relatividade

Onde se perder no tempo e entre as letras é permitido

Livia Rocha

Apaixonada por tudo aquilo que preenche o vazio do dia a dia: arte, cinema, música, arquitetura, moda...vamos ampliar universos e provar que aqui tudo é relativo.

Mapa para as Estrelas e a efetiva constatação de que “de perto ninguém é normal”

Escancarando a patologia da vida pós-moderna e ironizando as loucuras de uma Hollywood em chamas, David Cronenberg eleva a loucura ao papel de protagonista com a ajuda do poeta francês Paul Eluard.


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Em termos gerais a esquizofrenia é uma doença psiquiátrica que se caracteriza pela perda de contato com a realidade. O indivíduo que sofre desse mal pode escutar vozes que ninguém mais ouve, imaginar complôs diabólicos que não existem, ferir a si próprio e às pessoas que o amam e até chegar ao suicídio. É a perda da razão.

Mapa para as Estrelas é, ao seu modo, uma inteligente construção que evidencia a perda de controle do racional. E não estamos falando apenas de pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas. Ponto para o diretor canadense David Cronenberg (que dirigiu filmes como Marcas da Violência e A Mosca) e o roteirista Bruce Wagner, que nos envolvem em uma narrativa perversamente irônica e surrealista, que pretende caricaturar não só o mundo das celebridades, mas também a condição humana em que vivemos hoje.

Estrelado por Mia Wasikowska, Julianne Moore e John Cusack, o longa narra a história da atriz Havana Segrand, que sonha interpretar a mesma personagem que sua mãe um dia viveu há 50 anos. Quem nos guia por essa odisseia de malucos é a jovem Agatha Weiss, que chega à Hollywood quase como um fantasma contumaz que retorna ao mundo dos vivos para assombrar aqueles que lhe fizeram mal. Qual não é a surpresa ao descobrir mais além, que ela sofre de esquizofrenia e que já carimbou seu passaporte em uma instituição para doentes mentais.

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A garota percorre junto do motorista executivo, Jerome Fontana, as ruas da cidade até o terreno abandonado, onde um dia existiu a casa de sua família. A partir desse momento, Agatha nos revela as verdades inconvenientes que se ocultam nos bastidores da cidade onde tudo é um magnífico show. Embalados pela cadência do poema Liberty do escritor surrealista francês Paul Eluard, entramos em um território de subjetividade que hora nos faz rir, hora nos faz sentir extremamente desconfortáveis.

Seduzidos pelo roteiro e pela insensatez das histórias de cada personagem, é quase impossível notar que a presença do texto recitado diversas vezes por Agatha e pelo ator prodígio da história, Benji Weiss (seu irmão mais novo), é também um recurso tétrico que liga os pontos do mapa de forma surpreendente. Com cadência que beira o frenético, o poema reforça uma das principais características da sociedade moderna: a obsessão.

“On my notebooks from school On my desk and the trees On the sand on the snow I write your name On every page read On all the white sheets Stone blood paper or ash I write your name”

O fascínio do amante pelo objeto de seu carinho o torna um fanático capaz de subir ao céu em meio às nuvens e até desafiar a morte, apenas para apregoar o nome daquele que significa tudo. É uma promessa de fidelidade eterna, de absoluta dedicação; “até que a morte os separe” (ou será que inclusive depois dela?).

Aos poucos os laços entre cada uma das pessoas é desvendado pela garota que, em razão da sua amizade via Twitter com a atriz Carrie Fisher, consegue um emprego como assistente de Havana, a grande vilã. Típica representação da megera hollywoodiana, Havana é rica, vaidosa, egoísta e cheia de si; não consegue pensar em outra coisa a não ser no sucesso profissional e na relação desastrosa que mantinha com a mãe morta em um incêndio há anos. Enternecida com o sinal divino que a enviou uma jovem queimada para ser sua secretária, a atriz assume de forma mais obsessiva ainda, representar o mesmo papel que sua mãe viveu no cinema, custe o que custar.

Em paralelo a história da família Weiss se desenrola: a matriarca Cristina protege com unhas e dentes o filho fenômeno nos cinemas, Benji, enquanto Dr. Stafford, o pai, passa boa parte do tempo perdido em seus devaneios e atendendo celebridades que buscam equilíbrio entre o corpo e a alma como forma de se livrar de seus fantasmas (uma delas, aliás, já nos foi apresentada; Havana). Ou seja, um charlatão de primeira categoria, com muito a esconder.

Benji, como é fácil imaginar, é um garoto mimado, super agressivo e boca suja que ficou famoso ao protagonizar a série do filme “Bad Babysitters”. Longe da realidade de quase toda criança, o menino precoce já esteve internado em uma clínica de reabilitação por abuso de drogas e sempre consegue o que quer. Basta um olhar superficial para notar seu desequilíbrio psicológico e nomear um novo vilão para a narrativa.

Por fim descobrimos que sua irmã Agatha (personagem introduzida de forma completamente a parte da dinâmica familiar) sofre com o distanciamento da família, que resolve odiá-la e excluí-la após um incidente trágico relacionado à sua patologia.

O filme é cheio de surpresas e cenas perturbadoras que nos fazem questionar a sanidade das personagens. Em vários momentos o espectador é obrigado a confrontar a realidade do subjetivo, do esquizofrênico, do maluco, mergulhando em um mundo de surrealismo e adentrando o campo do inconsciente humano onde tudo é permitido para conseguir aquilo que se quer. Neste ponto, a obsessão ortografada no poema de Paul Eluard revela-se uma afirmação do que já se imaginava: dentro da própria subjetividade tudo é permitido.

“On passionless absence On naked solitude On the marches of death I write your name On health that’s regained On danger that’s past On hope without memories I write your name By the power of the word I regain my life I was born to know you And to name you”

Aos poucos, o roteiro desanuvia a insanidade de cada uma das personagens criadas por Cronenberg e Wagner e elucida a grande ironia do longa: de perto ninguém é normal. Até que ponto é possível chegar para que se possa alcançar algum objetivo?

Poupa-se o clímax para os minutos finais do longa, quando percebemos que a única alternativa das personagens para libertarem-se da loucura é a própria morte (ou algumas pílulas de Rivotril). Não uma morte pouco deslumbrante, de causa natural ou acidente de carro, mas sim um fim teatral à altura de Hollywood. Bravo! O sacrifício pela arte da vida.


Livia Rocha

Apaixonada por tudo aquilo que preenche o vazio do dia a dia: arte, cinema, música, arquitetura, moda...vamos ampliar universos e provar que aqui tudo é relativo..
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