renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

O mundo antes de Karl Marx: Porque as obras do pensador são cada vez mais relevantes

Mesmo que algumas pessoas considerem as ideias de Karl Marx impraticáveis, ou mesmo fora de contexto no atual cenário socioeconômico em que vivemos, entendo que elas nunca estiveram tão atuais como agora. Numa época em que o Capitalismo impera em sua fase mais agressiva, estudar as ideias de Marx nos faz capazes de enxergar o outro lado da moeda. Ainda que não sejamos defensores de seus pensamentos, devemos ter o interesse de ler e, pelo menos, tentar compreender suas concepções e análises sobre o Capitalismo e sobre seus efeitos na sociedade.


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Karl Marx foi um dos primeiros pensadores a propor uma nova forma de ver o capitalismo, cada vez mais emergente no século XIX. Nascido em 1818, em Treves, Alemanha, Marx mudou-se para Paris em 1842, onde conheceu Friedrich Engels, seu grande parceiro intelectual. Depois de ser expulso da França em 18545, Marx foi para Bruxelas, onde participou da recém-fundada liga dos comunistas.

Escreveu com Engels, em 1848, O Manifesto do Partido Comunista e a partir deste mesmo ano passou a morar em Londres, dando continuidade aos seus estudos. Outras principais obras de Marx são A Ideologia Alemã e O Capital, essa última considerada sua obra-prima.

O surgimento do marxismo se deu junto com o da sociedade moderna, com a instalação das grandes indústrias e com o aparecimento de uma nova classe social: o proletariado industrial. O marximo expressa a concepção do mundo moderno, revelando suas contradições e seus problemas, apontando soluções racionais que batiam de frente às alternativas metafísicas até então propostas. Nas palavras de Marx, “até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo” (11ª tese sobre Feuerbach, 1845).

Marx se tornou num árduo estudioso do capitalismo, produzindo obras de filosofia, economia e sociologia, pois, como revelado através de sua frase já citada, o pensador não se limitou a apenas entender o mundo, mas queria transformá-lo. Marx foi influenciado por diversos filósofos, dentre entres Hegel, no qual o pensador absorveu e aplicou o método dialético. O contato com o pensamento socialista dos filósofos Saint-Simon (1760-1825) e Charles Fourier (1772-1837) e Robert Ower (1771-1858) foi bastante significativo também.

Ao mesmo passo que Karl Marx elogiava o pioneirismo desses pensadores quanto à crítica que faziam à sociedade burguesa, Marx fazia uma dura crítica ao utopismo de suas propostas para mudanças sociais.

Para Marx, indo além do pensamento utópico, era necessária a luta política entre as classes sociais e o fundamental papel revolucionário da classe operária para que uma mudança pudesse, de fato, acontecer. Marx destinou grande parte da sua vida fazendo uma crítica à obra dos economistas clássicos ingleses, mais notadamente Adam Smith e David Ricardo, trabalho este que desenvolveu até o final de sua vida, resultando na maior parte de sua obra teórica.

No decorrer de suas pesquisas, Karl Marx desenvolveu diversos conceitos importantes, dentre eles o de alienação, ideologia, valor, mercadoria, infraestrutura e mais-valia. Ainda que o termo alienação tenha surgido primeiramente na Filosofia de Hegel, Marx o inseriu no pensamento social para descrever um estado e um processo pelos quais os homens perdem a si mesmos e a seu trabalho no capitalismo.

Karl Marx também escreveu diversos artigos para revistas e jornais na Alemanha, Inglaterra e França, sempre tendo como temática duras críticas ao sistema capitalista e ao Estado moderno, que, no entender do pensador, eram os criadores das desigualdades sociais. Marx era defensor da luta de classes e do fim da propriedade privada, além de defender o direito do proletariado aos meios de produção.

Sendo perseguido por suas ideias, Marx procurou asilo em países como França e Bruxelas. Nesse último, seu interesse por política aumentou, participando da recém fundada Liga dos Comunistas. A obra Manifesto do Partido Comunista foi preparada para o segundo congresso da Liga. O texto começa por analisar a luta de classes e finaliza com uma convocação para que os operários se unam para combater a ditadura dos capitalistas, donos dos meios de produção: “Proletários de todos os países, uni-vos!”

Segundo Marx, em sua obra Manifesto do Partido Comunista, “as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante”. E ainda, que “a história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes”. Para Marx, “o desenvolvimento da indústria moderna, portanto, abala a própria base sobre a qual a burguesia assentou seu regime de produção e de apropriação. O que a burguesia produz principalmente são seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis”.

Como era o mundo antes de Karl Marx?

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O surgimento do Socialismo moderno, teve como pano de fundo os acontecimentos econômicos entre 1775 e 1825. Os anos iniciais da Revolução Industrial geraram um crescimento do consumo que dinamizou a economia e mudou profundamente o estilo de vida da sociedade, principalmente na Inglaterra, berço da revolução. A sociedade inglesa já mostrava nitidamente uma divisão social, vez que surgiram grandes empresas monopolizadoras do mercado.

