renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Stranger Things e a Filosofia: Vivemos no mundo invertido?

O mundo invertido seria uma espécie de realidade oposta a que vivemos, um lugar habitado por um monstro sem olhos (chamado de Demogorgon), mas que é atraído por sangue e se alimenta de suas vítimas. Nessa singela análise filosófica de "Stranger Things", websérie de suspense criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer e grande sensação das redes sociais das últimas semanas, os pensamentos dos filósofos Platão e Thomas Hobbes são postos em diálogo para compreendermos, pelo menos em parte, a dimensão do mundo invertido numa perspectiva da práxis filosófica.


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A série de suspense criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer tem sido motivo de bons comentários nas redes sociais nas últimas semanas. Distribuída pela provedora global de filmes e séries de televisão via streaming Netflix, fundada em 1997 nos Estados Unidos e atualmente com mais de 80 milhões de assinantes, Stranger Things conta com um roteiro que mistura suspense, ficção científica e um pouco de terror. Os irmãos Duffer fizeram um excelente trabalho na série, que tem sido citada como uma verdadeira homenagem aos anos 80.

Como não poderia deixar de ser, a trama se passa nos anos 80, mais especificamente em 1983, na pacata cidade fictícia de Hawkins, Indiana, e já no primeiro capítulo Will Byers (interpretado por Noah Schnapp), um garoto de 12 anos, desparece misteriosamente sem deixar rastro algum. Tratado incialmente com um simples caso de uma criança que não voltou para casa, a família, os amigos (clara referência aos filmes Goonies e Conta Comigo) e os moradores locais são atraídos para um mistério envolvendo experimentos secretos do governo americano, forças sobrenaturais e uma personagem que faz toda a diferença na série, a jovem Onze (Millie Bobby Brown), uma menina com poderes telecinéticos e fugitiva da base secreta do governo no qual eram realizados experimentos para serem usados como arma secreta de espionagem.

Stranger Things faz diversas referências aos elementos culturais da década de 1980, trazendo desde uma trilha sonora que nos remete ao período, marcada por sintetizadores, batidas eletrônicas, layouts e elementos visuais a incontáveis homenagens a obras de diretores de suspense e ficção científica, como John Carpenter, Stephen King e Steven Spielberg, grandes inspirações dos criadores para a realização da série. O nível de referências (ou homenagens) é tanto que é como se tivessem pegado os melhores roteiristas dos anos 80, colocado numa sala e dito "escrevam algo juntos!”

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Enquanto os amigos partem numa busca por Will, são surpreendidos por Onze, que revela a existência de um outro mundo, o mundo invertido, trama central da série, que originalmente se chamaria Montauk e seria filmada na cidade de mesmo nome localizada no estado de Nova Iorque, mas as filmagens acabaram sendo realizadas em Jackson, Georgia.

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O mundo invertido seria uma espécie de realidade oposta a que vivemos, um lugar habitado por um monstro sem olhos (chamado de Demogorgon, uma explícita referência ao universo Dungeons & Dragons, RPG de fantasia medieval desenvolvido originalmente por Gary Gygax e Dave Arneson e publicado pela primeira vez em 1974, nos Estados Unidos, pela TSR), mas que é atraído por sangue e se alimenta de suas vítimas. Embora ele mate (como aconteceu com a personagem Bárbara Holland, interpretada por Shannon Purser), o mostro poupa a vida de Will, que aparece numa espécie de casulo, ou sugando sua energia vital ou para se alimentar posteriormente – algo conveniente na série, pois somente assim o personagem poderia ser encontrado com vida por sua mãe Joyce (Winona Ryder) e pelo delegado Hopper (David Harbour).

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Outra obra, escrita no século IV a.C., pelo filósofo grego Platão (cujo nome verdadeiro era Arístocles), tem relação com o mundo invertido do universo de Stranger Things. O Mito da Caverna, de Platão, é uma das passagens mais famosas da história da Filosofia. Faz parte do Livro VI de A República. Nesta obra, o filósofo discute temas como teoria do conhecimento, linguagem e educação na constituição do Estado ideal.

Com uma narrativa alegórica e, ao mesmo tempo, dramática, Platão conta-nos a história de prisioneiros que, desde o nascimento, encontram-se acorrentados no interior de uma caverna. A caverna possuía uma pequena entrada, por onde passava pouca luz, vinda de uma fogueira. Esses prisioneiros olhavam somente para uma parede iluminada por essa fogueira. Do outro lado da caverna se encontravam pessoas que manipulavam estatuetas de homens, plantas e animais.

Como os prisioneiros não tinham a mesma percepção de quem estava do outro lado da caverna, imaginavam que as sombras projetadas na parede eram, de fato, as coisas em si. Assim, as sombras dos animais, para os prisioneiros, eram os animais. Com o tempo, os prisioneiros passaram a dar nomes a essa projeções pensando se tratar da realidade.

