renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Darth Vader e a Filosofia: A concepção Hobbesiana de governo e o Império Galáctico como a figura do Leviatã

Para o filósofo inglês Thomas Hobbes, a origem do Estado e a concentração de um poder absoluto e indivisível nas mãos de apenas um soberano se justifica na condição da guerra de todos contra todos no que ele chamou de "estado de natureza", uma condição em que a sociedade tal como conhecemos não existe e por isso os homens agem egoisticamente em busca de sobrevivência. Partindo desse axioma, o presente artigo faz uma análise das ideias de Hobbes combinadas com a premissa do surgimento do Império Galáctico, ao passo que analisa a figura do Leviatã, proposta pelo filósofo, dentro do contexto da série.


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Considerado um dos vilões mais icônicos do cinema, em especial do gênero ficção científica e fantasia, Darth Vader é, ao mesmo tempo, protagonista e antagonista da franquia de sucesso Star Wars, criada por George Lucas, tendo participado dos seis filmes e sendo citado no mais novo longa, Star Wars VII: O Despertar da Força. Com sua máscara negra e respiração mecânica, o vilão tem atravessado gerações e despertado interesse em fãs de todas as idades.

Personagem marcante da cultura pop, Darth Vader, nascido Anakin Skywalker, serviu à República Galáctica quando jovem, tendo se tornado mais tarde o Lorde Negro dos Sith. Filho de Shmi Skywalker, casou-se secretamente com Padmé Amidala, Senadora de Naboo, e com ela teve dois filhos, os lendários Luke Skywalker e Leia Organa (nascida Leia Amidala Skywalker).

No decorrer da trama dos seis filmes em que aparece diretamente, Darth Vader passa por diferentes contextos e tramas que ajudam na construção de seu personagem. Quando criança, Anakin teve uma vida sofrida. Passou seus primeiros anos como escravo no planeta Tatooine, sendo mais tarde descoberto pelo Mestre Jedi Qui-Gon Jinn (após um pouso de emergência), que o libertou a o ajudou a ingressar na Ordem Jedi. Anakin era um garoto prodígio e desde muito jovem possuía talentos brilhantes, como piloto de pods e engenheiro, tendo também habilidade de precognição. Anakin criou até seu próprio dróide de protocolo, o famoso C3PO.

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Após a morte de Qui-Gon Jinn (assassinado por Darth Maul), Anakin passou então a ser o Padawan (discípulo) de Obi-Wan Kenobi, mesmo contra sua vontade, mas por causa de uma promessa feita por este a Qui-Gon quando de sua morte. Foi atribuído a Anakin que seria ele o escolhido da profecia Jedi, aquele que traria o equilíbrio à Força e destruiria os guerreiros Sith.

Na adolescência, Anakin havia se tornado um garoto arrogante e socialmente desajeitado, talvez devido à rápida transição que passou, de um escravo em Tatooine à grande promessa da Ordem dos Guerreiros Jedi. Devido às suas habilidades naturais, Anakin se considerava superior aos seus demais companheiros, sendo extremamente impulsivo e insubordinado ao seu mestre Obi-Wan, por quem demonstrava pouco respeito, vendo-o, por vezes, como inferior.

Apesar disso, o próprio Anakin dizia que Obi-Wan era como um pai. Dizia que ele possuía a sabedoria do Mestre Yoda e o poder de Mace Windu. Essa afirmação, entretanto, pode ser interpretada como mais uma demonstração de sua arrogância, vez que Anakin se sentia superior a Kenobi em diversos aspectos e achava que este impedia o avanço de seus poderes. Anakin tinha um relacionamento contraditório com seu mestre, visto que seu próprio mestre não tinha certeza se era realmente capaz de treinar Skywalker.

O relacionamento entre Anakin e Kenobi não teve um bom começo, em parte porque o mestre Jedi não via potencial no garoto, considerando-o até perigoso. A única razão de ainda continuar com o treinamento foi por causa do desejo final de Qui-Gon Jinn.

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Todo este cenário trouxe frustração a Skywalker, que foi, então, procurar conselhos de um outro mentor, o Supremo Chanceler Palpatine. Enquanto ambos se aproximavam cada vez mais, o chanceler insuflava novas ideias em Anakin, chegando até a dizer que o jovem era mais poderoso que o próprio Mestre Yoda. Sempre que Anakin era repreendido por Kenobi, Palpatine dizia que Skywalker estava certo, convencendo-o de que jamais cometera erro algum.

Durante as Guerras Clônicas, quando Anakin se vê sob o risco iminente de perder sua esposa e filho, Palpatine o faz acreditar que indo para o lado negro da força seria possível impedir tal fato, por ser o lado sombrio mais forte. Após uma guerra psicológica entre seu lado bom e mal, o chanceler, na verdade, Darth Sidious, consegue transformar Anakin em Lord Darth Vader, seu novo aprendiz Sith.

