renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Consumismo: o grande trunfo que não nos contaram sobre o Capitalismo

Será que nossos desejos nos manipulam, nos fazendo tomar determinadas decisões que não tomaríamos caso esse desejo não existisse? Será que o (aparente) inofensivo desejo de possuir algo condiciona nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e nosso circulo de relacionamentos? Vilão para muitos e salvador para outros, ao longo do tempo, o capitalismo se apresentou de diferentes formas, o que acarretou em profundas transformações no espaço geográfico das sociedades. Passando pelo capitalismo comercial, industrial e financeiro, estamos diante, desde os anos finais do século XX, do chamado "Capitalismo Cultural". Nossa intenção com este texto não é, de modo algum, esgotar a discussão sobre capitalismo, sociedade de consumo e indústria cultural, mas abri-la sob um enfoque diferente.


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A ideia parecia inicialmente boa e relativamente promissora e inofensiva. Pelo menos para os que a propuseram. O modo de produção industrial, seguida pela não intervenção econômica do Estado foram o ponta pé inicial para o cenário que teve seu auge nos últimos anos do século XX. Mas comecemos por esclarecer alguns conceitos importantes, já que nossa intenção é desmistificar que o capitalismo seria o resultado final da nossa caminhada como humanidade rumo a um sistema econômico final.

Inicialmente, veio o modo de produção. Atrativo, tentador e eficaz. Bastava ter o capital para investir. O problema é que poucos detinham esse capital, fruto de um sistema que já vinha se perpetuando desde o final do período do medievo. Não raras as exceções, algumas pessoas conseguiam mudar de status e alcançavam certa projeção num sistema quase que estamental.

Mas no cenário ainda germinativo do Capitalismo, uma grande ideia, chamada Liberalismo, foi essencial para sua bem sucedida implantação. A doutrina liberal defende a liberdade política e econômica, ou seja, é contra o controle do Estado na economia e na vida dos indivíduos. Nesse sentido, o Estado deve conceder liberdade às pessoas e agir somente quando há lesão por parte de algum dos membros da sociedade (chamado de Princípio do Dano).

As raízes do Liberalismo surgiram no século XVII, quando ainda vigorava o Absolutismo como regime político em praticamente todos os governos do continente europeu, em que o rei era considerado o legítimo representante de Deus na terra, tendo primazia para decidir sobre todas as questões que envolvessem o reino. Gradualmente, as ideias iluministas foram ganhando espaço num cenário em que a burguesia se lançava ao mundo para o comércio e fazia uso de seus próprios recursos para atingir seus objetivos, abrindo novas possibilidades de relações de comércio e fugindo também do jugo religioso, ainda presente.

A Revolução Burguesa do século XVII fez surgir uma nova realidade em que a organização da sociedade era baseada na propriedade privada. Diversos pensadores da época se esforçaram em criar teorias que justificassem o mundo que se transformava, surgindo um ponto essencial do pensamento liberal: a ideia de que as pessoas já tinham sua individualidade formada antes de perceber sua existência na sociedade. Assim, para o pensamento liberal, o homem estabelecia uma relação entre seus próprios valores e a sociedade.

A nova ordem liberal trouxe a proposta de que todos podem alcançar um alto nível de prosperidade de acordo com seu potencial, aplicando seus valores e conhecimentos, com elevado grau de liberdade, numa sociedade que reduza os níveis de conflitos sociais.

Mas como justificar isso? A justificativa encontrada pelos pensadores da época encontra guarida no fato de que os governos não são capazes de representar os interesses de toda a sociedade, defendendo, portanto, apenas os interesses de determinados grupos de pressão.

O liberalismo que descrevemos aqui, chamado clássico, prevaleceu nos países mais desenvolvidos durante todo o século XIX e início do XX. Mas devido à quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, o regime antes preferido por essas nações ficou em segundo plano, ofuscado em parte pela doutrina revolucionária socialista, para reaparecer no final do século como Neo Liberalismo.

As economias capitalistas são realmente baseadas em livre comércio?

A ideia de que todos fazemos escolhas livres o tempo todo precisa ser analisada com cautela, pois não se trata de uma verdade. Nossas escolhas não podem sem consideradas livres quando são atreladas às pressões da competição. Como seres humanos, nos sentimos exaustos, sozinhos e em busca de um significado para vida, como se não estivéssemos no controle dela. E realmente não estamos, mas o mercado está. Esse pode parecer um cenário bastante pessimista, mas é mais verdadeiro do que pensarmos que tudo está muito bem do jeito que está.

Basta lembrarmos que o capitalismo teve início quando o acesso à terra foram retirados dos camponeses britânicos e, com isso, seus meios de subsistência, tornando-os dependentes do mercado para sobreviver. Sem propriedades, foram obrigados a vender a única coisa que tinham à disposição: sua força de trabalho. E tudo isso acaba virando um círculo vicioso, pois até os donos dos meios de produção não são livres, vez que o mercado impõe o imperativo de acumular capital ou “quebrar”.

