renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito e Ética. Mestre em Direito Constitucional (FDSM). Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Educação Ambiental. Graduado em Direito (PUC Minas) e Ciências Sociais (Universidade de Franca). Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

A montagem do espetáculo: a (re)construção da opinião pública pelo telejornalismo sensacionalista

Um dos problemas do cenário do telejornalismo é que os telespectadores não são mais assim tratados, mas sim vistos como consumidores. Consumidores de um produto chamado notícia. Mas o que seria uma notícia? Uma pergunta aparentemente banal, quando se acredita que todas as notícias veiculadas pelos telejornais são a mais pura descrição da realidade, cabendo ao jornalismo apenas a sua inserção nos meios de comunicação, para que possa ser disseminada como informação para o público.


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Vez que toda notícia implica numa verdadeira luta contra o tempo para não se tornar obsoleta e perder seu valor mercadológico, o telejornal é um espetáculo constituído por informações cada vez mais perecíveis. O espetáculo telejornalismo obedece a uma lógica de espetáculo sem continuidade e que não faz história, em que o início e o fim da tarefa se encontram absurdamente próximos um do outro e o passado é atualizado no presente, seja através das imagens ou da linguagem com verbos postos no tempo presente. O telejornal está referenciado à lógica da comunicação midiática, por isso, encontra-se submetido a leis próprias e específicas.

Mas o que seria o espetáculo a que estamos nos referindo? Segundo Guy Debord (1997, p. 10), é “a negação da vida que é tornada visível; como perda da qualidade ligada à forma-mercadoria e à proletarização do mundo”. Nesse sentido, o espetáculo do telejornal, apresentando uma inversão da vida, exibe imagens destacadas que se mesclam num mundo à parte, afirmando a aparência como essencial e predominante, como se imagens que são mostradas tivessem por si só credibilidade suficientes e simplesmente por estarem na mídia.

Para Debord, o espetáculo aliena o espectador, vez que reconhece a si mesmo e o seu desejo pela contemplação das imagens e pela identificação passiva do que lhe é apresentado como sendo a sociedade e a economia vigente. Assim, seja na vida social, no divertimento e na publicidade, Debord indaga o motivo da sociedade buscar e conseguir satisfação basicamente via espetáculos de comunicação de massa.

Ainda para Debord (1997, p. 16), quanto mais o indivíduo contempla, “menos ele vive; quanto mais ele aceita se reconhecer nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende sua própria existência e seu próprio desejo”. Ocorre aqui uma identificação passiva com um mundo espetacular, em que estão inseridas imagens tanto de entretenimento como de medo e violência, não se podendo discernir de modo preciso onde um e outro começam e acabam.

Um dos elementos fundamentais a ser comunicado pelo espetáculo é o medo, que funciona como possibilidade de ordem social, sendo também o principal mecanismo de controle da sociedade do espetáculo (HARDT, 2001, p. 344), que se serve de ameaças ou procura, por vezes, consolidar um clima de ameaça, até então apenas subentendida, velada ou mesmo explicitada, para assim conseguir manipular a opinião pública ou até mesmo política.

Diferentemente do que algumas pessoas podem imaginar, não há, entretanto, por trás do espetáculo uma mão todo-poderosa com atributos de divindade que controla ou manda em tudo. Justamente por se tratar de um poder em rede, diluído num conjunto de contratos, de acordos que precisam ser ora mantidos e ora destituídos, mas que são agenciados por interesses econômicos, financeiros e políticos, não há um grande e solitário comandante para tudo isso, a não ser algo muito maior e global: o mercado mundial. Assim, o que sustenta, defende e gerencia os interesses é o lucro, nem que para isso o preço e a cotação estabelecidos pelo mercado seja a vida de milhares ou mesmo milhões de indivíduos. Prova disso são as guerras, e a dobradinha violência-medo se faz rapidamente como forma de manter controles legais ou não. Também dão destaque à mercadoria o valor, o lucro e o consumo e, no espetáculo, todas essas categorias podem ficar englobadas pela do entretenimento.

Como salienta Szpacenkopf (2003, p. 167), “a mercadoria ganhou importância no mundo pela ideia de que contém o que todos devem ter, o que faz crescer o medo de ser privado dela. A política do consumo dá a ilusão de uma sobrevivência aumentada e também da valorização da própria vida”. Nesse sentido, o espetáculo serve para consumir ilusões. Quanto mais o indivíduo consome, mais se sente num maior patamar de status social, ou seja, há a valorização do abundante e do quantitativo, verdadeiro sinal de potência econômica sob a forma de mercadoria. Esse oferecimento excessivo de escolhas, quase inesgotável aos olhos passivos do indivíduo, unifica a sociedade e dá a cada mercadoria e a cada consumidor o valor de singularidade, que acaba por se perder ao ser consumida.

