renato collyer

Um amante da Filosofia, que se aventura na incessante busca pelo (verdadeiro) motivo das coisas.

Renato Collyer

Renato Collyer é professor da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais nas áreas de Sociologia e Legislação. É graduado e Mestre em Ciências Sociais e Direito, possuindo especialização em Direito Público, Política e Filosofia. Tem diversos artigos publicados na internet. É autor dos livros "A Mídia e o Menor Infrator: a (re)construção da opinião pública pelo telejornalismo sensacionalista sob a perspectiva luhmanniana" e "Sociologia Contemporânea: introdução ao pensamento sociológico".
E-mail: [email protected] / Instagram: @prof.renatocollyer

O Capitalismo Cultural

Vilão para muitos e salvador para outros, ao longo do tempo, o capitalismo se apresentou de diferentes formas, o que acarretou em profundas transformações no espaço geográfico das sociedades. Passando pelo capitalismo comercial, industrial e financeiro, estamos diante, desde os anos finais do século XX, do chamado Capitalismo Cultural


O mundo ficou menor a partir do período conhecido como Guerra Fria. As últimas décadas do século XX alteraram profundamente o panorama político, econômico e ideológico mundial, fenômeno esse que ficou conhecido como Globalização (ou mundialização, como os franceses preferem chamar).

A globalização revela-se como um processo de aprofundamento da integração econômica, política, social e cultural. Tal processo foi impulsionado, principalmente, pelo barateamento dos meios de transporte e de comunicação. Mas por que falar de globalização se iremos tratar sobre capitalismo? Justamente porque a globalização se mostrou como o principal propagador do capitalismo em sua atual fase.

Vilão para muitos e salvador para outros, ao longo do tempo, o capitalismo se apresentou de diferentes formas, o que acarretou em profundas transformações no espaço geográfico das sociedades. Passando pelo capitalismo comercial, industrial e financeiro, estamos diante, desde os anos finais do século XX, do chamado Capitalismo Cultural.

Muito além da especulação financeira, da formação de mercado de ações e sua especulação no que diz respeito a valores, taxas e juros, nesta fase, o que se propaga (ou impõe) é a cultura, aqui posta não em seu conceito ontológico, formulado por Edward B. Tylor, como “todo o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Essa imposição tende a globalizar uma única cultura, a cultura do capital, a cultura ideológica dos grandes aglomerados empresariais.

No período pós Segunda Guerra, Estados Unidos e União Soviética foram os protagonistas de uma guerra ideológica. Com a divisão do mundo em dois blocos ideologicamente distintos, cada país desejava aumentar sua influência e participação nas decisões globais. Se de um lado estavam os países partidários da economia de mercado e da democracia política, do outro tínhamos aqueles adeptos à economia planificada e à hegemonia de um único partido.

O mundo passou a assistir um embate entre Estados Unidos e União Soviética, um embate entre Capitalismo e Socialismo, que se manifestou, notadamente, na rivalidade técnico-científica, em que a corrida espacial representou, sem dúvida, o momento mais vibrante desta disputa.

Depois da vitória americana na corrida especial, a União Soviética se viu economicamente devastada. A economia planificada estatal não conseguira uma indústria de consumo forte e eficiente, produzindo, assim, mercadorias de baixa qualidade e obsoletas. A queda do muro de Berlim, em 1989, a reunificação da Alemanha, e a renúncia, em 1991, do secretário-geral do partido comunista, Mikhail Gorbatchov, culminaram no fim da Guerra Fria.

berlin-wall-reference-548158715.jpg O Muro de Berlim estendia-se por toda a cidade e estava protegido por minas terrestres, cães e arame farpado para desencorajar as tentativas de fuga. Ainda assim, 5000 pessoas conseguiram fugir. Na foto, alemães ocidentais escalam o Muro de Berlim perante os guardas da Alemanha de leste, quando o Muro caiu, em novembro de 1989 (Imagem: Google Imagens)

Sob esse plano de fundo, a globalização surge (ou se intensifica) como um conjunto de mudanças nas relações de trabalho, no papel do Estado, no processo da produção de riquezas, e, consequentemente, nas formas de dominação sociocultural. O período pós década de 1970 representou uma mudança na postura das empresas, que, com a livre circulação do capital, buscaram uma participação maior no mercado mundial.

Um dos fenômenos mais marcantes deste período foi a exportação não somente de produtos, mas dos hábitos de consumo e do modo de vida dos países mais desenvolvidos, em que marcas conhecidas mundialmente e grandes redes de supermercados e fast food passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas, principalmente dos cidadãos dos países ainda em fase de desenvolvimento.