E onde o consumismo entra nisso tudo?

Você compraria algo (que não precisa) apenas pela simples vontade ou desejo de possuir este objeto? Até que ponto seus desejos manipulam suas ações? Como a sociedade tem se transformado, cada vez mais, em uma sociedade de consumo?

Não consigo imaginar um lugar mais propício para o afloramento dos desejos de consumismo que um Shopping Center. As lojas com suas vitrines iluminadas, anúncios de promoções e descontos e suas fachadas chamativas são uma verdadeira tentação para pessoas que gostam de comprar pela simples vontade de matar um desejo consumista. É o comprar pela vontade de comprar, sem nenhuma necessidade objetiva do objeto desejado.

Mas talvez belas lojas e vitrines enfeitadas não chamem sua atenção. Mas o ponto aqui não são as lojas, nem o consumo em si, mas a questão do desejo. Quem sabe, diferente de muitas pessoas, seu ponto fraco não seja o consumismo. Quem sabe você é daqueles que não abre mão de sair todas as noites para se divertir, ou não resiste a um belo e apetitoso jantar.

Será que nossos desejos nos manipulam, nos fazendo tomar determinadas decisões que não tomaríamos caso esse desejo não existisse? Será que o (aparente) inofensivo desejo de possuir algo condiciona nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e nosso circulo de relacionamentos?

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Para o filósofo Arthur Schopenhauer é exatamente isso que acontece. Para ele, somos marionetes de nossos próprios desejos. E, para nossa infelicidade, não há muita coisa que possamos fazer para mudar isso.

Schopenhauer nasceu em 1788, em Danzig, na Prússia, e sua filosofia é comumente associada à própria imagem de seu criador: uma pessoa com personalidade forte e palavras amargas sobre a vida e a condição humana. Se desagradável como pessoa, Schopenhauer tem um escrita fascinante.

Escreveu sua principal obra aos 30 anos, intitulada O Mundo como Vontade e Representação, mas sem lograr êxito no início (livro que, após sua morte, passou a ser considerado uma das obras chave da filosofia ocidental). Durante anos, Schopenhauer não parou de atualizar sua obra, que ganhou uma nova versão com um segundo volume de notas e aditamentos em 1844.

No livro, Schopenhauer declara que a realidade tem dois aspectos, vontade e representação, sendo a primeira a força cega encontrada em todas as coisas e a representação, a construção da realidade em nossa mente, ou seja, a maneira que encontramos para dar um sentido a todas as coisas que nos cercam. O conceito de representação se encontra na filosofia de Kant com outro nome, o “mundo fenomênico”.

A vontade é cega, pois não a controlamos. É uma força única por trás de tudo. Em nada tem a ver com a ideia de Deus ou de um ser superior. Para Schopenhauer, não há alguém que a direcione. Já a representação é o mundo em que vivemos, como vivenciamos e sentimos nossas experiências.

Mas ainda que tenhamos, segundo o filósofo, esta propensão ao consumismo, ele é potencializado pela mídia, presente num sistema dominado pelas preocupações de ordem material, em que os apelos do capitalismo saltam aos olhos. Não à toa, nossa sociedade é conhecida como a sociedade de consumo, em que o período pós-Revolução Industrial proporcionou um grande aumento da escala de produção e circulação de mercadorias, modificando o mundo significativamente.

Vilão para muitos e salvador para outros, ao longo do tempo, o capitalismo se apresentou de diferentes formas, o que acarretou em profundas transformações no espaço geográfico das sociedades. Passando pelo capitalismo comercial, industrial e financeiro, estamos diante, desde os anos finais do século XX, do chamado Capitalismo Cultural.

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Assim, pelo exposto, é preciso que se tenha a noção de que por mais que tenhamos naturalmente uma propensão a consumir para saciar determinada vontade (em algumas pessoas esse desejo é menor ou maior), devemos estar atentos aos apelos da mídia e do capitalismo cultural. Nossa intenção com este texto não foi, de modo algum, esgotar a discussão, mas abri-la sob um enfoque diferente.

Com a quarta fase do capitalismo, o cultural, estamos diante da imposição da ideologia de consumo, em que as grandes empresas não apenas divulgam um produto, mas o conceito de sua marca. Nesse sentido, você só é um esportista de verdade se faz uso de determinada marca de tênis ou só é uma pessoa aceita num determinado grupo de pessoas se usa determinada marca de telefone celular, como no caso do aparelho celular iPhone, da empresa Apple, febre entre os jovens de classe média, mas presente também no meio social de jovens de baixa renda, que desejam sustentar uma aparente condição financeira.

Vencida a fase da especulação do capital, o alvo das empresas (principalmente com o avanço da internet, pós anos 2000) tem sido o desejo de consumo dos indivíduos, que é constantemente alimentado por uma indústria cada vez mais aquecida, em que novos produtos são despejados no mercado todos os dias.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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