renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Contra a mais-valia: Por uma ética de valores e não de resultados

O que percebemos atualmente na sociedade é um apego à ética de resultados e não de valores, em que o mais importante é o resultado que determinada atitude proporciona e não se tal atitude foi pautada levando-se em consideração os princípios da ética, principalmente a ética no trabalho e nas relações entre patrão e trabalhador, escola e aluno e entre os membros da coletividade.


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Sendo a ética uma reflexão, um segundo olhar sobre a moral que, até certo ponto, orienta e direciona determinada coletividade de indivíduos, uma reflexão sobre a própria ética e sobre a essência das normas e dos valores da realidade social é indispensável para que possamos, pelo menos em parte, avaliar para onde estamos caminhando como “sociedade global”.

Até que ponto caminhamos rumo a uma “moral compartilhada” e não conquistada e construída através de fatores históricos e sociológicos, numa macha cega sem questionar os pressupostos dessa caminhada?

A palavra ética deriva do grego ethos, que significa caráter, ou seja, o modo de ser e agir de um indivíduo. Pode ser conceituada, de modo amplo e simplista, como um conjunto de valores morais e princípios norteadores da conduta humana na sociedade. Assim, a ética tem seu espaço dentro da sociedade.

Nenhum ser humano pode ser ético longe do convívio em sociedade, ninguém pode ser ético sozinho ou consigo mesmo. Ainda que uma pessoa siga algum modelo de conduta consiga mesma, isso não pode ser considerado como um comportamento ético, por faltar o atributo da alteridade, que se caracteriza por uma relação de contraste, de interação social e dependência em relação ao outro.

A ética, como fundamentação teórica, existe para que haja equilíbrio social. É comumente confundida com a lei, ainda que a lei tenha como base os princípios éticos. Entretanto, diferente da lei, ninguém pode ser obrigado pelo Estado ou qualquer outra instituição a agir com ética. Não há que se falar em qualquer espécie de penalidade para quem não pautar seu comportamento na ética.

O sentimento de justiça social deve andar junto com a lei e com a ética, pois o que concede legitimidade a uma norma, o que garante um fundamento de autoridade, é justamente este sentimento comunitário de que a lei deve ser seguida para o bem comum de todos, ainda que nem todo o aparato do Estado esteja em pleno funcionamento ou caminhando para este objetivo (o que os filósofos contratualistas, em especial Hobbes e Rousseau, denominaram de “Contrato Social”.

Nesse sentido, a ética é construída por uma sociedade com base nos seus valores culturais e históricos. Por este motivo, cada sociedade e, consequentemente, os grupos que a formam, possuem seus próprios códigos de ética, é dizer, o modo de agir determinado de cada agrupamento.

O conceito de mais-valia foi formulado por Karl Marx. Segundo o pensador, como o operário não detém a posse dos meios de produção nem tampouco é dono das matérias-primas que são utilizadas, o mesmo precisa vender seu trabalho. O capitalista, dono do meio de produção, compra essa mercadoria, a força de trabalho do operário, que trabalha para o capitalista em um regime de trabalho aparentemente livre. Com a venda de sua força de trabalho, tudo que é produzido pelo operário pertence ao capitalista, que paga pelo trabalho feito.

Ocorre que este pagamento jamais irá corresponder ao tempo de trabalho exercido pelo operário. Explico. Se o operário gasta seis horas para fazer uma mesa, o capitalista irá lhe pagar apenas três (ou até menos). As outras horas não pagas ficam para o capitalista. Esse trabalho não pago ao operário foi chamado por Marx de mais-valia, ou seja, aquilo que o trabalhador faz além do valor de sua força de trabalho.

Nesse sentido, o que percebemos atualmente na sociedade é um apego à ética de resultados e não de valores. Assim, o mais importante é o resultado de determinada atitude e não se tal atitude foi pautada levando-se em consideração os princípios da ética, principalmente a ética no trabalho e nas relações entre patrão e trabalhador. O confronto entre os donos do meio de produção e a classe trabalhadora já atravessa séculos, em que cada classe defende seu posicionamento.

Mesmo em meios onde, aparentemente, não há um confronto entre valores e resultados, podemos notar que os valores são atropelados em prol de resultados cada vez mais atraentes. Podemos citar como exemplo as escolas de ensino médio e cursinhos preparatórios, em que o importante não é o aprendizado, mas sim uma boa colocação nos vestibulares das universidades mais disputadas do país.

Nesse cenário, o que se almeja não é o conhecimento, mas sim uma boa colocação nas universidades, principalmente federais, em função do alto grau de competitividade e da dificuldade de suas provas de seleção. O tempo, que poderia ser destinado para um aprendizado concreto, é usado para memorização e soluções de questões que mais caem em determinada prova de seleção.

O aluno passa a ser um veículo de marketing para determinada escola, que o usa para exibir seus resultados. O discente é apenas um número, uma boa colocação, não existindo uma preocupação com a vida acadêmica dele.

Assim, parece que, como sociedade, caminhamos cada vez mais rumo ao status do ter e não do ser, da ética de resultados e não de valores. Num cenário como este, a retórica maquiavélica de que os fins justificam os meios toma o lugar da moral e da ética pautada nos valores.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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