renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Legislação, Logística, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Filosofia, Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Somos marionetes dos nossos próprios desejos? O mundo como Vontade e Representação na filosofia de Schopenhauer

Você compraria algo (que não precisa) apenas pela simples vontade ou desejo de possuir este objeto? Até que ponto seus desejos manipulam suas ações? Como a sociedade tem se transformado, cada vez mais, em uma sociedade de consumo?


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Não consigo imaginar um lugar mais propício para o afloramento dos desejos de consumismo que um Shopping Center. As lojas com suas vitrines iluminadas, anúncios de promoções e descontos e suas fachadas chamativas são uma verdadeira tentação para pessoas que gostam de comprar pela simples vontade de matar um desejo consumista. É o comprar pela vontade de comprar, sem nenhuma necessidade objetiva do objeto desejado.

Mas talvez belas lojas e vitrines enfeitadas não chamem sua atenção. Mas o ponto aqui não são as lojas, nem o consumo em si, mas a questão do desejo. Quem sabe, diferente de muitas pessoas, seu ponto fraco não seja o consumismo. Quem sabe você é daqueles que não abre mão de sair todas as noites para se divertir, ou não resiste a um belo e apetitoso jantar.

Será que nossos desejos nos manipulam, nos fazendo tomar determinadas decisões que não tomaríamos caso esse desejo não existisse? Será que o (aparente) inofensivo desejo de possuir algo condiciona nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e nosso circulo de relacionamentos?

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Para o filósofo Arthur Schopenhauer é exatamente isso que acontece. Para ele, somos marionetes de nossos próprios desejos. E, para nossa infelicidade, não há muita coisa que possamos fazer para mudar isso.

Schopenhauer nasceu em 1788, em Danzig, na Prússia, e sua filosofia é comumente associada à própria imagem de seu criador: uma pessoa com personalidade forte e palavras amargas sobre a vida e a condição humana. Se desagradável como pessoa, Schopenhauer tem um escrita fascinante.

Schopenhauer era filho do comerciante Henrich Floris Schopenhauer e de Johanna Henriette Trosenier, uma bem sucedida romancista. Quando jovem, Arthur Schopenhauer viajou pela Europa para aprimorar seus conhecimentos. O desejo de Henrich Schopenhauer era que o filho seguisse seus passos no comércio, no entanto, após a morte de seu pai por suicídio, Schopenhauer deu inicio aos seus estudos humanísticos.

Cursou a faculdade de Medicina em 1809 e, em 1811, deu início aos seus estudos em Filosofia, na Universidade de Berlim, tendo como professores Schleiermacher e Fichte. Após longos desentendimentos com sua mãe, distanciou-se dela definitivamente em 1814. De 1818 a 1819 foi morar na Itália, regressando em 1920 para, depois de passar por uma seleção, ministrar aulas na Universidade de Berlim.

Como professor, Schopenhauer entra em conflito com Hegel, que dava aulas na mesma universidade. Diferente de Hegel, popular e carismático professor, que tinha aulas lotadas, Schopenhauer tinha pouquíssimos alunos, pois os horários de suas aulas coincidiam, exigência do próprio Schopenhauer.

A disputa entre os dois era coisa séria. Schopenhauer dizia que Hegel não era um filósofo de verdade, pois lhe faltava seriedade e honestidade. Em contrapartida, Hegel considerava Schopenhauer um homem ignorante e repulsivo.

Depois de muitas alfinetadas de ambos os lados, Schopenhauer acabou desistindo de dar aulas e passou a viver da herança de sua família.

Escreveu sua principal obra aos 30 anos, intitulada “O Mundo como Vontade e Representação”, mas sem lograr êxito no início (livro que, após sua morte, passou a ser considerado uma das obras chave da filosofia ocidental). Durante anos, Schopenhauer não parou de atualizar sua obra, que ganhou uma nova versão com um segundo volume de notas e aditamentos em 1844.

No livro, Schopenhauer declara que a realidade tem dois aspectos, vontade e representação, sendo a primeira a força cega encontrada em todas as coisas e a representação, a construção da realidade em nossa mente, ou seja, a maneira que encontramos para dar um sentido a todas as coisas que nos cercam. O conceito de representação se encontra na filosofia de Kant com outro nome, o “mundo fenomênico”.

A vontade é cega pois não a controlamos. É uma força única por trás de tudo. Em nada tem a ver com a ideia de Deus ou de um ser superior. Para Schopenhauer, não há alguém que a direcione. Já a representação é o mundo em que vivemos, como vivenciamos e sentimos nossas experiências.

Schopenhauer não foi um autor de muito sucesso quando vivo, exceto em seus últimos dias de vida com a publicação do livro “Parerga e Paralipomena”.

Publicado em 1851, o livro que reunia alguns aforismos escritos de forma cativante foi um sucesso na época, concedendo sucesso e reconhecimento (que sempre lhe foram negados), ainda que tardio, ao filósofo, tornando-o o filósofo da moda. O livro trazia escritos secundários de Schopenhauer sobre diversos temas, mas sistematicamente ordenados. Dentre os textos, há um interessante capítulo chamado “Aforismos para a sabedoria de vida”.

