renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Legislação, Logística e Sociologia. Graduado em Ciências Sociais e Direito. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Filosofia no caos: como encontrar equilíbrio e felicidade em meio às adversidades

Como a Filosofia pode nos ajudar a enfrentar dias difíceis em que tudo parece dar errado? O presente artigo pretende analisar a filosofia prática de Séneca e como suas ideias podem nos ajudar a enfrentar dias adversos mesmo séculos depois de terem sido expostas


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É bem verdade que as palavras atravessam gerações, mas os homens não. E é mais verdade ainda que na atual sociedade da informação em que vivemos diversas construções filosóficas estão reaparecendo com uma nova cara, graças ao efeito que a projeção das redes sociais e a força das mídias têm dado a uma ideia que, para os gregos, já não era nova: felicidade. Ou mais especificamente, “ataraxia”. Essa palavra, que soa estranha aos nossos ouvidos, significa tranquilidade da alma, ou ausência de inquietação.

Este termo, cunhado por um filósofo chamado Demócrito (c. 460-370 a.C.) representou a base da filosofia epicurista e dos céticos. Para eles, a busca pela ataraxia é uma busca pela tranquilidade, pelo equilíbrio e moderação na escolha dos prazeres.

Mas como podemos ter moderação e equilíbrio numa sociedade em que o consumismo exacerbado parece ser a principal bandeira a ser levantada? Ou ainda, como viver em paz numa época em que o ter é mais importante que o ser e que pequenas emoções podem se transformar em sentimentos de ira num piscar de olhos?

A escola estoica nos ensina que o autocontrole e a firmeza representam os meios mais eficazes para superarmos as emoções destrutivas. O estoicismo foi a filosofia mais popular de sua época, do mundo helenístico e de todo o império romano.

A ataraxia dos gregos nos diz que devemos criar forças para combater as dores e as adversidades, na medida em que aceitamos as situações como elas são e aprendemos a conviver com elas. Mas se engana quem pensa que se trata de uma simples apatia. Na verdade, trata-se de uma constatação bastante inteligente. Nas palavras de Séneca, grande filósofo da escola estoica, “o homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário”.

Lucius Annaeus Séneca, mais conhecido como Séneca, foi um dos filósofos mais influentes de sua época. Quando jovem, mudou-se para Roma, onde passou a maior parte de sua vida. Influenciou a política local como importante senador. Mesmo fazendo parte da elite romana, Séneca era um homem melancólico e depressivo, possuía uma saúde frágil e viveu numa época bastante conturbada politicamente, recheada de líderes tirânicos e totalmente imprevisíveis.

É dele o pensamento “apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida”. A filosofia prática de Séneca é sedutora ainda nos dias atuais, pois apesar da sociedade ter evoluído tecnologicamente, com novas descobertas e novos saberes, no que diz respeito às nossas emoções ainda somos (e sempre seremos) humanos e ainda continuaremos a ter sentimentos e dilemas humanos. Nossa habilidade de fazer uso das novas tecnologias não anda ao mesmo passo que nossa habilidade de compreendermos nossas próprias emoções e sabermos lidar com elas.

Séneca é uma dessas figuras conhecidas no meio acadêmico, porém pouco conhecido no meio secular. Apesar disso, vemos muito de seus pensamentos presentes, ainda que diluídos, serem compartilhados em frases de motivação e autoajuda. Ainda que eu goste da ideia de autoajuda (lembremos que o próprio Sócrates, provavelmente, escreveu no pátio do Templo de Apolo em Delfos a máxima “conhece-te a ti mesmo”), a filosofia de Séneca vai além disso.

Claro que é necessário conhecer a si mesmo (suas limitações e potenciais), mas mais importante que isso, é necessário entender algo simples, porém muito importante: não temos o controle de tudo que acontece conosco, ou seja, não estamos no controle de todas as situações. Embora essa ilusão de que temos o manche em nossas mãos e que possuímos o poder de mudar a direção de nossas vidas quando quisermos pareça sedutora e muito comprável em nossos dias, isso não é totalmente verdade.

É parte verdade. Explico.

Ainda que determinadas atitudes que tomamos façam grande diferença em nossas vidas (como pessoas que nos aproximamos, faculdade que escolhemos, vagas de empregos que decidimos ou não concorrer), para alcançar o equilíbrio que o estoicismo declara é preciso entender que a vida é feita das escolhas que fazemos. Quando escolhemos algo, inevitavelmente deixamos de escolher outra coisa. Isso parece lógico e simples, como, de fato, é!

Todas essas escolhas geram uma cadeia de acontecimentos que estão fora de nosso controle. E quanto mais cedo entendemos isso, mas rápido chegamos ao estado de ataraxia. Séneca explica que o que nos causa impaciência é pensarmos que as coisas devem ser exatamente como queremos, como se fôssemos capazes de moldar o mundo que nos cerca de acordo com nossa vontade.

É preciso aceitar o fato de que não temos o controle sobre todas as coisas. É como se estivéssemos, segundo o filósofo, presos a cadeias de acontecimentos, como cachorros presos a uma carroça em constante movimento. A correia é longa o bastante para nos dar certa liberdade, mas não a ponto de irmos para onde bem quisermos ou alterar o rumo da carroça. Passado algum tempo, o cachorro percebe que para ser feliz ele terá que, em determinadas situações, aceitar o movimento da carroça e seguir seu rumo, pois se debater durante todo o percurso só lhe trará desconforto, tristeza e raiva, por não conseguir mudar a situação de acordo com suas vontades.

Mas, diferentes de um cachorro, possuímos a racionalidade suficiente para perceber o que podemos ou não mudar em nossas vidas. Talvez não sejamos capazes de alterar o rumo das coisas, mas somos plenamente capazes de alterar nossa atitude em relação aos acontecimentos. A filosofia de Séneca nos dá uma orientação, um norte para ficarmos tranquilos mesmo em situações adversas.

Sobre a brevidade da vida, Séneca dizia que o que mais importa é nossa atitude pessoal em relação aos aspectos da condição humana que não temos controle, como morte, doenças e catástrofes. Não devemos ficar tristes pelo fato da vida ser curta, mas devemos fazer o melhor que pudermos dela. Sobre o tempo que temos, Séneca dizia que a vida é longa o suficiente para realizar diversas coisas, desde que façamos as escolhas certas e aceitarmos que não temos o controle de tudo.

Quanto mais cedo descobrimos essa grande verdade, mas cedo conseguiremos viver num estado de ausência de inquietação, pois ainda que venham as adversidades da vida podemos ter controle sobre como nos sentimos em relação aos fatos. Mas isso não é tão fácil quanto parece.

Para se alcançar a ataraxia é preciso sabedoria. É preciso conhecer a si mesmo. O infortúnio disso é que dificilmente estamos prontos para a tempestade até que ela venha. Pode ser que na primeira vez ela nos pegue desprevenidos, igual a um barco que está com as velas içadas frente a um maremoto. Mas, provavelmente, da segunda vez teremos a sabedoria e experiência necessárias para passar pela tempestade com o mínimo de atritos e perdas, pois teremos controle sobre nossas atitudes em relação aos acontecimentos e infortúnios da vida.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Legislação, Logística e Sociologia. Graduado em Ciências Sociais e Direito. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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