renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Legislação, Logística e Sociologia. Graduado em Ciências Sociais e Direito. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

A única coisa que não muda é que tudo muda: a ideia do devir na filosofia de Heráclito

Você acha que tudo na vida muda o tempo inteiro ou a vida permanece sempre a mesma, como se tudo fosse definitivo? Você consegue se imaginar daqui a 10 anos? Você ainda será você, porém uma versão melhorada de você. Neste artigo verificamos que não nascemos prontos e (também) não morremos prontos. Você é hoje a sua melhor versão e, provavelmente, amanhã será ainda melhor. Será uma pessoa com mais experiência, com uma nova percepção da vida, dos fatos e das situações que lhe aconteceram e acontecem, tudo depende do modo como você encara a vida.


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Você acha que tudo na vida muda o tempo inteiro ou a vida permanece sempre a mesma, como se tudo fosse definitivo? Os primeiros filósofos gastaram bastante tempo discutindo sobre essas questões há mais de 2.500 anos na Grécia Antiga.

Para começarmos a pensar sobre o assunto, proponho o seguinte:

Tente fazer um pequeno exercício de memória e experimente voltar 10 anos atrás. Recorde seus sonhos, seu jeito de ser, seus temores e preocupações. Volte um pouco mais e relembre sua infância, quando ainda era uma criança indefesa e tinha medos simples, como dormir no escuro, medo de ficar sozinho em casa ou mesmo dos sons que sua casa fazia durante a noite.

fotos-recriadas-irmaos.jpg Os irmãos Luxton criaram um Tumblr para exibir suas fotos antigas recriadas nos tempos de hoje. A mutabilidade do tempo e do Universo é um dos conceitos da filosofia heraclitiana

Agora, adiante no tempo a partir deste ponto e reviva sua adolescência. Relembre as revoltas sem motivo algum, das brigas com seus pais por querer ser independente (mesmo ainda morando com eles e dependendo dos poucos trocados que recebia no início do mês), do desejo de ser alguém que fosse lembrado, da vontade de viajar pelo mundo e conhecer novas pessoas. Relembre a dor que sentiu ao fazer a primeira tatuagem e da absoluta certeza de que faria muitas outras e que jamais se arrependeria delas.

Agora volte ao presente e perceba o quanto você mudou. Talvez alguns de seus sonhos não tenham se realizado, mas certamente outros novos surgiram no meio do caminho e lhe transformaram no que é hoje e, com certeza, outros novos sonhos e novas experiências lhe modificarão no futuro.

Você consegue se imaginar daqui a 10 anos?

Você ainda será você, porém uma versão melhorada de você. Não nascemos prontos e não morremos prontos. Você é hoje a sua melhor versão e, provavelmente, amanhã será ainda melhor. Será uma pessoa com mais experiência, com uma nova percepção da vida, dos fatos e das situações que lhe aconteceram e acontecem. Não foi somente sua aparência que sofreu mudanças pelo decurso do tempo. Você mesmo mudou, ainda que não se dê conta disso por completo.

heraclito2.jpg Heráclito de Éfeso (aproximadamente 540 a.C. – 475 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado o “pai da dialética”

Assim como os seres humanos, tudo que nos cerca está em constante mudança, porém nem sempre para melhor. Para Heráclito, filósofo nascido em Éfeso por volta de 540 a.C., tudo que existe está em transformação. Ele é considerado o pai da dialética e chamou de “devir” a constante mudança do mundo. É dele a frase “nada é permanente, exceto a mudança” e também “ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras”.

Heráclito não era uma pessoa que poderíamos chamar de amigável. Era avesso à vida social e não gostava muito de arte, religião e filosofia. Por isso era chamado de “obscuro”. Sua obra intitulada “Sobre a Natureza” foi considerada de difícil entendimento na época. Passou o resto de sua vida recluso nas montanhas, longe de qualquer convívio social.

Esse conceito criado por Heráclito, o devir, diz que o mundo é constituído pelos opostos. É um fluxo constante que está presente em tudo no Universo. É uma mudança que nasce a partir do conflito entre os contrários. O pensamento filosófico dele declara que os opostos se complementam. O quente e o frio, o bem e o mal, a vida e a morte, a juventude e a velhice, a alegria e a tristeza são todas situações e emoções que se completam, na medida em que um não pode existir sem o outro, pelo simples fato de que não podemos ter a noção de felicidade sem experimentar a tristeza ou não conseguirmos definir se algo está gelado sem antes ter a percepção do que seja algo quente.

