renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Filosofia, Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]

Dark, o tempo e a Filosofia: Tudo já está predeterminado?

Se tudo o que você faz já está predeterminado por algo ou alguém, o que te torna, verdadeiramente, livre? Se suas ações são efeitos de uma causa a priori que você não tem controle, o que significa liberdade? Se você ficou curioso e quer demonstrar seu livre-arbítrio, leia este texto e descubra porque uma visão mais demorada na série Dark tem muito a nos ensinar sobre Filosofia. Leia apenas se já assistiu a série e ficou com a remota sensação de que tudo não poderia ser de outro jeito. Se a causa é a sua curiosidade, o efeito é o conhecimento.


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Criada por Baran bo Odar e Jantje Friese, não demorou muito para a série Dark, a primeira série original alemã distribuída pelo serviço de streaming Netflix, atingir expressivo sucesso, principalmente entre os admiradores de ficção científica. Lançada mundialmente no dia 1º de dezembro de 2017 (e renovada no mesmo mês para uma segunda temporada), Dark apresenta para o grande público a sutileza das produções europeias, seja pelo ritmo lento ou pela diferente construção dos diálogos se comparada às produções americanas. Outro interessante diferencial da série talvez sejam o clima claustrofóbico, a belíssima fotografia, uso de ângulos de câmeras pouco convencionais e paleta de cores frias que nos transportam para a realidade dos personagens.

Já no início da trama, com uma citação de Albert Einstein (famoso pela sua Teoria da Relatividade e a noção de espaço-tempo), o roteiro nos apresenta ao tema chave da série, a viagem no tempo: “A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão”. O desaparecimento de duas crianças na pequena cidade de Winden trás a tona as vidas duplas, relações fraturadas e o passado de quatro famílias, onde tudo está conectado e que as ações do futuro tem íntima ligação com o passado.

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Na trama, subvertendo a noção de realidade paralela (muito comuns em filmes como De volta para o futuro e Exterminador do Futuro, em que o personagem volta ao passado e, assim, altera o seu futuro), o tempo nos é apresentado como algo contínuo e, até então, imutável. Um grande entrave para hipóteses de viagem no tempo é o chamado Paradoxo do Avô. Imagine a situação em que você viajasse no tempo e matasse seu avô. Com isso, sua mãe nunca nasceria, e nem você. Mas, se você nunca nascesse, seu avô não poderia ser assassinado por você e teria continuado vivo, podendo conhecer sua avó e, em certo momento, você nasceria, podendo regressar ao passado e matá-lo, e assim por diante. Tal argumento segue dando voltas num círculo que contradiz a si próprio. Parece impossível matar sem avô porque você existe para tentá-lo. Apresentado em muitas variantes, esse é o paradoxo clássico das viagens no tempo. Assassinatos à parte, uma versão mais leve do paradoxo seria a de construir uma máquina do tempo e voltar ao passado para destruí-la antes do momento de usá-la, de forma a impossibilitar a viagem de volta no tempo com o propósito de destruí-la.

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Um dos caminhos para se evitar os paradoxos das viagens ao passado reside em dizer que o viajante não teria poder para influenciar os eventos, sendo somente um observador. Assim, poderíamos regressar ao passado e assistir a ele se desenrolando com um filme, sem sermos notados, invisíveis a todos ao redor, como se nunca tivéssemos lá. Porém uma forma passiva de viagem no tempo, mesmo evitando paradoxos, é ainda menos provável. Uma solução para o paradoxo do avô é a existência do Multiverso Quântico, que substituiu a ideia de múltiplos mundos que se ramificam. Segundo essa ideia, o Universo não se divide em múltiplas cópias de si mesmo o tempo todo. Ao invés disso, já existe uma quantidade infinita de universos paralelos que coexistem e se sobrepõem, cada um deles igualmente real.

Na prática, é claro, ninguém sabe como o tempo flui. Os cientistas podem, pelo menos, estabelecer sua direção através da concepção de uma flecha do tempo, uma ideia abstrata que significa ser possível definir um ordenamento dos eventos. Uma flecha do tempo aponta do passado para o futuro, de acontecimentos mais antigos para outros mais recentes. Essa é a direção no tempo em que as situações de sucedem. Imagine a flecha como o botão play de um aparelho de Dvd, mesmo que seja possível acelerá-lo conforme sua vontade, seja para trás ou para frente, o filme só funciona em uma direção específica, nunca ao contrário. Não haveria o presente de fato, pois cada ponto do filme é tão real quanto qualquer outro, todos coexistem.

