reforma íntima

Autotransformação com leveza e esperança

Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência.

Em Marguerite, a mentira que não temos coragem de desfazer

Mentir por amor, mentir por medo de ofender ou magoar, mentir simplesmente por falta de coragem de enfrentar as consequências da verdade. Todas estas escusas para mentir estão presentes no filme francês Marguerite, sucesso do festival Varilux 2016.


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Mentir por amor, mentir por medo de ofender ou magoar, mentir simplesmente por falta de coragem de enfrentar as consequências da verdade. Todas estas escusas para mentir estão presentes no filme francês Marguerite (2015), sucesso do festival Varilux 2016.

A história se passa nos anos 20, quando a rica Marguerite Dumont (Catherine Frot) convence-se de que é dona de uma bela voz e apresenta-se cantando clássicos da ópera e da música clássica para um seleto público parisiense, que acolhe em sua mansão em concertos privados.

Apreciada pela sua generosidade, todos fingem aplaudir seu talento artístico e ninguém tem coragem de dizer que Marguerite tem uma péssima voz e canta como uma ave esganiçada. Até seu marido se constrange com tamanho ridículo, mas não impede que Marguerite cresça cada vez mais na sua vontade de se apresentar ao público, o que acaba acontecendo por meio de um grupo de rapazes interessados em seu dinheiro.

O final - uma surpresa para não estragar a experiência de quem ainda não assistiu à maravilhosa história contada pelo diretor Xavier Giannoli - é apenas o desfecho do estrago que uma vida baseada em mentiras pode causar. Mas por que todos mentem a Marguerite? Tirando o fato de que ela mesma é incapaz de ouvir a própria voz desafinada, o que nos remete às imperfeições com as quais insistimos em não tomar contato, o teatro em que toda a casa vive para deixar Marguerite feliz é mais comum do que possamos imaginar.

Perpetuamos mentiras nas mais diversas relações e com os mais variados objetivos. Mentimos no casamentos para não enfrentar a dor e as reações que a verdade pode provocar. Mentimos profissionalmente para sermos aceitos e fingirmos sucesso. Mentimos em família para não causar discórdias ou mal-estar. Mentimos para nós mesmos pelo medo de descobrirmos quem verdadeiramente somos.

A mentira é mais companheira do que a verdade, e mentir por bondade tem sido uma grande desculpa que alivia os corações menos determinados. Na incapacidade de sair da ilusão de uma mentira, construímos uma vida alicerçada na fantasia de quem gostaríamos de ser. À exemplo de Marguerite, que sonhava em ser cantora de ópera, criamos personagens para nós mesmos, contando a quatro ventos nossas pseudo conquistas, nossa felicidade de vitrine.

Ninguém tem coragem de contar a Marguerite a verdade sobre sua voz, assim como dificilmente encontraremos na vida quem esteja disposto a nos dizer, com amorosidade e condescendência, o que precisamos ouvir para nos tornarmos mais conscientes de nossos defeitos e fragilidades.

Ao longo do filme vamos torcendo cada vez mais por Marguerite, encantados com sua genuína ingenuidade. Será que teríamos coragem de contar-lhe a verdade e ver despedaçar toda uma existência de sonho e faz-de-conta? A verdade é mesmo assim tão importante?

Tome para si essa pergunta. Talvez você se descubra perpetuando uma vida de grandes mentiras, exatamente como a querida Marguerite.


Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência..
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