O devir representa sempre uma alternância entre os contrários. Essa guerra entre os opostos é a realidade, aquilo que podemos afirmar que existe. Para Heráclito, “a doença faz da saúde algo agradável e bom”, pois na ausência de doenças jamais iríamos valorizar a saúde, pois não saberíamos que seria algo agradável (saúde) em comparação a algo ruim (doenças).

Para o filósofo, esse fluxo permanente entre os opostos não produz o caos. Pelo contrário, é ele que garante a harmonia do Universo. Assim como uma esfera, que não se sabe onde começa e termina, os contrários ocupam o mesmo espaço, numa perfeita harmonização. Nessa harmonia, os opostos se coincidem do mesmo modo que o princípio e o fim, o quente e o frio (pois o frio é o mesmo quente quando muda) ou subir e descer um caminho. Nas palavras de Heráclito, “o caminho que desce e o caminho que sobe são os mesmos”.

A ideia da unidade dos contrários representa uma das ideias mais originais do pensamento de Heráclito, em que o segredo do universo está na eterna luta entre os opostos, mas sem um vencedor, já que um depende do outro para existir, ou, mais precisamente, são versões diferentes da mesma coisa.

Devido à essa constante transformação, a verdade é dialética, ou seja, as palavras dizem as coisas em um constante estado de mudanças. Nossa percepção do mundo usando apenas nossos sentidos nos enganam, pois seria uma percepção limitada, já que contemplamos o mundo de forma imóvel, estática e imutável. Já a percepção do pensamento é capaz de contemplar a instabilidade e constante mutação das coisas e dos seres.

Heráclito concebeu o fogo como a “arché” (origem de tudo que há), como o elemento principal e transformador de todas as coisas. Para ele, tudo tem origem na rarefação (quando a densidade de um corpo diminui, mas seu volume aumenta) e flui como um rio. O sentido e o significado das coisas se encontra na conciliação entre os diversos pares de opostos.

É interessante percebermos como a filosofia heraclitiana permanece atual. Em relação à essa constante mudança e luta entre os contrários, no que se refere à matéria, esta se encontra em constante mutação. Nas palavras do químico Lavoisier (1743-1794), famoso químico francês e considerado pai da química moderna, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Encontramos marcas da atualidade do pensamento de Heráclito no Princípio da Incerteza de Heisenberg, físico teórico alemão ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1932, que afirma ser impossível garantir a exata posição de um elétron no átomo devido à própria natureza das partículas.

Encontramos a aplicação do devir em nosso metabolismo, pois na medida em que ingerimos matéria para o crescimento e manutenção de nosso corpo, perdemos matéria devido ao natural desgaste físico com a idade.

Assim, a vida é uma constante mudança, um clico de transformações. Para Heráclito, a vida considerada como algo imutável é uma ilusão. Para ele, tudo se movimenta, nada se fixa na imutabilidade. Apesar de nossos olhos nos darem a impressão da estática das coisas, a realidade é fruto da mudança. Ou seja, a única realidade que existe é a mudança. O “Lógos”, para a filosofia heraclitiana, é o princípio de inteligibilidade, é a razão, o princípio maior da unificação, é mudança e contradição que se harmonizam.

Quando estamos dirigindo ou mesmo parados contemplando a beleza do pôr do sol, a impressão que temos é que a paisagem ao nosso redor está parada, totalmente estática, quando, na verdade, todos estamos em movimento ao redor do Sol, que também faz seu movimento ao redor do centro da Galáxia, que, por sua vez, segue a órbita do centro de massa do Universo.

Apesar de parecer estarmos todos parados, nos encontramos numa velocidade de aproximadamente 108 mil km/h ao redor do Sol! Ou seja, nem o Universo e nem nós nos encontramos em estado de estabilidade. Tudo que existe está em processo de mudança. Mesmo Heráclito tendo nascido muitos séculos antes das contemporâneas teorias que tentam explicar a origem do Universo, para o pensador grego, o Universo sempre existiu e nunca terá um fim, pois existirá sempre num clico de eterna mutabilidade.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Legislação, Logística e Sociologia. Graduado em Ciências Sociais e Direito. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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