renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Bob Esponja e a Filosofia: reflexões sobre relacionamentos, carreira e vida

Qual a relação entre Bob Esponja e a Filosofia? Este artigo pretende analisar alguns aspectos importantes da trama da série que têm relação com a Filosofia e a arte de pensar. Bob Esponja, que, à primeira vista, não tem nada a nos ensinar, por se tratar de um personagem de uma série feita para o público infantil, pode nos ajudar a refletir sobre nossas atitudes. Através de um olhar mais demorado e polido (que é justamente a proposta da Filosofia) podemos notar que o nosso querido personagem amarelo é um filósofo nato (mesmo sem sequer se dar conta disso).


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Ele é a esponja marinha mais famosa da televisão mundial. Criado em 1999 pelo biólogo marinho e animador Stephen Hillenburg, a série animada é produzida e exibida originalmente pelo canal Nickelodeon. A trama da série se passa na fictícia cidade subaquática de “Bikini Bottom” (no Brasil, “Fenda do Biquíni”). Munido de sua icônica calça quadrada (que, inclusive, dá nome à série) e cercado por personagens pouco convencionais, Bob Esponja tem muito a nos ensinar sobre relacionamentos, carreira e vida.

A seguir exploraremos alguns aspectos importantes da trama da série que têm relação com a Filosofia e a arte de pensar. Bob Esponja, que, à primeira vista, não tem nada a nos ensinar, por se tratar de um personagem de uma série feita para crianças, pode nos ajudar a refletir sobre nossas atitudes. Através de um olhar mais demorado e polido (que é justamente a proposta da Filosofia) podemos notar que o nosso querido personagem amarelo é um filósofo nato (mesmo sem sequer se dar conta disso).

Encare a vida de modo positivo

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Fazer cara feia diante dos problemas não os mudará em nenhum aspecto. Já no século 4 a.C., um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano, chamado Lucius Séneca, ensinava: “apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida”. É dele também mais um conselho: “o homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário”.

Bob Esponja tem um jeito muito próprio e pouco ortodoxo de encarar a vida. Diante de uma dificuldade, nosso personagem marinho não faz cara feia. Pelo contrário, procura encarar a vida como uma brincadeira. Uma boa dose de ingenuidade e fé nas pessoas (resguardadas as devidas proporções) é bem vinda.

Mesmo quando é posto em verdadeiras ciladas e tem que enfrentar brutamontes de MMA (como no episódio "Os Crocantes Apetitosos”, em que Seu Sirigueijo, seu patrão, gerencia Bob Esponja e Patrick como uma dupla de luta livre para ganhar um milhão de dólares), nossa Esponja encarou o fato como uma diversão.

Ainda que a vida te sufoque (ou no caso dele, um monstro cheio de músculos te esmague), tente tirar proveito disso, seja para aprender sobre si mesmo ou mesmo para dar algumas risadas depois que tudo passar.

Bob Esponja reinventa as palavras de Séneca para nos ensinar que não adianta ficar preocupado por antecipação. Cedo ou tarde, teremos que enfrentar nossos problemas, e encarar eles de frente e de peito aberto é a melhor maneira de fazer isso.

Olhar para as dificuldades do passado e reconhecer que superamos nossas próprias expectativas nos motiva a continuar em constante crescimento pessoal.

Roupas e dinheiro não mudam quem você é

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Em uma sociedade marcada pelo consumismo e pela necessidade, cada vez mais presente, de se destacar pelo que se tem (e não pelo que se é), Bob Esponja nos ensina que a aparência não muda nossa essência.

No episódio “Para o Calça Quadrada ou Não”, Bob Esponja fica sem suas calças quadradas! Todas elas encolheram na máquina de lavar. Ao sair para comprar uma nova calça, ele se depara com muitas opções, no entanto nenhuma atende as suas expectativas. Depois de muito procurar, Bob encontra uma calça, porém redonda.

