renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

O efeito iPhone: Capitalismo cultural e mídia como inquisidores do processo de dominação ideológica

Com a quarta fase do capitalismo, o “cultural”, estamos diante da imposição da ideologia de consumo, em que as grandes empresas não apenas divulgam um produto, mas o conceito de sua marca. Nesse sentido, você só é um esportista de verdade se faz uso de determinada marca de tênis ou só é uma pessoa aceita num determinado grupo de pessoas se usa determinada marca de telefone celular, como no caso do aparelho celular iPhone, da empresa Apple, febre entre os jovens de classe média, mas presente também no meio social de jovens de baixa renda, que desejam sustentar uma aparente condição financeira.


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O mundo ficou menor a partir do período conhecido como Guerra Fria. As últimas décadas do século XX alteraram profundamente o panorama político, econômico e ideológico mundial, fenômeno esse que ficou conhecido como "Globalização” (ou “mundialização”, como os franceses preferem chamar).

A globalização revela-se como um processo de aprofundamento da integração econômica, política, social e cultural. Tal processo foi impulsionado, principalmente, pelo barateamento dos meios de transporte e de comunicação. Mas por que falar de globalização se iremos tratar sobre capitalismo? Justamente porque a globalização se mostrou como o principal propagador do capitalismo em sua atual fase.

Vilão para muitos e salvador para outros, ao longo do tempo, o capitalismo se apresentou de diferentes formas, o que acarretou em profundas transformações no espaço geográfico das sociedades. Passando pelo capitalismo comercial, industrial e financeiro, estamos diante, desde os anos finais do século XX, do chamado “Capitalismo Cultural”.

Muito além da especulação financeira, da formação de mercado de ações e sua especulação no que diz respeito a valores, taxas e juros, nesta fase, o que se propaga (ou impõe) é a cultura, aqui posta não em seu conceito ontológico, formulado por Edward B. Tylor, como “todo o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Essa imposição tende a globalizar uma única cultura, a cultura do capital, a cultura ideológica das grandes empresas.

No período pós Segunda Guerra, Estados Unidos e União Soviética foram os protagonistas de uma guerra ideológica. Com a divisão do mundo em dois blocos ideologicamente distintos, cada país desejava aumentar sua influência e participação nas decisões globais. Se de um lado estavam os países partidários da economia de mercado e da democracia política, do outro tínhamos aqueles adeptos à economia planificada e à hegemonia de um único partido.

O mundo passou a assistir um embate entre Estados Unidos e União Soviética, um embate entre Capitalismo e Socialismo, que se manifestou, notadamente, na rivalidade técnico-científica, em que a corrida espacial representou, sem dúvida, o momento mais vibrante desta disputa.

Depois da vitória americana na corrida especial, a União Soviética se viu economicamente devastada. A economia planificada estatal não conseguira uma indústria de consumo forte e eficiente, produzindo, assim, mercadorias de baixa qualidade e obsoletas. A queda do muro de Berlim, em 1989, a reunificação da Alemanha, e a renuncia, em 1991, do secretário-geral do partido comunista, Mikhail Gorbatchov, culminaram no fim da Guerra Fria.

Sob esse plano de fundo, a globalização surge (ou se intensifica) como um conjunto de mudanças nas relações de trabalho, no papel do Estado, no processo da produção de riquezas, e, consequentemente, nas formas de dominação sociocultural. O período pós década de 1970 representou uma mudança na postura das empresas, que, com a livre circulação do capital, buscaram uma participação maior no mercado mundial.

Um dos fenômenos mais marcantes deste período foi a exportação não somente de produtos, mas dos hábitos de consumo e do modo de vida dos países mais desenvolvidos, em que marcas conhecidas mundialmente e grandes redes de supermercados e fast food passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, principalmente dos cidadãos dos países ainda em fase de desenvolvimento.

Ao mesmo passo que a globalização proporcionou a acessibilidade a produtos e bens de consumo para os indivíduos, não importando sua nacionalidade, algumas questões precisam ser consideradas, como a descaracterização das culturais locais desses indivíduos.

