reforma íntima

Autotransformação com leveza e esperança

Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência.

Orgulho, humildade e as tragédias que vivemos

Uma família destruída pela tragédia. Um pai mata os dois filhos e tenta se matar. O que devemos aprender sobre orgulho e humildade.


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Esta manhã li mais uma trágica notícia. Um homem matara seus dois filhos de 3 e 4 anos a facadas e tentara se matar. Apesar das várias perfurações, ele foi socorrido com vida e permanecia na UTI. Os policiais o encontraram nesse estado, junto aos filhos mortos, por causa de uma carta que deixara para a esposa contando o que pretendia fazer. Ela, desesperada, procurou a polícia. O motivo da tragédia: a traição da mulher.

Peguei-me a pensar sobre o que leva um homem com mestrado e doutorado a tomar atitude tão devastadora? Certamente seu objetivo era causar o maior sofrimento do mundo à esposa, culpando-a para sempre pela morte dos filhos. Não sei como essa pobre mulher conseguirá viver após essa barbárie. Não pelo fato de ter traído, mas porque terá que lidar para sempre com o tremendo desafio de perdoar a si e ao marido para seguir em frente.

Mas minha atenção fixou-se no sentimento daquele homem ao decidir acabar com a vida de toda a família para culpar a traição da esposa. Orgulho ferido. Todos sabemos do que se trata essa emoção. Não a confundamos com o orgulho que se tem por uma conquista, o alcance de um resultado muito almejado. Ter orgulho por passar numa prova difícil após muito estudo, de conseguir um emprego melhor, de ver um filho se formar... Se não nos sentimos superiores e melhores do que os outros, este é um sentimento positivo de dever cumprido.

O orgulho que mata, destrói e corrói a alma é aquele em que nos julgamos além do que somos. O orgulhoso pensa ser mais do que é, sempre melhor do que o semelhante. Ao se dar muita importância, acaba sofrendo quando não lhe colocam no pedestal em que supõe estar. Ser preterido pode fazê-lo sentir uma dor tão grande e devastadora que não vê saída. Fiquei imaginando ter sido este o sentimento do pobre pai de família.

Quantas emoções mal resolvidas carregamos ao longo da vida, quanto orgulho desnecessário a nos impedir a tranquilidade e a paz de espírito. Mas como equilibrar a necessidade de estar em evidência, de ser alguém com o mínimo de importância, de se sobressair frente a tanta gente comum? Como chamar a atenção para nossa pobre pessoa sem arrogância, orgulho ou vaidade?

A reposta, a meu ver, está no que é exatamente o contrário do orgulho: a humildade. Muita gente confunde ser humilde com ser pobre, mal vestido, simplório, ignorante. Humildade não tem absolutamente nada a ver com isso. Ser humilde é saber exatamente quem se é, na medida correta de nossas possibilidades. Significa conhecer pontos fortes e fracos, qualidades e defeitos, erros e acertos.

Ao ter a exata noção de si, colocamo-nos no lugar certo de nossa existência. Não somos nem melhores nem piores do que ninguém, apenas únicos diante das escolhas que fizemos, de onde partimos e até onde chegamos. Saber quem se é exige, no entanto, uma boa dose de reflexão e autoconhecimento.

Diante do enorme sofrimento daquele marido traído, capaz de levá-lo a matar os dois filhos para transferir à esposa a gigantesca dor que sentia, pergunto-me como podemos sair honradamente de situações limite em que nosso orgulho é jogado ao chão. Se temos a humildade de reconhecer erros e acertos, podemos buscar soluções menos traumáticas para todos os envolvidos. Porém, se nos deixamos levar pelo orgulho de não termos tido o tratamento que julgávamos merecer, está aberta a porta para as atitudes impensadas, das quais podemos nos arrepender pelo resto da vida.

A humildade nos permite ainda abrir a porta ao perdão. Se somos tão imperfeitos e cometemos tantos erros quanto qualquer outro ser humano, como será que agiríamos se estivéssemos no lugar de quem hoje criticamos? Ser humilde é enxergar-se nu. É saber que somos um pouco de tudo, às vezes melhor, muitas vezes pior, mas sempre capazes de levantar e recomeçar. Por mais doloroso que o tombo possa ter sido.

Que Deus permita à alma destas duas crianças o perdão a um pai desesperado. E que este casal possa perdoar-se mutuamente e interiormente. Quando vemos a fragilidade em que nossas emoções nos colocam, percebemos o quanto ainda precisamos avançar para termos melhor controle sobre as atitudes que elas acarretam. Sem humildade, no entanto, trata-se de tarefa impossível.


Ana Cristina Sampaio

A educação dos sentimentos é a maior transformação que podemos almejar. O esforço pessoal nesta jornada é menos penoso se nos cercamos de boas leituras e amizades. Compartilho com vocês minhas reflexões para juntos plantarmos consciência..
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