Para o historiador americano Christopher Lasch, o próprio consumidor, mantido insatisfeito, é o produto. A aquisição dos bens anunciados garante a satisfação do consumidor, promovendo o “consumo como modo de vida”. Funciona como resposta à solidão, aos descontentamentos e à fadiga, ao passo em que outros descontentamentos serão amenizados pelo próprio consumo, vez que o vazio será preenchido com ofertas sedutoras que visam à satisfação de um prazer possível, pela rapidez e facilidade com que as insatisfações e o sofrimento podem ser sanados.

Para Debord, o consumo muda a noção de tempo, vez que, transformado pela indústria, passa a ser mais uma mercadoria espetacular, consumindo imagens ou funcionando como imagem do consumo. Nesse sentido, o tempo espetacular se difere do tempo cíclico e irreversível na medida em que é vivido de modo ilusório por meio de momentos de uma realidade apresentada e assistida à distância, não apenas porque não foi realmente vivida pelos espectadores/consumidores, mas também pela consequência da inflação das informações a que estes estão sendo submetidos.

Quando há a dominação do espetáculo, o conhecimento histórico de modo geral desaparece, dando lugar à eternização do que não é importante, do imediatismo, da ausência de mediação. Szpacenkopf denomina de não-importante, em que “cada informação será substituída logo em seguida por outra que a suplante, que por sua vez será suplantada pela próxima, e assim por diante. A memória não é solicitada, passando a existir o que está sendo espetacularizado” (2003, p. 169).

A respeito da montagem de um espetáculo, ao analisar o teatro e sua montagem, Gianfranco Bettetini (1986, p. 184) considera o teatro como “o lugar originário de cada forma comunicativa, de cada linguagem: é aqui onde, qualquer que seja a tipologia da manifestação cênica, se constitui um sistema de convenções que o consumidor reconhece e aceita”. Essa noção de montagem se encontra implícita também nos telejornais, vez que podem ser encontrados a efemeridade, a festividade e o consumo individual e solitário nos espetáculos midiáticos. Como se houvesse sido transferida à televisão a dimensão festiva do teatro, fazendo de sua rotina e sua prática de informação um verdadeiro espetáculo, em que imagens são consumidas e a “realidade é transformada em espetáculo realista”. Sob este enfoque, o espetáculo do cotidiano “não fala, não dialoga, mas oferece dados e notícias em um marco luminoso”.

Na tentativa de conservar o espetáculo televisivo, para compensar a efemeridade do que é transmitido, passou a existir a preocupação de se ter o registro, uma espécie de memória estendida, através de fitas, CDs, DVDs e, atualmente, sites de compartilhamento de vídeos, garantindo, assim, a guarda do que escapa e do que não pode ser repetido.

Brasil-Urgente-novo-cenário-2017-2.jpg Brasil Urgente é um programa de televisão jornalístico brasileiro apresentado pela Rede Bandeirantes. Apresentado por José Luiz Datena, o programa exibe o seu noticiário com casos policiais. Trata-se de um telejornal com uma linha popular, tendo bastante entradas ao vivo de repórteres de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Curitiba etc. e entrevistas; também é muito utilizado o helicóptero para a cobertura de tragédias, e são exibidas matérias gravadas sobre crimes hediondos e bizarros

O telejornal é caracterizado pela apresentação de imagens que acabam se transformando, ao olhar passivo do telespectador, em mais reais que a própria realidade da qual se originaram, prevalecendo o que é tornado visível e muitas vezes negando o que realmente aconteceu. O espetáculo do telejornal apresenta diversas e variadas informações, dando destaque à programação televisiva, vez que acrescenta credibilidade a uma determinada emissora. Diferente da imprensa escrita, o telejornal obedece algumas especificidades, como a propagação da imagem, pela própria ilusão de completude que representa à notícia dada, e a narração, que auxilia naquilo que está sendo veiculado através da imagem. Tudo isso é veiculado de forma a manter a atenção dos telespectadores.

Para Patrick Charaudeau (1997, p. 123), as imagens podem apresentar três tipos de efeitos: de realidade, de ficção e de verdade. Como o primeiro efeito se trata do desenrolar de uma realidade, aqui será dada ênfase para transmissões ao vivo. No efeito da ficção, a realidade ganha outro enfoque e extensão por meio de montagens e da espetacularização da notícia, em especial as notícias de violência, que acabam tendo um tratamento que as aproxima muito do efeito ficcional. E, por último, o efeito da verdade é obtido por meio de estratégias, como tomadas de cenas, em que os detalhes de ângulos de câmera são postos em destaque e valorizados.

O telejornal enfatiza a notícia que explora o que é considerado infrator, anormal ou mesmo aquilo que pode ser destacado como descontentamento da sociedade ou que diga respeito à quebra de ordem. Por diversos motivos, as infrações das quais o Estado não se ocupa são constantemente apresentadas nos noticiários que, não raramente, sugerem medidas para coibi-las, ainda que estas medidas não sejam as mais adequadas.