Ao sair pela rua, Bob Esponja acredita que não está sendo reconhecido pelos seus amigos em função de sua nova aparência, transformando-se, assim, em um novo Bob Esponja, o “Calça Redonda”.

Toda a trama do episódio gira em torno da questão da mudança de personalidade do personagem. Na verdade, ele assume uma nova identidade por acreditar piamente que é outra pessoa. Agora como “Bob Esponja, Calça Redonda”, nossa esponja procura um novo emprego (mas acaba trabalhando no mesmo lugar de sempre) e muda totalmente sua rotina, ao assumir essa nova personalidade.

Com a nova personalidade, Bob passa a ser desleixado no trabalho, ouve conselhos errados de Lula Molusco, seu colega de trabalho, e não cumpre suas atividades, o que acaba gerando alguns problemas para nossa esponja.

Ao final do episódio, Bob Esponja percebe que não são elementos externos que nos qualificam ou dizem quem realmente somos, mas a essência de nosso caráter. Mesmo que nossa aparência seja alterada por algum elemento externo a nós, não devemos jamais nos esquecer de quem realmente somos.

Somos frutos de nossas experiências, que nos ajudam a sermos pessoas diferentes (melhores ou piores) a cada dia. A escolha de mudar para melhor ou pior cabe a cada um. A mudança é certa, pois é um fator da vida. O caminho a ser trilhado, entretanto, é uma questão pessoal.

No episódio “Bolsos Porosos”, nosso personagem conhece os efeitos de ser muito rico e o que este novo “status” acarreta para vida de alguém.

Rick Jarow, considerado pioneiro do movimento anticarreira e autor do Livro "Criando o Trabalho que Você Ama" escreve que “a abundância não diz respeito a quanto dinheiro se tem, mas à atitude sobre o quanto se tem”.

Bob Esponja viu todos os seus amigos irem embora de sua casa quando seu dinheiro chegou ao fim. Todos se aproximavam dele para pedir dinheiro e bastou o último centavo ir embora para que todos fossem também. Não devemos dar festas para atrair amigos, pois, para os verdadeiros amigos, nossa presença já deve ser comemorada.

O famoso filósofo Iluminista François Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido como Voltaire, escreveu que “quando se trata de dinheiro, todos têm a mesma religião”. Voltaire era defensor da liberdade religiosa e livre comércio.

Com Bob Esponja, aprendemos também que ter dinheiro é bom, mas que o que vem fácil com ele, também vai embora facilmente. Não devemos ter como amigos pessoas que se aproximam de nós porque podem conseguir algo em troca. Essa pode parecer uma constatação lógica, até certo ponto, mas devemos ficar atentos ao fato de que essa percepção não é tão fácil de ser atingida.

No final da história, Bob Esponja contabilizou um único amigo, o leal Patrick, uma estrela marinha totalmente sem noção, mas com um coração sem tamanho. Ainda que a ilusão de se ter muitos amigos seja atraente, ela não passa de uma mera ilusão. Prefira poucos, mas verdadeiros amigos.

Seja amigável

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O modo como encaramos a vida diz muito a respeito de quem somos. A vida pode ser dura, mas com amigos por perto as coisas podem ser menos difíceis. Ser amigável não é ter a capacidade de fazer amigos facilmente, mas encarar a vida com boa disposição e ser solícito.

O filósofo grego Aristóteles, que nasceu em 384 a.C., na cidade de Estagira (antiga cidade da Macedônia, situada hoje na Grécia), e morreu em 322 a.C., escreveu que “ninguém deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens".

O grande Aristóteles prezava a amizade, tanto que a colocou com um bem desejável e muito valioso, mesmo por aqueles que possuem bens materiais. O filósofo colocou a amizade num patamar superior aos bens materiais, pois considerava que amigo é aquele que nos torna mais aptos a refletir sobre nossas atitudes.

Ainda segundo Aristóteles, “até mesmo pensamos que os ricos, os que ocupam altos cargos, e os que detêm o poder são os que mais precisam de amigos; de fato, de que serviria tanta prosperidade sem a oportunidade de fazer o bem, se este se manifesta sobretudo e em sua mais louvável forma em relação aos amigos?”