Ao mesmo passo que a globalização proporcionou a acessibilidade a produtos e bens de consumo para os indivíduos, não importando sua nacionalidade, algumas questões precisam ser consideradas, como a descaracterização das culturais locais desses indivíduos.

Como nos ensina Ricardo Jorge da Silva (2004, p. 594): "É no decorrer do século XX que o movimento da mundialização forma-se completamente. No campo da cultura, tal movimento engendra ‘diásporas culturais’. Há uma produção de gostos, crenças e hábitos que transcendem as fronteiras nacionais. As feições culturais diaspóricas apresentam aspectos estandardizados, que são em larga medida fortalecidos pela manifestação midiática. Um exemplo emblemático é o que estudiosos começam a definir como internacionalização dos comportamentos alimentares. Esse processo traduz-se em dois pontos: primeiro, a pluralização dos produtos, ou seja, uma área não se caracteriza mais por uma quantidade restrita de alimentos cultivados localmente; segundo, a transformação da cozinha tradicional (pratos típicos) para uma outra, industrializada, cujos alicerces estão na produção em alta escala. Isso não significa que pratos reconhecidos tradicionalmente deixem de existir; porém, assumem uma nova conotação. A sofisticação que requer uma verdadeira pizza italiana torna-se inadequada à valorização do tempo pelos vorazes consumidores que frequentam Shopping Center. Na verdade, os alimentos perdem sua territorialidade e são deslocalizados em proporções globais. A esse respeito, é sugestivo a caso da empresa McDonald’s".

Nesse sentido, o que existe é o desprezo pelas culturas locais em benefício de culturas consideradas globais. Comunidades que até então possuíam identidade e cultura próprias passam a ser influenciadas por uma outra cultura, uma cultura sem rosto, sem identidade, sem história. Hábitos alimentares até então enraizados no seio de uma coletividade são substituídos por pratos rápidos e comerciais e de qualidade duvidosa. Não somente alimentos, mas o uso da língua e o desprezo pelas tradições e costumes locais são marcas deste fenômeno.

Nesse novo cenário “mundializado”, a meta a ser alcançada é tornar-se cada vez mais igual à cultura hegemônica. As culturas com menor poder de participação vão sendo engolidas pela cultura global que possui maior influência na vida dos indivíduos e (principalmente) no mercado mundial. Dá-se espaço para uma cultura vendável e lucrativa.

Com a mundialização cultural, o que passa a existir são relações moldadas por transformações sociais que superam as barreiras da convivência regional. Com a presença de multinacionais nos países subdesenvolvidos, a vida cotidiana dos cidadãos sofreu profundas transformações, em que a uniformização cultural foi a saída mais fácil e cômoda para despir o indivíduo de sua cultura regional, tida como inferior, para forçá-lo a filiar-se à cultura global, tida como superior.

Nesse sentido, a adoção da língua inglesa como idioma planetário é necessária justamente por dar sentido aos símbolos globalizados, em que toda a indústria cultural faz uso deste idioma para implantação de seus conceitos.

A mídia no Capitalismo Cultural

A palavra mídia tem origem do latim media, que significa meio. Podemos encontrar algumas interessantes definições para o termo nos dicionários. O dicionário Michaelis, muito utilizado por estudantes e pelo público em geral, traz a definição de que mídia é o meio ou veículo de divulgação de algum assunto, ou mesmo qualquer material físico que possa servir para o armazenamento de dados.

Daí se pode tirar a conclusão de que podemos considerar como mídia cds, fitas, cd-rom ou qualquer outro material que possa ser inventado no futuro que tenha a função de armazenar algum tipo de informação. Também podemos considerar como veículo de comunicação, por exemplo, a televisão, jornais e revistas, sendo a primeira tida como mídia eletrônica e as demais, mídias impressas.

Outro famoso dicionário, o Aurélio, esclarece que podemos chamar de mídia todo suporte de difusão de informação, como rádio, televisão, imprensa, publicação na internet e diversas outras formas. Os recursos da etimologia, entretanto, servem apenas como ponto de partida na tentativa de esclarecer o real significado da mídia dentro do contexto da sociedade contemporânea brasileira.

De acordo com os dados da 25ª Pesquisa Anual Sobre o Uso de Tecnologia da Informação, realizada pela Fundação Getúlio Vargas, divulgada em 24 de abril de 2014, 97% da população brasileira possui, pelo menos, um aparelho de televisão em casa, ultrapassando a média mundial de 72%. Segundo o coordenador da pesquisa, professor Fernando Meirelles, “o Brasil vai chegar a uma televisão por habitante neste ano”.

