renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Filosofia, Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

O animal político: nascemos para viver em sociedade?

Aristóteles já esboçara no século IV a.C. o que, apenas no século XVII, Thomas Hobbes e, posteriormente Rousseau e John Locke, iriam chamar, cada um com vertentes próprias, de Contrato Social, afirmando que os indivíduos passam do estado de natureza à aglomeração com vistas a atender suas necessidades mais básicas, quais sejam, sobrevivência e estabilidade social. Diferente dos demais animais, o homem é dotado de razão e discurso, e através deles foi possível aos indivíduos desenvolver as noções de justo e injusto, de bem e mal. Essas noções não se desenvolveriam não fosse a alteridade conseguida somente dentro de uma comunidade política.


macaco armado.jpg

Já no século IV antes da era cristã, o filósofo grego Aristóteles construía sua teoria política gravitando a ideia de que o homem é, por natureza, um animal político, sendo a sua aglomeração em cidades uma etapa de sua própria evolução. A vida social seria necessária para que os indivíduos atingissem a felicidade e a pólis (termo usado como sinônimo de cidade-Estado) representaria o único meio para tal.

Diferente dos demais seres vivos, o homem é dotado de razão e discurso, e através deles foi possível aos indivíduos desenvolver as noções de justo e injusto, de bem e mal. Essas noções não se desenvolveriam não fosse a alteridade conseguida somente dentro de uma comunidade política. Ou seja, a convivência com o outro, ainda que não necessária em um primeiro momento ou sob um olhar superficial foi de crucial importância. Para Aristóteles, entretanto, ainda que o atributo do homem como animal fosse peculiar aos habitantes da pólis (aos cidadãos) somente os que, de fato, exerciam a administração da cidade poderiam ser considerados animais políticos.

A formação da cidade se deu quando as diversas aldeias, que, por sua vez, eram formadas em razão da união de muitas famílias, notaram que a cooperação (mais que a simples aglomeração de pessoas) seria a única forma de atender as necessidades de segurança, paz e subsistência dos indivíduos. Aristóteles já esboçou o que, apenas no século XVII, Thomas Hobbes e, posteriormente Rousseau e John Locke, iriam chamar, cada um com vertentes próprias, de Contrato Social, afirmando que os indivíduos passam do estado de natureza à aglomeração com vistas a atender suas necessidades mais básicas, quais sejam, sobrevivência e estabilidade social (temos a percepção de que estamos cometendo o "pecado" do anacronismo ao comparecer as ideias de Aristóteles com as dos contratualistas, mas isso é necessário para que percebamos o quanto inovador era o pensamento do filósofo grego).

A cidade de Aristóteles, diferente do conceito até então conhecido, é autossuficiente e tem como o fim o bem-estar dos indivíduos. O filósofo constrói sua filosofia em torno da eudaimonia, o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio, e, em geral, é traduzido como felicidade ou bem-estar. Em Aristóteles, o termo equivale ao supremo bem humano, sendo o objetivo da ética e da filosofia política a definição de que bem é esse e como ele pode vir a ser alcançado. A relação entre virtude de caráter e felicidade constitui uma das principais questões da ética, haja vista que a eudaimonia não significa a busca da felicidade sob um viés hedonista ou utilitarista (mesmo o conceito cunhado por Stuart Mill que inclui a noção de maximização da felicidade), sendo justamente o oposto disto.

6292.jpg

Em Aristóteles, a cidade é natural porque é para ela que todas as demais associações convergem. Assim, as partes separadas não são capazes, por si só, de satisfazer as necessidades dos indivíduos. Como declara o filósofo, “o Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos, não são senão as partes integrantes da cidade, sendo todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem servir a nada na realidade, como a mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da cidade: nenhum deles pode bastar-se a si mesmo. Assim, a inclinação natural leva os homens a este gênero de sociedade.”

Vemos que, para Aristóteles, a união e cooperação dos indivíduos em sociedade seria uma etapa natural da evolução social do ser humano. Ele compara a polis a um corpo que existe antes das partes. Assim como não é possível que exista uma mão ou qualquer outra parte do corpo humano isoladamente na natureza ou que tenha um sentido em si mesma, a reunião dos indivíduos, primeiramente, em pequenos em grupos e, posteriormente, em sociedade, é essencial para que todas as funções sejam passíveis de serem executadas.

Ainda para o filósofo, o discurso e a ação são atividades essencialmente políticas. Desenvolvidas nas comunidades humanas, só podem se desenvolver no ambiente da cidade entre homens livres e iguais, fazendo com que o homem seja um animal político. Assim, a eudaimonia, como sinônimo aqui de vida bem sucedida, só pode ser alcançada pelo cidadão através da ação e do discurso. Isso ocorre porque é na cidade que o homem, no convício entre seus semelhantes, encontra um terreno fértil para explorar e potencializar suas capacidades, exercendo-as com excelência.

A eudaimonia é importante para que se entenda o sentido, ou seja, o propósito de uma comunidade política. Mesmo sendo muitas vezes traduzida apenas como felicidade, vai além disso, por tratar-se de uma atividade da alma em consonância com a excelência. Trata-se de uma realização humana que requer as faculdades próprias do ser humano, feitas com a presteza e o cuidado da virtude, que, para Aristóteles, é de ordem moral e intelectual. Aristóteles declara que a virtude é algo inerente ao indivíduo, devendo cada cidadão exercer a atividade que, além de demonstrar, potencialize suas virtudes. Assim, aquele que possui coragem deve fazer parte do exército, aquele que possui sabedoria deve exercer o comando político da cidade e assim por diante.


Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Filosofia, Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Renato Collyer