O texto do Mito da Caverna é um diálogo entre Sócrates e Glauco:

“Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo”.

No decorrer da narrativa, um dos prisioneiros consegue se libertar das correntes e contempla o mundo exterior, mas ao voltar ao interior da caverna e relatar suas experiências e seu novo modo de perceber as coisas é contrariado por seus companheiros, que, provavelmente, o mataram por ir de encontro às ideias já estabelecidas pelos habitantes da caverna.

Como conclusão, o personagem Sócrates diz:

“E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la”.

O mundo invertido de Stranger Things pode representar uma realidade que não queremos aceitar, ou mesmo um estágio já superado de nossa “evolução” como seres sociais. Thomas Hobbes (1588-1679), considerado um dos maiores pensadores políticos da Inglaterra, conhecido por ser um sujeito alto, de rosto corado e de barba rala, foi uma criança muito doente. Quando adulto, entretanto, foi um esportista, jogando tênis até ficar velho. Tinha uma alimentação à base de peixe e vinho e costumava andar com sua bengala especial, feita com um tinteiro na ponta, para anotar alguma ideia enquanto fazia suas caminhadas matinais. Hobbes viveu até os 91 anos de idade, um grande feito para o século XVII, já que a expectativa de vida era de 35 anos.

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Dono de uma mente genial, Hobbes possuía uma visão negativa dos seres humanos, acreditando que todos são egoístas e movidos pelo medo da morte, pela insegurança e pela busca de interesses próprios. É dele a ideia de que vivemos num constante estado de guerra, numa guerra de todos contra todos. Num mundo onde todos são egoístas, somente o Estado de Direito, através da ameaça de punição (do direito de punir do Estado), seria capaz de manter o controle social.

A frase “o homem é o lobo do homem”, que se tornou famosa pelo filósofo inglês, foi usada para explicar que o maior inimigo do homem é o próprio homem. Explico. Hobbes usou essa metáfora do homem como animal selvagem para indicar que o homem é capaz de praticar atos de barbárie contra os membros de sua própria espécie quando se encontra num estado de medo e insegurança.

A frase é, originalmente, de autoria de Tito Mácio Plauto, dramaturgo romano que viveu durante o período republicado. A frase ganhou notoriedade por estar presente na obra O Leviatã, escrita por Hobbes, publicada em 1651.

Na obra, considerada uma das mais importes de Hobbes, o filósofo diz que a paz social só pode ser alcançada mediante o Contrato Social, espécie de acordo tácito feito entre a coletividade e o soberano. Através do contrato é estabelecido um poder centralizado com autoridade absoluta para proteger a sociedade da ação dos próprios homens.

Segundo Hobbes, na obra O Leviatã, desta guerra de todos os homens contra todos os homens nada pode ser injusto. Assim, onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei, não há injustiça. O contrato, porém, não é imutável ou eterno. Para o filósofo, a obrigação dos súditos para com o soberano tem razão de existir somente enquanto este é capaz de protegê-los.

Thomas Hobbes via o estado de natureza como algo ficcional, uma etapa hipotética da condição humana fora do convício da coletividade. No estado de natureza de Hobbes, a condição do homem é a condição de guerra, pois sem governo os homens aterrorizam uns aos outros (e sem limites) na sua busca por autopreservação. Para evitar que se chegue a este estado de natureza, os seres humanos devem aderir ao contrato social e se submeterem a autoridade de um soberano. Porém para que o contrato dê certo, é preciso que o governante tenha poderes absolutos e indivisíveis. Contudo, se o soberano falhar em garantir a proteção aos súditos, o contrato social é rompido e os indivíduos podem agir, levando-os de volta ao estado de natureza.

Assim, para Platão, ainda vivemos no mundo invertido quando deixamos ser levados pela aparência das coisas, sem conhecermos (ou se arriscar para conhecer) seu real significado. Platão fala de despirmos de conhecimentos estabelecidos previamente que nos impede de contemplar o mundo real. Ele representa uma ruptura com o pensamento baseado na divindade ou nos mitos, uma explicação supra-humana para os acontecimentos do cotidiano. Nesse sentido, quando atribuímos o motivo de todas as coisas à divindade ou não procuramos saber o real motivo delas, ainda estamos na caverna.

Já para Hobbes, o mundo invertido representa nosso passado como seres sociais, uma etapa que vencemos ou pelo menos que concordamos aceitar para que pudéssemos sair do estado de natureza, uma situação em que não há injustiça, haja vista que não há nem mesmo uma lei a ser seguida. A única lei que se segue é a lei da guerra de todos contra todos, motivada pela insegurança, pelo medo e pela vontade egoísta.

Assim, concluímos nossa singela análise filosófica desta incrível série com base nos pensamentos platônico e hobbesiano, certos de que se tratou de apenas um pequeno recorte da trama que, certamente, ainda nos trará mais surpresas, aventura e suspense!

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Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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