A pesquisa revelou também que o Brasil já supera os Estados Unidos na quantidade de telefones por habitantes. No Brasil, o índice é de 158%, enquanto que nos Estados Unidos é 156%, muito acima da média mundial de 115%. A explicação do aumento do número de aparelhos no Brasil, mais de 3 a cada 2 habitantes, estaria no fato da população de baixa renda ter ganhado mais poder de compra nos últimos anos e na política de não tarifação entre as mesmas operadoras. No caso de computadores, incluindo notebooks, desktops e tablets, a pesquisa da FGV revela que atualmente 67% da população brasileira tem um computador. Índice este abaixo da média mundial, que é de 72%. A venda de tablets são destaque no mercado, que vem crescendo em ritmo superior a de notebooks e desktops. Somente em 2013 foram vendidos aproximadamente oito milhões.

Segundo outra pesquisa, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil e divulgada em junho de 2014, 42,5 milhões de brasileiros acessam a internet pelo celular. Para se definir alguém como usuário de internet é usado o parâmetro internacional, qual seja, a pessoa deve ter acessado a rede pelo menos uma vez nos últimos três meses. Na pesquisa, 51% dos entrevistados haviam acessado, revelando um número de 85,9 milhões de usuários de internet no Brasil, independente do meio utilizado.

Capitalismo e mídia: a receita perfeita para a disseminação da mundialização e dominação ideológica

Com a quarta fase do capitalismo, o cultural, estamos diante da imposição da ideologia de consumo, em que as grandes empresas não apenas divulgam um produto, mas o conceito de sua marca. Nesse sentido, você só é um esportista de verdade se faz uso de determinada marca de tênis ou só é uma pessoa aceita num determinado grupo de pessoas se usa determinada marca de telefone celular, como no caso do aparelho celular iPhone, da empresa Apple, febre entre os jovens de classe média, mas presente também no meio social de jovens de baixa renda, que desejam sustentar uma aparente condição financeira.

Vencida a fase da especulação do capital, o alvo das empresas (principalmente com o avanço da internet, pós anos 2000) tem sido o desejo de consumo dos indivíduos, que é constantemente alimentado por uma indústria cada vez mais aquecida, em que novos produtos são despejados no mercado todos os dias.

unnamed-28.jpg Obsolescência programada é a decisão do produtor propositalmente desenvolver, fabricar, distribuir e vender um produto para consumo de forma que se torne obsoleto ou não funcional especificamente para forçar o consumidor a comprar a nova geração do produto (Imagem: Google Imagens)

A obsolescência programada é uma grande aliada para que esse fenômeno ocorra de forma cada vez mais forte. Trata-se de uma estratégia adotada por algumas empresas que programam o tempo de vida útil dos produtos, para que esses durem menos que a tecnologia permita, forçando, assim, os consumidores a comprarem um modelo novo, pois o que possuem já se tornou ultrapassado, seja pela vida útil que foi reduzida, seja pela falta de peças de reposição que são propositalmente retiradas do mercado.

Mesmo não sendo uma prática nova (ela vem sendo adotada desde a década de 1930, conhecida como “descartalização”), a obsolescência programada atingiu um nível ainda maior com a modernização do processo industrial e a adoção de mão de obra barata dos países em desenvolvimento tardio. É bem verdade que todo o processo tecnológico trouxe diversos benefícios, como o estreitamente das relações e a velocidade com que as informações são repassadas a diferentes pontos do planeta. Mas também é verdade que talvez estejamos diante da mais devastadora faceta do Capitalismo, em que, ainda que silenciosamente, a mídia tem exercido uma forte influência no poder de decisão do consumidor e na consequente consolidação do modelo cultural dominante, que despreza a cultura regional, tida como inferior.

Nesse sentido, é preciso que se avance sim, mas para uma globalização “rica”. Explico. Um processo de globalização “rico” (ou benéfico) leva em consideração o processo histórico-social de cada nação e povo, e não simplesmente despreza a cultura e a tradição de uma região. A globalização rica distribui a cultura e os bens de todos para todos. A globalização “pobre” (a que está vigente e que é mais lucrativa para as grandes empresas) distribui uma única cultura (preferencialmente a norte-americana) para todas as nações como sendo a única certa e que vale a pena ser experimentada.