Segundo o filósofo, a amizade pode ser classificada em três espécies: 1) amizade segundo o prazer; 2) amizade segundo a utilidade e 3) amizade segundo a virtude, ou a amizade perfeita.

Algumas pessoas fundamentam sua amizade baseadas no prazer que as outras podem trazer. Pessoas divertidas e espirituosas, por exemplo, têm muitos amigos não em função de seu caráter mas devido ao prazer que proporcionam àqueles que o cercam.

Quando uma amizade é estabelecida segundo a utilidade, ela existe por causa do bem que uma pessoa pode proporcionar à outra. O sentimento existe também não em função do caráter, mas a uma recíproca utilidade.

A amizade segundo a virtude, no entanto, é estabelecida somente entre os homens que, nas palavras de Aristóteles, são “bons e semelhantes na virtude, pois tais pessoas desejam o bem um ao outro de modo idêntico, e são bons em si mesmos”. Pessoas assim são raras, bem como amizades assim também são.

Bob Esponja nos apresenta um bom exemplo de como ser amigável e ter uma amizade baseada na virtude. Mesmo tendo apenas um amigo mais próximo (Patrick), a atitude de Bob é sempre de estar aberto a novas amizades, mesmo que seu jeito pouco ortodoxo de fazer amigos possa acabar assustando alguns moradores da Fenda do Biquíni.

Diante de um problema, Bob Esponja sabe que pode contar com seu leal amigo Patrick. Nosso querido personagem entende a importância de se ter amigos por perto; entende o que o filósofo grego disse há mais de dois mil atrás sobre o valor da amizade. Esteja aberto a fazer novas amizades e perceba que quem tem amigo tem o bem mais valioso que existe.

Seja determinado e dedicado no trabalho

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Bob Esponja é o tipo de profissional que todo empregador gostaria de ter. Sempre bem disposto, chega até a cantarolar enquanto prepara o famoso hambúrguer de siri, no restaurante “Siri Cascudo”.

Como a maioria das pessoas, Bob tem um patrão que não reconhece nem valoriza seu trabalho. Mas você acha que isso é um problema para nosso herói amarelo? Pelo contrário, sua determinação e dedicação superam qualquer adversidade.

Um bom profissional precisa a cada dia se motivar, pois a motivação funciona muito mais como um processo que surge de dentro para fora do que algo externo. Bons profissionais são “pro ativos”, não esperam grandes oportunidades para agir. Pelo contrário, criam oportunidades para novos negócios e relacionamentos. Na crise, enquanto uns choram, outros vendem lenços.

Bob Esponja é apaixonado pelo que faz, ele ama seu trabalho. Apesar de brincalhão e meio sem noção às vezes (quase sempre), ele se dedica muito ao seu trabalho e mesmo quando seu colega de trabalho, Lula Molusco, lhe passa alguma instrução errada, Bob não deixa que seus ruins conselhos interfiram no bom desempenho de suas funções.

A maioria das pessoas passa a maior parte do dia exercendo alguma atividade laboral. Se você é uma dessas pessoas que ficam mais no ambiente de trabalho do que em casa ou com seus amigos, opte por um emprego que você tenha prazer em fazer. Não precisa ser apaixonado pelo que faz, mas procure fazer algo no qual você se sinta útil fazendo, em que você faz diferença.

Quando fazemos o que gostamos, fazemos com prazer e com sentimento de dever cumprido. Se você trabalha exatamente com o que gosta de fazer, se você ama o que faz, parabéns, pois seu trabalho não é propriamente um “trabalho”, mas uma diversão. Talvez você nem sentisse falta de receber um salário, pois o simples prazer de realizar a tarefa já seria uma recompensa.