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Após matar a sangue frio quase todos os guerreiros Jedi, inclusive crianças, e servir o Império Galáctico durante anos, Darth Vader, no fim da vida e após derrotar Sidious, foi redimido por seu filho Luke. Em seus últimos momentos de vida, Vader retorna para o Lado Bom da Força, salvando a vida de seu filho e voltando a ser Anakin Skywalker.

Esta é, em breves lindas, a história de Darth Vader.

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Um outro personagem, porém da vida real, já não gozava da mesma popularidade. Thomas Hobbes (1588-1679), considerado um dos maiores pensadores políticos da Inglaterra, conhecido por ser um sujeito alto, de rosto corado e de barba rala, foi uma criança muito doente. Quando adulto, entretanto, foi um esportista, jogando tênis até ficar velho. Tinha uma alimentação à base de peixe e vinho e costumava andar com sua bengala especial, feita com um tinteiro na ponta, para anotar alguma ideia enquanto fazia suas caminhadas matinais. Hobbes viveu até os 91 anos de idade, um grande feito para o século XVII, já que a expectativa de vida era de 35 anos.

Dono de uma mente genial, Hobbes possuía uma visão negativa dos seres humanos, acreditando que todos são egoístas e movidos pelo medo da morte, pela insegurança e pela busca de interesses próprios. É dele a ideia de que vivemos num constante estado de guerra, numa guerra de todos contra todos. Num mundo onde todos são egoístas, somente o Estado de Direito, através da ameaça de punição (do direito de punir do Estado), seria capaz de manter o controle social. A frase “o homem é o lobo do homem”, que se tornou famosa pelo filósofo inglês, foi usada para explicar que o maior inimigo do homem é o próprio homem. Explico. Hobbes usou essa metáfora do homem como animal selvagem para indicar que o homem é capaz de praticar atos de barbárie contra os membros de sua própria espécie quando se encontra num estado de medo e insegurança.

A frase é, originalmente, de autoria de Tito Mácio Plauto, dramaturgo romano que viveu durante o período republicado. A frase ganhou notoriedade por estar presente na obra O Leviatã, escrita por Hobbes, publicada em 1651.

Na obra, considerada uma das mais importantes de Hobbes, o filósofo diz que a paz social só pode ser alcançada mediante o Contrato Social, espécie de acordo tácito feito entre a coletividade e o soberano. Através do contrato é estabelecido um poder centralizado com autoridade absoluta para proteger a sociedade da ação dos próprios homens.

Segundo Hobbes, em O Leviatã, desta guerra de todos os homens contra todos os homens nada pode ser injusto. Assim, onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei, não há injustiça. O contrato, porém, não é imutável ou eterno. Para o filósofo, a obrigação dos súditos para com o soberano tem razão de existir somente enquanto este é capaz de protegê-los.

Thomas Hobbes via o estado de natureza como algo ficcional, uma etapa hipotética da condição humana fora do convício da coletividade. No estado de natureza de Hobbes, a condição do homem é a condição de guerra, pois sem governo os homens aterrorizam uns aos outros (e sem limites) na sua busca por autopreservação. Para evitar que se chegue a este estado de natureza, os seres humanos devem aderir ao contrato social e se submeterem a autoridade de um soberano. Porém para que o contrato dê certo, é preciso que o governante tenha poderes absolutos e indivisíveis. Contudo, se o soberano falhar em garantir a proteção aos súditos, o contrato social é rompido e os indivíduos podem agir, levando-os de volta ao estado de natureza.

Hobbes é um filósofo contratualista e ao lado de John Locke e Jean-Jacques Rousseau é um dos principais expoentes dessa corrente de pensamento. Porém, mesmo entre esses três pensadores podemos identificar algumas diferenças entre suas ideias, que seguem.

Como já vimos, para Hobbes, o contrato se justifica na necessidade de existir um poder que esteja acima dos interesses individuais das pessoas, ou seja, para que o instinto destrutivo dos seres humanos seja controlado. Assim, o Estado surge para inibir os instintos primitivos de sobrevivência que existem nos homens e garantir a paz social e a preservação da vida dos indivíduos. Para tal, os súditos devem transferir ao soberano amplos, ilimitados e indivisíveis poderes, abrindo mão até de sua liberdade em troca de segurança.

Para Locke (1632-1704), a existência do Estado se deve não à condição de selvageria do ser humano, mas à necessidade de existir uma instância que esteja acima do julgamento parcial e egoísta de cada cidadão. Os indivíduos escolhem livremente seu governante e lhe delegam poder para conduzir o Estado, para que este garanta os direitos essenciais constantes no contrato social. Ainda para Locke, o Estado deve preservar o direito individual à liberdade e à propriedade privada. As leis não devem ser fruto da vontade unilateral do soberano, mas de uma Assembleia. Locke opõe-se ao absolutismo, à tirania, e à tese de que, como na monarquia, algumas pessoas já nascem com a aptidão inata de governar.