https___hypebest.com_image_2019_12_coca-cola-insiders-club-subscription-service-info-1-1170x720.jpg Propriedade Intelectual é a área do Direito que, por meio de leis, garante a inventores ou responsáveis por qualquer produção do intelecto (seja nos domínios industrial, científico, literário ou artístico) o direito de obter, por um determinado período de tempo, recompensa pela própria criação. A Marca é um sinal distintivo que identifica certos bens ou serviços os quais são produzidos ou prestados por uma determinada pessoa ou empresa (Imagem: Google Imagens)

Diferente do período da Guerra Fria, em que a ideologia norte-americana era massivamente disseminada com o intuito de conseguir mais aliados para o eixo ocidental, vivemos o período em que a ideologia imposta é a defendida pelas grandes empresas, em que mais importante que o próprio produto é a marca. Podemos pegar como exemplo a empresa Coca-Cola, no qual a sua marca (propriedade intelectual) vale mais que toda a soma de seus ativos, desde produtos, maquinários a fábricas.

Assim, deve-se estar com os olhos voltados à tecnologia e ao desenvolvimento dos povos, mas sem esquecer que cada nação tem sua própria história e que a construção de sua cultura se deu por um longo processo, que deve ser respeitado. Não podemos e não devemos esquecer que a diversidade dos povos é o que faz dos indivíduos, como construtores de sua própria história, seres tão singulares e especiais. Essa singularidade deve ser respeitada e o compartilhamento cultural (e não a imposição) talvez seja o primeiro passo para a mudança do status quo.

Consumismo: o que não nos contaram sobre o Capitalismo

A ideia parecia inicialmente boa e relativamente promissora e inofensiva. Pelo menos para os que a propuseram. O modo de produção industrial, seguida pela não intervenção econômica do Estado foram o ponta pé inicial para o cenário que teve seu auge nos últimos anos do século XX. Mas comecemos por esclarecer alguns conceitos importantes, já que nossa intenção é desmistificar que o Capitalismo seria o resultado final da nossa caminhada como humanidade rumo a um sistema econômico final.

Inicialmente, veio o modo de produção. Atrativo, tentador e eficaz. Bastava ter o capital para investir. O problema é que poucos detinham esse capital, fruto de um sistema que já vinha se perpetuando desde o final do período do medievo. Não raras as exceções, algumas pessoas conseguiam mudar de status e alcançavam certa projeção num sistema quase que estamental.

Mas no cenário ainda germinativo do Capitalismo, uma grande ideia chamada Liberalismo foi essencial para sua bem sucedida implantação. A doutrina liberal defende a liberdade política e econômica, ou seja, é contra o controle do Estado na economia e na vida dos indivíduos. Nesse sentido, o Estado deve conceder liberdade às pessoas e agir somente quando há lesão por parte de algum dos membros da sociedade (chamado de Princípio do Dano).

As raízes do Liberalismo surgiram no século XVII, quando ainda vigorava o Absolutismo como regime político em praticamente todos os governos do continente europeu, em que o rei era considerado o legítimo representante de Deus na terra, tendo primazia para decidir sobre todas as questões que envolvessem o reino. Gradualmente, as ideias iluministas foram ganhando espaço num cenário em que a burguesia se lançava ao mundo para o comércio e fazia uso de seus próprios recursos para atingir seus objetivos, abrindo novas possibilidades de relações de comércio e fugindo também do jugo religioso, ainda presente.

A Revolução Burguesa do século XVII fez surgir uma nova realidade em que a organização da sociedade era baseada na propriedade privada. Diversos pensadores da época se esforçaram em criar teorias que justificassem o mundo que se transformava, surgindo um ponto essencial do pensamento liberal: a ideia de que as pessoas já tinham sua individualidade formada antes de perceber sua existência na sociedade. Assim, para o pensamento liberal, o homem estabelecia uma relação entre seus próprios valores e a sociedade.

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A nova ordem liberal trouxe a proposta de que todos podem alcançar um alto nível de prosperidade de acordo com seu potencial, aplicando seus valores e conhecimentos, com elevado grau de liberdade, numa sociedade que reduza os níveis de conflitos sociais.

Mas como justificar isso? A justificativa encontrada pelos pensadores da época encontraria guarida no fato de que os governos não são capazes de representar os interesses de toda a sociedade, defendendo, portanto, apenas os interesses de determinados grupos de pressão.

O Liberalismo que descrevemos aqui, chamado clássico, prevaleceu nos países mais desenvolvidos durante todo o século XIX e início do XX. Mas devido à quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, o regime antes preferido por essas nações ficou em segundo plano, ofuscado em parte pela doutrina revolucionária socialista, para reaparecer no final do século como Neoliberalismo.