Como nos ensina Ricardo Jorge da Silva (2004, p. 594):

“É no decorrer do século XX que o movimento da mundialização forma-se completamente. No campo da cultura, tal movimento engendra ‘diásporas culturais’. Há uma produção de gostos, crenças e hábitos que transcendem as fronteiras nacionais. As feições culturais diaspóricas apresentam aspectos estandardizados, que são em larga medida fortalecidos pela manifestação midiática. Um exemplo emblemático é o que estudiosos começam a definir como internacionalização dos comportamentos alimentares. Esse processo traduz-se em dois pontos: primeiro, a pluralização dos produtos, ou seja, uma área não se caracteriza mais por uma quantidade restrita de alimentos cultivados localmente; segundo, a transformação da cozinha tradicional (pratos típicos) para uma outra, industrializada, cujos alicerces estão na produção em alta escala. Isso não significa que pratos reconhecidos tradicionalmente deixem de existir; porém, assumem uma nova conotação. A sofisticação que requer uma verdadeira pizza italiana torna-se inadequada à valorização do tempo pelos vorazes consumidores que frequentam Shopping Center. Na verdade, os alimentos perdem sua territorialidade e são deslocalizados em proporções globais. A esse respeito, é sugestivo a caso da empresa McDonald’s”.

Nesse sentido, o que existe é o desprezo pelas culturas locais em benefício de culturais consideradas globais. Comunidades que até então possuíam identidade e cultura próprias passam a ser influenciadas por uma outra cultura, uma cultura sem rosto, sem identidade, sem história. Hábitos alimentares até então enraizados no seio de uma coletividade são substituídos por pratos rápidos e comerciais e de qualidade duvidosa. Não somente alimentos, mas o uso da língua e o desprezo pelas tradições e costumes locais são marcas deste fenômeno.

Nesse novo cenário “mundializado”, a meta a ser alcançada é tornar-se cada vez mais igual à cultura hegemônica. As culturas com menor poder de participação vão sendo engolidas pela cultura global que possui maior influência na vida dos indivíduos e (principalmente) no mercado mundial. Dá-se espaço para uma cultura vendável e lucrativa.

Com a mundialização cultural, o que passa a existir são relações moldadas por transformações sociais que superam as barreiras da convivência regional. Com a presença de multinacionais nos países subdesenvolvidos, a vida cotidiana dos cidadãos sofreu profundas transformações, em que a uniformização cultural foi a saída mais fácil e cômoda para despir o indivíduo de sua cultura regional, tida como inferior, para forçá-lo a filiar-se à cultura global, tida como superior.

Nesse sentido, a adoção da língua inglesa como idioma planetário é necessária justamente por dar sentido aos símbolos globalizados, em que toda a indústria cultural faz uso deste idioma para implantação de seus conceitos.

Conceito de mídia

A palavra mídia tem origem do latim media, que significa meio. Podemos encontrar algumas interessantes definições para o termo nos dicionários. O dicionário Michaelis, muito utilizado por estudantes e pelo público em geral, traz a definição de que mídia é o meio ou veículo de divulgação de algum assunto, ou mesmo qualquer material físico que possa servir para o armazenamento de dados.

Daí se pode tirar a conclusão de que podemos considerar como mídia cds, fitas, cd-rom ou qualquer outro material que possa ser inventado no futuro que tenha a função de armazenar algum tipo de informações. Também podemos considerar como veículo de comunicação, por exemplo, a televisão, jornais e revistas, sendo a primeira tida como mídia eletrônica e as demais, mídias impressas.

Outro famoso dicionário, o Aurélio, esclarece que podemos chamar de mídia todo suporte de difusão de informação, como rádio, televisão, imprensa, publicação na internet e diversas outras formas. Os recursos da etimologia, entretanto, servem apenas como ponto de partida na tentativa de esclarecer o real significado da mídia dentro do contexto da sociedade contemporânea brasileira.

De acordo com os dados da 25ª Pesquisa Anual Sobre o Uso de Tecnologia da Informação, realizada pela Fundação Getúlio Vargas, divulgada em 24 de abril de 2014, 97% da população brasileira possui, pelo menos, um aparelho de televisão em casa, ultrapassando a média mundial de 72%. Segundo o coordenador da pesquisa, professor Fernando Meirelles, “o Brasil vai chegar a uma televisão por habitante neste ano”.

A pesquisa revelou também que o Brasil já supera os Estados Unidos na quantidade de telefones por habitantes. No Brasil, o índice é de 158%, enquanto que nos Estados Unidos é 156%, muito acima da média mundial de 115%. A explicação do aumento do número de aparelhos no Brasil, mais de 3 a cada 2 habitantes, estaria no fato da população de baixa renda ter ganhado mais poder de compra nos últimos anos e na política de não tarifação entre as mesmas operadoras. No caso de computadores, incluindo notebooks, desktops e tablets, a pesquisa da FGV revela que atualmente 67% da população brasileira tem um computador. Índice este abaixo da média mundial, que é de 72%. A venda de tablets são destaque no mercado, que vem crescendo em ritmo superior a de notebooks e desktops. Somente em 2013 foram vendidos aproximadamente oito milhões.

