reforma íntima

Autotransformação com leveza e esperança

Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência.

Estamos engatinhando na aceitação incondicional das pessoas

Esta é a história de dona Dalvina, uma senhora que conheci no trabalho como contadora de histórias em um hospital público de Brasília. Compartilho com vocês o que imagino ser a aceitação incondicional do ser humano, exemplificada por uma pessoa de poucas letras mas imenso coração.


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Foi numa tarde quente e seca de setembro que conheci dona Dalvina, internada no andar da cardiologia de um hospital público. Com semblante calmo, aparentava não mais que 40 anos de vida bem sofrida. No sorriso, apenas dois dentes. O cabelo desajeitado era preso num rabo de cavalo. Dividia o quarto com outras três pacientes e visitas animadas. Nós, os contadores de história, tivemos recepção calorosa e narramos a trama do discípulo que foi consultar o monge sobre como lidar com os defeitos das pessoas que o aborreciam. A advertência foi clara: que se preocupasse em corrigir as próprias imperfeições e ignorasse as dos outros. Uma linda fábula sobre a aceitação.

O sucesso foi imediato, mas ao contrário dos demais quartos, ali a mensagem da acolhimento incondicional do ser humano não viria da história, e sim da calma e simples dona Dalvina, que relatou um pouco do dia a dia onde mora, na periferia da cidade. Contou-nos que, apesar dos alertas dos vizinhos, tem o hábito de deixar a porta da casa sempre aberta. Entre as pessoas que a visitam diariamente está um rapaz que se droga, pratica crimes e mete medo na vizinhança. Ela não sabe por que, mas ele a procura todos os dias.

- Eu deixo ele entrar e ele me pede dinheiro. Eu digo: Dinheiro eu não tenho, mas comida eu dou. Ele fica lá e não fala nada. Chega outro dia, eu dou um jeito de falar: Larga essa vida de drogas. Você sabe o que acontece com quem se mete nessa vida, né? Morre.

O quarto todo em silêncio. Ela continua:

- Mas eu não julgo ele não. Eu sei que se eu fizer isso ele vai embora e, enquanto ele está ali, eu vou dando um jeito de ir falando com ele. Pois sabe que depois de um tempo ele largou mesmo as drogas? Disse pra mim que ia voltar a estudar. Imagina se eu tivesse brigado com ele?

Num mundo violento e rude, Dona Dalvina distribui esperança e consideração. E como ela deixa a porta da casa sempre aberta, tem mais história:

- Outro dia apareceu uma mulher que tinha acabado de levar um tiro na perna. Chegou pedindo água e eu disse: Água eu não te dou. Pode ir embora porque água você não vai ter aqui. Foram chegando os vizinhos, todo mundo apavorado com a cena, a mulher sangrando e pedindo água pelo amor de Deus. Eu virei pra minha vizinha, que ia pegar um copo d’água pra mulher, e falei que ela estava doida, que se desse água ela morria ali mesmo.

Eu não entendi, perguntei por que não podia dar água e dona Dalvina explicou que se a moça tivesse uma hemorragia interna e tomasse água morreria na hora. Dona Dalvina sabia de medicina.

O silêncio com que todos no quarto a ouviam ia dando a dimensão do nosso verdadeiro tamanho diante daquela paciente. Não havia qualquer grau de estudo ou autoconhecimento que nos aproximasse um pouco sequer da gigante dona Dalvina. Sem preconceitos ou julgamentos, não tinha medo. Sem medo, vivia a plenitude da consciência tranquila. Em meio às dificuldades e à violência, não recusava ajuda, mas o fazia com o respeito e o cuidado a que todo ser humano tem direito.

Se estamos engatinhando na aceitação das pessoas, tentando julgar o outro de forma menos implacável e preconceituosa, buscando tornar nossas relações pessoais mais amistosas, abrindo nossa mente para outras formas de vida diferentes da nossa, tem gente como dona Dalvina que escancara a porta de casa e recebe quem quer que seja. Ela não tem dinheiro para dar, mas o amor transborda na simples atitude de negar um copo d’água a quem não pode tomá-lo. No respeito que tem até pelo pior marginal.

Foi mais um dia em que saímos do hospital com aquele sentimento de que o verdadeiro aprendizado está onde menos se espera. De estarmos a anos-luz da sabedoria e pureza de uma simples dona Dalvina, que não precisa de leituras para vivenciar a humildade e o acolhimento que tanto buscamos. Naquela tarde, eu me senti uma aluna repetente na frente de uma professora renomada.


Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência..
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