dos tamanhos estarem cada vez menores (vocês já perceberam como algumas peças de numeração 40 estão menores do que as 38?), as grifes estão investindo cada vez mais na chamada moda plus size para todas as idades e estilos.

Mas o que ainda me entristece é ver uma roupa 44 rotulada como plus size. Aliás, a separação entre "moda normal" e "moda plus size" dá mais poder para a Ditadura da Numeração. Afinal, as roupas deveriam apenas ser numeradas (para referências) e não rotuladas.

No início de 2015, uma campanha iniciada na internet pressionou a indústria da moda para abandonar o termo “plus size”. A iniciativa partiu da apresentadora de TV australiana Ajay Rochester, que lançou a hashtag #DropThePlus (algo como #AbandoneoPlus em inglês) após ler uma reportagem com uma modelo plus size que vestia roupas de um tamanho considerado normal para mulheres “comuns”. “Existe essa separação entre modelo real, modelo ‘plus size’ e o resto do mundo! Eu olhava para a foto e não conseguia ver ninguém que eu consideraria ‘plus size’. Pensei: meu Deus, se essa mulher é ‘plus size’, o que somos as outras?”, disse a apresentadora à BBC Trending.

De acordo com a modelo “plus-size” Stefania Ferrario, apenas três tamanhos da escala americana são considerados “normais”. “As mulheres se sentem aprisionadas nessas categorias e a única forma de sair dessa armadilha é passando fome, porque o corpo delas nunca vai ser naturalmente desse tamanho”, disse Stefania após a repercussão da campanha #DropThePlus.

Aí, depois de perder um pouco de peso, as pessoas acham um absurdo eu usar uma peça G. “Mas como?? Você emagreceu. Não precisa mais usar G”. Mas, para mim, usar um shorts G (com um bom caimento e não estourando) de uma marca que nem tem GG - e que nem o XGG, se existisse, chegaria perto de servir em mim -, é uma grande alegria, principalmente por questões de saúde.

Aí você me pergunta: “Mas é normal uma pessoa que está dentro do peso ideal de acordo com sua altura usar G, de Gordo?” Bom, normal eu não sei. Aliás, o que é normal? Mas, com certeza, é bem comum, já que o Índice da Moda Capitalista não se preocupa com a saúde dos consumidores, apenas com lucro.

Portanto, eu usava e uso, sim, G, GG, XGG ou qualquer outra letra ou número que for necessário, desde que a roupa vista bem no meu corpo.

Ah, e eu também não me importo de ganhar uma peça G se ela me servir bem. A grande gafe é dar uma roupa menor apenas para não dar G e ter que fazer a pessoa ir trocar depois. Pense nisso!


Leila Bonfietti Lima

Jornalista por curiosidade desde que nasceu e por formação desde 2006. Mestre em divulgação científica e cultural. Ama dançar, conversar e desenterrar fatos antigos. Não enxerga nada sem óculos e sorri para as pessoas na rua..
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