Seja resiliente

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Segundo a Física, a “resiliência” é a propriedade que alguns corpos apresentam de retornarem à sua forma original mesmo depois de expostos a uma deformação elástica. A Psicologia “emprestou” o verbete da Física para conceituar que resiliência é a capacidade que uma pessoa tem para lidar com problemas, obstáculos ou mesmo resistir à pressão de situações adversas, sem ceder a um surto psicológico.

Nas empresas, um funcionário resiliente é aquele que toma decisões com o intuito de vencer mesmo quando se depara com um contexto de ambiente tenso e hostil. A resiliência é uma combinação de diversos comportamentos, tais como: análise do ambiente, administração das emoções, autoconfiança, enxergar mudanças e dificuldades como grandes oportunidades, bom humor, empatia, otimismo, sociabilidade e controle dos impulsos.

Em diversas situações, podemos notar que Bob Esponja se mostra um funcionário resiliente, pois mesmo diante das armações de Lula Molusco e do Seu Sirigueijo, nosso personagem não perde a boa vontade e a motivação para continuar a realizar seu trabalho de forma eficiente.

Mas não é todo dia que Bob Esponja está completamente disposto e motivado a dar o melhor de si. Isso é natural, algo que acontece com todas as pessoas também. Há dias em que acordamos menos dispostos que outros, mas não é por isso que devemos deixar as pressões do dia a dia nos puxarem para baixo.

Quando fazemos uma análise do ambiente em que vivemos, administramos nossas emoções, temos confiança em nós mesmos e encaramos as adversidades com bom humor e empatia, conseguimos enxergar mais longe e alcançar nossos objetivos. Quando controlamos nossas emoções e encaramos os problemas com otimismo alcançamos o sucesso.

Olhe para as dificuldades sob outro prisma. Mude o foco, mude a perspectiva. Pessoas resilientes enxergam os problemas como verdadeiras oportunidades para brilhar. O grande Ayrton Senna, piloto brasileiro de Fórmula 1, três vezes campeão mundial, nos anos de 1988, 1990 e 1991, disse que “na adversidade, uns desistem, enquanto outros batem recordes”.

Não espere tudo ficar bem para dar o seu melhor. Brilhe na adversidade. Não deixe de ter perseverança.

Durante os Jogos Olímpicos, vemos diversos atletas de diferentes países competindo por uma medalha de ouro. Alguns desses atletas recebem altíssimos patrocínios e gozam de uma vida financeiramente estável. Porém muitos que ali estão não possuem sequer condições para se sustentar em seu próprio país. Esses últimos, entretanto, são os que recebem mais atenção da mídia quando conquistam uma medalha.

O motivo? Perseverança.

Os atletas que possuem os melhores equipamentos, a melhor estrutura, os melhores patrocinadores não chamam tanto a atenção quando conquistam uma medalha porque, de certo modo, já se era esperado que eles ganhassem, que chegassem ao lugar mais alto do pódio. Os verdadeiros heróis são aqueles que conseguem ultrapassar as barreiras do preconceito, do racismo, da quase miserabilidade e conquistam a medalha de ouro.

Os heróis não vivem em casas luxuosas e gozam de uma vida de fartura. Os heróis (de verdade) vencem inimigos muito mais poderosos do que seus oponentes.

Assim, através dessas breves linhas, fizemos uma análise, ainda que singela, da relação entre a trama de Bob Esponja e a Filosofia. Não devemos esquecer que se trata de um desenho animado, com um enredo voltado para o público infantil, possuindo, assim, alguns elementos que devem ser desconsiderados quando se faz uma análise filosófica. Procuramos potencializar os aspectos que achamos relevantes para esta análise, pois mesmo se tratando de uma série animada para o público infantil, a trama de Bom Esponja tem muito a nos dizer e ensinar.

Que possamos seguir os (bons) exemplos de Bob Esponja, seja no relacionamento com amigos, família ou colegas de trabalho e sejamos positivos, motivados e resilientes no dia a dia. Que não demos mais valor ao dinheiro do que ele realmente merece, pois, no final das contas, ficarão as boas histórias para contar.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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