Para o filósofo, o mundo é uma representação de cada indivíduo. Ele tratava da relação entre sonho e realidade, em que seria impossível para o homem diferenciar essas duas condições. Nesse sentido, a vida seria um longo sonho que é interrompido durante a noite por sonhos menores.

Nas palavras de Schopenhauer, “não é talvez toda a vida um sonho? Mais precisamente: existe um critério seguro para distinguir sonho e realidade, fantasmas e objetos reais?” Assim, para Schopenhauer, não teríamos condições de saber se estamos em um longo sonho ou se o que estamos vivenciando é, de fato, a realidade.

Para o filósofo, haveria um elemento essencial que levaria o homem a ter vontade de continuar vivendo, mesmo sabendo que o seu fim é a morte certa. Como nosso próprio corpo é o único objeto que conseguimos conhecer no Universo, na medida em que não o reconhecemos de fora, mas de dentro, o Eu é a vontade de viver. Mesmo sabendo de nossa morte (que inevitavelmente nos alcançará um dia) continuamos por buscar a sobrevivência.

Aliado à ideia da vontade como elemento preponderante do viver humano, para Schopenhauer o amor não existe, sendo uma artimanha da natureza para a preservação da espécie. Seu pensamento sobre o amor contraria todos os demais pensamentos da época, motivo pelo qual suas ideias foram relacionadas ao pessimismo em relação à vida.

Assim, segundo o filósofo, depois de realizado o ato sexual e atingido o prazer, o homem experimenta um sentimento de desilusão ao constatar que tudo que desejou tão ardentemente nada mais é que qualquer outra satisfação de um mero desejo sexual.

Schopenhauer foi duramente criticado por aliar elementos orientais à sua filosofia. A visão pessimista do filósofo comunga com a visão do budismo, que declara que tudo na vida é sofrimento, sendo o homem o único ser vivo que busca coisas que nunca poderá possuir.

Essa frustração resulta em uma felicidade passageira, pois o ser humano é um ser que sempre está à procura de coisas novas, nunca estando satisfeito com o que tem. Podemos constatar isso tendo nós mesmos como exemplo. Reflita em quantas vezes você desejou algo e quando atingiu teve o prazer de se sentir feliz, mas, logo em seguida, essa felicidade foi se esvaindo, dando lugar a um novo desejo, e assim por diante.

Para Schopenhauer, uma das principais causas do sofrimento humano é esse incessante desejo de buscar coisas que possam nos proporcionar uma felicidade duradora sem nos darmos conta de que essa busca, por si só, é inútil, pois nunca estaremos totalmente satisfeitos com o que adquirimos.

Ao satisfazer seu desejo, o homem tem, por um breve momento, o gosto da felicidade, mas logo em seguida volta a se sentir incompleto e insatisfeito, recomeçando uma nova busca para satisfazer um novo anseio que surgiu logo após a conquista do primeiro. Isso gera um clico interminável de buscas e desejos.

Anos mais tarde, o famoso filósofo Nietzsche, baseando seu pensamento na filosofia de Schopenhauer, escreveu: “A felicidade é frágil e volátil, pois, só é possível senti-la em certos momentos. Na verdade, se pudéssemos vivenciá-la de forma ininterrupta, ela perderia o valor, uma vez que só percebemos que somos felizes por comparação”.

A vontade, considera Schopenhauer, é a força fundamental da natureza, pois cada indivíduo a manifesta para dar sentido a sua própria sobrevivência. Para ele, a vontade é um impulso escuro e vigoroso, sem justiça ou sentido. Assim, um indivíduo sem vontades não possui motivação suficiente para viver, não consegue enxergar sentido e propósito na sua existência.

Para Schopenhauer, a contemplação da arte é uma forma de suprimir, mesmo que temporariamente, o estado de sofrimento humano causado pela busca incessante pela satisfação de suas vontades. O filósofo eleva a música à categoria de arte suprema

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É interessante notarmos a importância que Schopenhauer concede à música. Para ele, “a música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende”. Schopenhauer foi o primeiro filósofo a elevar a música para um patamar superior, influenciando o pensamento de Nietzsche sobre ela, que escreveu que “sem música a vida seria um erro”.

Presente na terceira parte do livro “O Mundo como Vontade e Representação”, a música assume papel importante na filosofia de Schopenhauer. Para o filósofo, a contemplação da arte é uma forma de suprimir, ainda que temporariamente, o estado de sofrimento humano causado pela busca incessante pela satisfação de suas vontades.

Assim, ainda que Schopenhauer entenda o viver humano como um constante sofrimento em virtude do homem sempre buscar satisfazer algo que é insaciável (o desejo humano), o filósofo concede uma solução: tornar-se livre da vontade para atingir a contemplação.

Ao libertar-se de seus desejos, o homem é livre para atingir o sublime e o filósofo elege a arte como meio para isso e consagra a música como a arte suprema. Nesse sentido, a música é capaz de expressar a vontade fazendo uso de uma linguagem grandiosa. Por meio dos tons, ritmos, harmonias e melodias, a música é capaz de revelar a essência interior do mundo, o desejo, que move a natureza humana, enquanto a filosofia é capaz de apenas reproduzir a essência do mundo através de conceitos gerais.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Legislação, Logística, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Filosofia, Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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