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Dark sobressai quando, além de apresentar a noção de tempo como algo cíclico, nos "rouba" a ideia de livre-arbítrio, pois tudo já estaria previamente determinado, sendo nossas ações apenas um percurso necessário já trilhado. Em contrapartida, a noção de multiversos parece ser menos cruel, nos apresentando possíveis futuros à disposição onde podemos reivindicar nosso livre-arbítrio. Nossas escolhas podem nos conduzir por caminhos através de todas as possibilidades de espaço-tempo, e é exatamente essa escolha de caminhos que, ao fim de tudo, define nosso universo. As infinitas opções de possíveis futuros abertas diante de nós representam a totalidade infinita de universos que coexistem no Multiverso.

Mas isso não acontece em Dark. Lá não existe multiverso, apenas o tempo contínuo e imutável e todas as suas atitudes já foram predeterminadas e foram justamente elas que o levaram para onde está. Na Filosofia, o determinismo afirma que nossas escolhas e ações nada têm a ver com livre-arbítrio, mas acontecem por relações de causalidade. Segundo essa teoria, qualquer acontecimento ocorre de forma conexa a outros de maneira já fixada, tudo está interligado, seja por leis da natureza ou por um plano sobrenatural. Assim, tudo acontece devido ao decurso natural, por uma causa específica, e devem, de fato, ocorrer. Os acontecimentos atuais tornam possíveis previsões de acontecimentos futuros, vez que todos os fenômenos estão interligados e que tudo já se encontra predeterminado, sendo, ainda, leis necessárias e imutáveis, em que as ações e o comportamento humano estão previamente determinados pela natureza, sendo a liberdade uma ilusão subjetiva inventada pelos seres humanos.

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Em Dark, os acontecimentos do passado estão interligados com o futuro e os personagens agem em um aparente livre-arbítrio, porém suas ações no futuro já encontram eco no passado e vice-e-versa, como no caso do personagem Mikkel, de 9 anos. Em 2019, Mikkel é o filho mais novo de Ulrich e Katharina e irmão caçula de Martha e Magnus, que o leva para a floresta junto com os amigos, onde ele acaba indo parar no buraco temporal e volta ao ano de 1986. Lá, ele conhece Hannah, com quem tem um filho, Jonas, que em 2019 é só um amigo de seu irmão mais velho, Magnus. Mikkel inclusive aparece nas fotos da escola, na turma do ano de 1986, pressupondo que seu desaparecimento já era algo predeterminado, não podendo nada ser feito a respeito. Inclusive Jonas é avisado (por ele mesmo no futuro), ao voltar para 1986, que caso ele regressasse com Mikkel para 2019, estaria pondo em risco sua própria existência (novamente o problema do Paradoxo do avô).

Quando Ulrick, pai de Mikkel, descobre o buraco de minhoca na caverna, este vai para 1953 e lá acaba sendo preso e uma reportagem com sua foto sai no jornal, jornal este que é encontrado pela delegada Charlotte, em 2019, que começa a entender todo o quebra-cabeças temporal. Diversos outros acontecimentos na trama de série nos revelam que nada pode ser alterado, pois caso algo o seja (ou no futuro ou no passado), todos os efeitos perderiam a conexão com suas causas.

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A teoria filosófica do determinismo se ramifica em três espécies:

De acordo com o Predeterminismo, todos os efeitos estão intimamente conectados a suas causas, sendo considerado um determinismo mecanicista. A determinação se encontra no passado e ocasiona uma cadeia causal explicada por completo pelas condições iniciais. Para o pós-determinismo, as causalidades são fruto de um motivo específico, sendo a determinação vista no futuro e ligada a algo exterior, como uma divindade. Já para o Co-determinismo, todos os efeitos interagem entre si, resultando numa realidade em nível diferente das outras causas, como se um efeito de uma causa anterior se tornasse a causa de um novo efeito, gerando níveis de realidades diferentes. Neste caso, a determinação se encontra no presente ou na simultaneidade dos processos.

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Assim, a predeterminação nos fornece base para entender a falta de livre-arbítrio dos personagens em Dark. Porém, um personagem em especial possui a habilidade/liberdade de "passear" em diferentes épocas e intervir naquela realidade aparentemente imutável. Seria Noah um elemento chave para nos fazer refletir que estamos, na verdade, diante de um pós-determinismo? Já que é apresentado como uma figura religiosa (um padre), seria ele uma representação da divindade nos fazendo acreditar em um livre-arbítrio que não possuímos?

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Renato Collyer

Professor nas áreas de Direito, Ética e Sociologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Filosofia, Ciência Política, Direito Público, Direito Ambiental e Gestão Ambiental. Graduado em Direito e Sociologia. Um amante da Filosofia e da arte do pensar que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas. Apaixonado por Jazz, Rock e quadrinhos. Contato: [email protected]
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