Já para o filósofo suíço Jacques Rousseau (1712-1778), o ser humano é bom em sua essência. Para ele, a soberania pertence ao povo, pois o poder dele emana. E esse poder deve ser exercido pelo governante em nome do povo. Assim, o governante é um representante do povo, recebendo o poder por delegação para exercê-lo em nome dos indivíduos. Para Rousseau, o Estado tem origem no contrato social formado entre os cidadãos livres que renunciaram suas vontades para garantir a vontade geral. A ideia de vontade geral propõe que os indivíduos devem abrir mão de muitas liberdades individuais em prol da comunidade. Nesse sentido, deve haver leis que restrinjam o comportamento das pessoas.

Para Rousseau, as ideias de liberdade e obediência às leis estatais se complementam. Quando os indivíduos agrupam-se em sociedade, acabam por formar um tipo de pessoa, em que cada cidadão faz parte de um todo bem maior em relação à individualidade de cada um. Para o filósofo, as pessoas seriam livres na sociedade quando estivessem sob o julgo de leis que, verdadeiramente, refletissem a vontade geral, a vontade deste corpo formado pelos cidadãos, e não a leis que beneficiassem somente a uma parcela da coletividade.

- O monstro Leviatã e o Império Galáctico

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A figura do Leviatã proposta por Hobbes é uma referência ao monstro bíblico do livro de Jó, descrito como o mais terrível dos monstros marinhos:

“Quando se levanta, tremem as ondas, as vagas do mar se afastam. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo. O ferro para ele é palha; o bronze, pau podre. A flecha não o faz fugir, as pedras da funda são palhinhas para ele. O martelo lhe parece um fiapo de palha; ri-se do assobio da azagaia. Seu ventre é coberto de cacos de vidro pontudos, é uma grade de ferro que se estende sobre a lama. Faz ferver o abismo como uma panela, faz do mar um queimador de perfumes. Deixa atrás de si um sulco brilhante, como se o abismo tivesse cabelos brancos. Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada; afronta tudo o que é elevado, é o rei dos mais orgulhosos animais”. (Jó 41.25-34)

Hobbes foi o primeiro filósofo político a justificar o poder dos reis com uma base racional. Até então, o direito dos reis tinha origem divina. As teorias presentes na obra O Leviatã eliminam a hipótese do poder divino e promovem a separação entre poder divino e secular. Para que o contato social funcione é preciso que exista um governo absoluto, daí porque Hobbes vai em defesa da monarquia.

No filme Star Wars III: A Vingança dos Sith, o chanceler Palpatine se reúne com o Senado Galáctico e, num emocionado discurso, consegue transformar a República em um Império, tornando-se seu governante supremo. Palpatine convence todo o Senado de que os Cavaleiros Jedi seriam os únicos capazes de tirá-lo do poder e que estes estariam tramando uma rebelião contra a República. Para impedir tal ato, o agora imperador ordena que todos os Jedi sejam eliminados pelos soldados-clone, recebendo aplausos dos senadores, que lhe dão poder absoluto para que Palpatine garanta a paz. (Esse contexto lhe parece familiar?)

Na sequência da série, em Star Wars IV: Uma Nova Esperança, Darth Vader passa a representar a figura do Império, enquanto Palpatine (Lord Sidious), fica em segundo plano para depois aparecer ativamente no último filme. Assim, Darth Vader representa a própria figura do Império Galáctico.

No decorrer dos filmes, Vader passar a ter um papel mais significativo, como representante do imperador e como o personagem que marca a presença e o poderio do Império. Quando o personagem surge em cena é executado o tema musical do Império (uma das grandes composições de John Williams, considerado um dos maiores compositores da história do cinema, tanto pelo volume de sua obra, como pela sua popularidade), dando mais ênfase a importância do personagem na trama.

O cenário e a justificativa para a implantação do Império em detrimento à República não poderia ser mais Hobbesiana: os indivíduos abrem mão de sua liberdade em troca de segurança e paz social. No contexto do monstro marinho Leviatã, ainda que este coma alguns peixes enquanto os protege, o sacrifício vale a pena. Seguindo o mesmo raciocínio, ainda que o Império, personificado na figura de Darth Vader, limite as liberdades individuais, a promessa de proteção vale o sacrifício. Como Hobbes declara, a liberdade é um luxo e a vida no estado de natureza (isto é, fora do contrato social) é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta, motivo pelo qual os agentes racionais entregam sua liberdade a um governante absoluto.

Assim, o Império Galáctico se justifica na teoria de Hobbes para proteger os súditos de um possível ataque, ainda que para proteção tenham que suportar um soberano tirano e implacável como Darth Vader. Porém, como visto, essa justificativa partiu de premissas que não eram verdadeiras, pois os Jedi não tinham intenção de acabar com a República, mas sim de protegê-la.

Deste modo, finalizamos nossa análise da figura de Darth Vader sob a ótica da filosofia Hobbesiana, certos de que se tratou apenas de um singelo recorte dentro do contexto desta incrível série de filmes, que tem muitas percepções e análises a serem exploradas, seja pela Filosofia, Política, Sociologia e demais ciências sociais.

E que a força esteja com vocês!

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Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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