Essa divisão trazia, de um lado, os grandes empresários que já começavam a fazer suas fortunas e, do outro, os operários que trabalhavam em condições desumanas em troca de baixíssimos salários. Essa fase ficou conhecida como “a década faminta de 1840”. Havia, na mesma sociedade, duas espécies bem distintas de pessoas, e quanto mais o tempo passava, mais o abismo entre ambas era evidente.

Foi nessa época que surgiu o Manifesto do Partido Comunista (1848), escrito em parceria com Friedrich Engels. O comunismo surgiu para diferenciar o socialismo científico, marxista, do socialismo utópico, anterior aquele ano. O marxismo surgiu, então, para defender a ideia de que a transformação da sociedade depende do processo histórico. O marxismo “obriga” a sociedade industrial a criar uma nova classe, denominada “proletariado industrial” (massa social que saiu da zona rural à procura de trabalho nas fábricas das cidades).

A nova classe teria em si o embrião revolucionário essencial para mudar a sociedade, numa verdadeira revolução social. Para Marx, o capitalismo estaria condenado, haja vista todas as injustiças e erros que proporcionara à sociedade. Numa tentativa de implantar a transição do capitalismo para o socialismo, a revolução imporia a ditadura do proletariado, baseado na força do proletariado, que faria uso até da força armada, caso fosse necessário.

Antes de Marx expor suas ideias, o socialismo não possuía uma visão integradora e científica da realidade social e política do mundo pós-Revolução Industrial. As concepções socialistas da primeira metade do século XIX eram utópicas, vez que propunham a formação de comunidades igualitárias e rejeitavam o conceito de fábrica, enquanto base do capitalismo industrial.

Marx inovou a visão socialista a partir do momento em que incentivou o proletariado a promover uma revolução com o intuito de derrubar o mundo antigo, dominado pela burguesia e pelo conservadorismo, e forjar um mundo novo. Marx foi o primeiro a analisar a política, a economia e a sociedade de forma conjugada entre si. Nesse sentido, ele imprimiu um sentido histórico à luta do proletariado. Para que a revolução desse certo, entretanto, era necessário que essa luta fosse internacional, por isso a formação da primeira Internacional Operária (1864-1876).

Para o Marxismo, a ação política está condicionada à força econômica e ao desenvolvimento material. Para Marx, tudo no sistema capitalista está ligado à produção de mercadoria. Mercadoria seria tudo que é produzido não objetivando o valor de uso (como, por exemplo, uma senhora que faz um cachecol para uso próprio), mas objetiva o valor de troca, ou seja, a comercialização do produto.

Nesse sentido, como o operário não detém a posse dos meios de produção nem tampouco é dono das matérias-primas que são utilizadas, o mesmo precisa vender seu trabalho. O capitalista, dono do meio de produção, compra essa mercadoria, a força de trabalho do operário, que trabalha para o capitalista em um regime de trabalho aparentemente livre. Com a venda de sua força de trabalho, todo que é produzido pelo operário pertence ao capitalista, que paga pelo trabalho feito.

Ocorre que este pagamento jamais irá corresponder ao tempo de trabalho exercido pelo operário. Explico. Se o operário gasta seis horas para fazer uma mesa, o capitalista irá lhe pagar apenas três (ou até menos). As outras horas não pagas ficam para o capitalista. Esse trabalho não pago ao operário foi chamado por Marx de mais-valia, ou seja, aquilo que o trabalhador faz além do valor de sua força de trabalho.

Em sua obra máxima, O Capital (considerada o marco do pensamento socialista marxista, tendo seu primeiro livro lançado em 1867), Marx analisa de modo detalhado o funcionamento do sistema capitalista e revela como suas contradições produziriam sua própria crise estrutural, vindo a causar seu fim.

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Assim, por tudo que foi exposto, podemos chegar à conclusão que as ideias de Marx influenciaram diversas áreas do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, História, Ciência Política, Antropologia, Psicologia, Economia, Comunicação, dentre outras. Em 2005, em pesquisa realizada pela Rádio BBC de Londres, Karl Marx foi eleito o filósofo mais importante de todos os tempos. Isso não se trata de um exagero, pois mesmo o mais ignorante em Ciências Sociais é capaz de citar pelo menos alguma ideia de Marx, enquanto que citar algum pensamento de Platão, Nietzsche ou Kant é uma tarefa mais difícil, justamente devido ao impacto que suas ideias causaram e ainda causam na sociedade.

Nesse sentido, mesmo que algumas pessoas considerem as ideias de Karl Marx impraticáveis ou mesmo fora de contexto no atual cenário socioeconômico em que vivemos, entendo que elas nunca estiveram tão atuais como agora. Numa época em que o Capitalismo impera em sua fase mais agressiva, estudar as ideias de Marx nos fazem ser capaz de enxergar o outro lado da moeda. Ainda que não sejamos defensores de seus pensamentos, devemos ter o interesse de ler e (pelo menos) tentar compreender suas concepções e análises sobre o Capitalismo e sobre seus efeitos na sociedade.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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