Segundo outra pesquisa, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e divulgada em junho de 2014, 42,5 milhões de brasileiros acessam a internet pelo celular. Para se definir alguém como usuário de internet é usado o parâmetro internacional , qual seja, a pessoa deve ter acessado a rede pelo menos uma vez nos últimos três meses. Na pesquisa, 51% dos entrevistados haviam acessado, revelando um número de 85,9 milhões de usuários de internet no Brasil, independente do meio utilizado.

Capitalismo e mídia: a receita perfeita para a disseminação da mundialização e dominação ideológica

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Com a quarta fase do capitalismo, o “cultural”, estamos diante da imposição da ideologia de consumo, em que as grandes empresas não apenas divulgam um produto, mas o conceito de sua marca. Nesse sentido, você só é um esportista de verdade se faz uso de determinada marca de tênis ou só é uma pessoa aceita num determinado grupo de pessoas se usa determinada marca de telefone celular, como no caso do aparelho celular iPhone, da empresa Apple, febre entre os jovens de classe média, mas presente também no meio social de jovens de baixa renda, que desejam sustentar uma aparente condição financeira.

Vencida a fase da especulação do capital, o alvo das empresas (principalmente com o avanço da internet, pós anos 2000) tem sido o desejo de consumo dos indivíduos, que é constantemente alimentado por uma indústria cada vez mais aquecida, em que novos produtos são despejados no mercado todos os dias.

A obsolescência programada é uma grande aliada para que esse fenômeno ocorra de forma cada vez mais forte. Trata-se de uma estratégia adotada por algumas empresas que programam o tempo de vida útil dos produtos, para que esses durem menos que a tecnologia permita, forçando, assim, os consumidores a comprarem um modelo novo, pois o que possuem já se tornou ultrapassado, seja pela vida útil que foi reduzida, seja pela falta de peças de reposição que são propositalmente retiradas do mercado.

Mesmo não sendo uma prática nova (ela vem sendo adotada desde a década de 1930, conhecida como “descartalização”), a obsolescência programada atingiu um nível ainda maior com a modernização do processo industrial e a adoção de mão de obra barata dos países em desenvolvimento tardio.

É bem verdade que todo o processo tecnológico trouxe diversos benefícios, como o estreitamente das relações e a velocidade com que as informações são repassadas a diferentes pontos do planeta. Mas também é verdade que talvez estejamos diante da mais devastadora faceta do capitalismo, em que, ainda que silenciosamente, a mídia tem exercido uma forte influência no poder de decisão do consumidor e na consequente consolidação do modelo cultural dominante, que despreza a cultura regional, tida como inferior.

Nesse sentido, é preciso que se avance sim, mas para uma globalização “rica”. Explico. Um processo de globalização “rico” (ou benéfico) leva em consideração o processo histórico-social de cada nação e povo, e não simplesmente despreza a cultura e a tradição de uma região. A globalização rica distribui a cultura e os bens de todos para todos. A globalização pobre (a que está vigente e que é mais lucrativa para as grandes empresas) distribui uma única cultura (preferencialmente a norte-americana) para todas as nações como sendo a única certa e que vale a pena ser experimentada.

Diferente do período da Guerra Fria, em que a ideologia norte-americana era massivamente disseminada com o intuito de conseguir mais aliados para o eixo ocidental, vivemos o período em que a ideologia imposta é a defendida pelas grandes empresas, em que mais importante que o próprio produto é a marca. Podemos pegar como exemplo a empresa Coca-Cola, no qual a sua marca vale mais que toda a soma de seus ativos, desde produtos, maquinários a fábricas.

Assim, devemos estar com os olhos voltados à tecnologia e ao desenvolvimento dos povos, mas sem esquecer que cada nação tem sua própria história e que a construção de sua cultura se deu por um longo processo, que deve ser respeitado. Não podemos e não devemos esquecer que a diversidade dos povos é o que faz dos indivíduos, como construtores de sua própria história, seres tão singulares e especiais. Essa singularidade deve ser respeitada e o compartilhamento cultural (e não a imposição) talvez seja o primeiro passo para a mudança do status quo.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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