reforma íntima

Autotransformação com leveza e esperança

Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência.

O preço da humildade

Esta é a história de uma paciente em luta contra o orgulho. Quantas vezes nos deparamos com situações que só requerem de nós a humildade de pedirmos perdão, de revermos nossas atitudes?


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Ela fumou duas carteiras de cigarro por dia durante 28 anos e hoje luta para não perder uma perna. Está num leito de hospital faz nove dias. Não sabe se a irritação que sente é por causa da abstinência ou se foi o cigarro que lhe deixou com o pavio curto. Só sabe que o vício deve ter culpa nessa história.

Hoje mesmo já brigou com o filho e o marido pelo telefone e vai passar o final de semana sem visitas. O homem avisou que não tinha dinheiro pro ônibus, que precisava terminar um serviço pra conseguir a passagem. Ela então lhe disse que não precisava mais vir. E desligou o telefone. Contou que adorava bater o telefone na cara dos outros. Mas depois se arrependia. Sugeri então que ligasse e pedisse desculpas. Ah, isso disse que não conseguia. Nunca pedia desculpas. Só a Deus. Contou que sempre fora assim. Irritada. Devia ser o cigarro.

No trabalho, não levava desaforo. Quantas vezes já falara poucas e boas. Depois pegava a bolsa e saía. Disso também gostava. Mas sabia que não era bom. Depois tinha que arrumar outro serviço. Revela que até tenta se controlar, mas quando vê, já falou tudo. Parece que uma voz bem na nuca vai lhe instigando. E ela explode de novo. Expliquei que a vida às vezes nos faz parar pra pensar. Quem sabe aquela cama de hospital não era um chamado pra refletir. A primeira decisão era abandonar o cigarro. Ela concorda, mas não sabe se consegue. Quando sair do hospital e sentir o cheiro do cigarro, vai voltar a fumar. Tem quase certeza. Mas pensa que pode perder uma perna. E entre perder a perna e largar o cigarro, melhor parar.

Faz as contas de quanto dinheiro já jogou fora nesse vício. Dava pra comprar uma casa. Bate um arrependimento. Tento transformá-lo em decisão, busco um compromisso. Mas ela não demonstra muita confiança. Como pode estar prestes a perder uma perna e ainda balançar a cabeça?

De repente fala do pai. Ele é o único na família que nunca pôs os pés num hospital. Enquanto a mãe vive doente. A mãe é como ela, sempre irritada. Adora se fazer de vítima. Nossa, como detesta gente que se faz de vítima. Já o pai, esse parece que sabe viver. Gosta de pegar a bicicleta e andar pela cidade. Se tem que ir ao mercado, demora umas cinco horas. Vai parando pra conversar com os amigos, jogar dominó, fazer a compra. Quando volta, está feliz. Nem se importa com as raivas da mulher.

Deve ser por isso que ela está no hospital. A irritação, a teimosia. Digo então que ela já sabe o que tem que mudar. É só dar o primeiro passo. Pode ser o pedido de desculpas quando percebe que errou. Ou se colocar no lugar do outro. Avaliar se gostaria que fosse tratada do mesmo jeito. Ela entende, mas diz que não consegue. Pedir desculpas, nunca. Eu insisto. Falo em libertação. De como é maravilhoso tirar dos ombros a raiva de si mesma, o arrependimento. Mas ela vira o rosto como que descrente. Melhor parar por aqui, penso. Já fomos longe demais.

Desejo melhoras. Sugiro transformar a irritação em confiança. Afinal, já se foram nove dias sem fumar. Vai conseguir. Ela balança de novo a cabeça, mexe a perna, faz uma careta de dor. Na verdade, não sabe. Sei que a deixo absorta. Nossa conversa pode não ter sido em vão. Só me pergunto por que a humildade nos precisa custar tão caro. Trato de me olhar no espelho. Hora do meu dever de casa.


Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência..
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