As estratégicas utilizadas na construção da notícia são de difícil detecção, mas é certo que “toda enunciação, seja sob a forma de comentário ou não, provoca uma projeção mais ou menos importante do imaginário social sobre o fato relatado, tal que este imaginário social é moldado pelas relações de força existentes numa sociedade dada” (LEBLANC, 1987, p. 18).

Assim, o telejornal acaba por apresentar a atualidade de forma cortada, fragmentada em partes independentes, de forma superficial e que não mantem relação entre si. Mesmo assim, a classificação de matérias diversas parece ser uma escolha melhor que a restrição da quantidade de notícias. Mesmo correndo o risco de ser superficial, uma grande quantidade de informação em menor tempo possível parece ser uma escolha melhor que não ter notícia alguma, é dizer, é melhor que a desinformação. Dessa maneira, é oferecida ao espectador maiores opções e possibilidades, para que este faça uso delas de acordo com seus próprios critérios.

Aliado a isso, as transmissões ao vivo, realizadas pelas equipes móveis compostas de jornalistas e cinegrafistas potencializam o valor da notícia, dando mais veracidade ao que está sendo transmitido e economizando tempo e recurso com uma possível pós-produção e montagem. As gravações feitas pelos chamados “cinegrafistas amadores”, através de seus equipamentos portáteis, contribuem na construção da veracidade dos fatos, acrescentando novidade na rotina das fontes de informações.

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Como aponta Szpacenkopf (2003, p. 173): "Nos noticiários, o atual é diferente e ao mesmo tempo semelhante ao de outras épocas. As guerras são iguais, apesar de especificidades ligadas aos avanços tecnológicos. Os movimentos da natureza, os conflitos sociais, as negociações políticas, os atos de terrorismos e os de violência repetem-se, dando a ideia de eterno, favorecendo o esquecimento e justificando o sentido de fatalidade, de impotência e de distanciamento. O agendamento de notícias políticas e de economia efetuado pelos poderes envolvidos constrói a atualidade, e nele os jornalistas se inspiram para programar os acontecimentos. As mídias impõem um cardápio de acontecimentos diários".

Nota-se, então, que a análise do telejornal pode se dar em função de diferentes enfoques e objetivos, e um deles é o de ser encarado como um produto de mercado que está submetido às leis do próprio mercado. Caso a montagem do telejornal esteja inclinada à atender as exigências e comandos de instituições privadas ou estatais, seu propósito poderá ser o de captar o espectador numa tentativa de mantê-lo sob controle por um conjunto de ideias.

Enfoque diverso é a ênfase no fazer-saber, exercido, principalmente, pelos jornalistas, em que se incluem a objetividade, imparcialidade e neutralidade como condições primordiais para a sustentação da auto imagem de independência e de autênticos “cães de guarda de democracia” (LANGER, 1998, p. 16) destes profissionais. Vez que o telejornal passa a ser “um espelho sustentado para a realidade” (LANGER, 1998, p. 16), as notícias por ele apresentadas são tidas como acontecimentos transmitidos exatamente como aconteceram. Assim, as operações de edição e de produção deixam de ter importância e o telejornal não precisa de explicações, ele simplesmente acontece.

Como os acontecimentos, entretanto, são dispostos sob a forma de mensagens, não existe uma inclinação a uma reflexão das notícias, devendo tais mensagens ser entendidas segundo uma prática significativa, que estrutura e modela os acontecimentos “não meramente com um significado já existente, mas por um trabalho mais ativo de fazer as coisas significar” (LANGER, 1998, p. 16). Assim, mesmo com as promessas de neutralidade, não poucas vezes os jornalistas são criticados por trabalhar numa esfera ideológica.

Nesse sentido, tem-se que o espetáculo jornalístico é constituído de uma realidade apresentada e anunciada, em que os aspectos de verdade e ficção se encontram tão entrelaçados e mesclados que não é possível ao espectador fazer uma leitura crítica do que está sendo a ele apresentado, vez que o telejornal descortina um mundo atual com episódios que travam uma verdadeira luta contra o tempo para marcar presença. A memória, contudo, não é capaz de dar conta das mesmas novas informações perecíveis após cada nova apresentação.

Estado-Midia-e-Policia-a-triplice-alianca-promotora-e-mantenedora-da-violencia.jpg A violência na televisão se apresenta pelo viés do entretenimento. Os seus apresentadores e protagonistas são sempre bem animados em mostrar "a realidade como ela é"


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito e Ética. Mestre em Direito Constitucional (FDSM). Especialista em Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Educação Ambiental. Graduado em Direito (PUC Minas) e Ciências Sociais (Universidade de Franca). Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: prof.renato[email protected]
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