As economias capitalistas são realmente baseadas em livre comércio?

A ideia de que todos fazem escolhas livres o tempo todo precisa ser analisada com cautela, pois não se trata de uma verdade. Nossas escolhas não podem sem consideradas livres quando são atreladas às pressões da competição. Como seres humanos, nos sentimos exaustos, sozinhos e em busca de um significado para vida, como se não estivéssemos no controle dela. E realmente não estamos, mas o mercado está. Esse pode parecer um cenário bastante pessimista, mas é mais verdadeiro do que pensarmos que tudo está muito bem do jeito que está.

Basta lembrarmos que o Capitalismo teve início quando o acesso à terra foi retirado dos camponeses britânicos e, com isso, seus meios de subsistência, tornando-os dependentes do mercado para sobreviver. Sem propriedades, foram obrigados a vender a única coisa que tinham à disposição: sua força de trabalho. E tudo isso acaba virando um círculo vicioso, pois até os donos dos meios de produção não são livres, vez que o mercado impõe o imperativo de acumular capital ou “quebrar”.

E onde o consumismo entra nisso tudo? Você compraria algo (que não precisa) apenas pela simples vontade ou desejo de possuir este objeto? Até que ponto seus desejos manipulam suas ações? Como a sociedade tem se transformado, cada vez mais, em uma sociedade de consumo? Não consigo imaginar um lugar mais propício para o afloramento dos desejos de consumismo que um Shopping Center. As lojas com suas vitrines iluminadas, anúncios de promoções e descontos e suas fachadas chamativas são uma verdadeira tentação para pessoas que gostam de comprar pela simples vontade de matar um desejo consumista. É o comprar pela vontade de comprar, sem nenhuma necessidade objetiva do objeto desejado.

Mas talvez belas lojas e vitrines enfeitadas não chamem sua atenção. Mas o ponto aqui não são as lojas, nem o consumo em si, mas a questão do desejo. Quem sabe, diferente de muitas pessoas, seu ponto fraco não seja o consumismo. Quem sabe você é daqueles que não abre mão de sair todas as noites para se divertir, ou não resiste a um belo e apetitoso hambúrguer.

Será que nossos desejos nos manipulam, nos fazendo tomar determinadas decisões que não tomaríamos caso esse desejo não existisse? Será que o aparente e inofensivo desejo de possuir algo condiciona nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e nosso círculo de relacionamentos?

Para o filósofo Arthur Schopenhauer é exatamente isso que acontece. Para ele, somos marionetes de nossos próprios desejos. E, para nossa infelicidade, não há muita coisa que possamos fazer para mudar isso. Schopenhauer nasceu em 1788, em Danzig, na Prússia, e sua filosofia é comumente associada à própria imagem de seu criador: uma pessoa com personalidade forte e palavras amargas sobre a vida e a condição humana. Se desagradável como pessoa, Schopenhauer tem um escrita fascinante.

Escreveu sua principal obra aos 30 anos, intitulada O Mundo como Vontade e Representação, mas sem lograr êxito no início (livro que, após sua morte, passou a ser considerado uma das obras chave da Filosofia ocidental). Durante anos, Schopenhauer não parou de atualizar sua obra, que ganhou uma nova versão com um segundo volume de notas e aditamentos em 1844.

No livro, Schopenhauer declara que a realidade tem dois aspectos, vontade e representação, sendo a primeira a força cega encontrada em todas as coisas e a representação, a construção da realidade em nossa mente, ou seja, a maneira que encontramos para dar um sentido a todas as coisas que nos cercam. O conceito de representação se encontra na filosofia de Kant com outro nome, o mundo fenomênico.

A vontade é cega, pois não a controlamos. É uma força única por trás de tudo. Em nada tem a ver com a ideia de Deus ou de um ser superior. Para Schopenhauer, não há alguém que a direcione. Já a representação é o mundo em que vivemos, como vivenciamos e sentimos nossas experiências.

Mas, ainda que tenhamos, segundo o filósofo, esta propensão ao consumismo, ele é potencializado pela mídia, presente num sistema dominado pelas preocupações de ordem material, em que os apelos do Capitalismo saltam aos olhos. Não à toa, nossa sociedade é conhecida como a sociedade de consumo, em que o período pós-Revolução Industrial proporcionou um grande aumento da escala de produção e circulação de mercadorias, modificando o mundo significativamente.

É preciso que se tenha a noção de que por mais que tenhamos naturalmente uma propensão a consumir para saciar determinada vontade (em algumas pessoas esse desejo é menor ou maior), devemos estar atentos aos apelos da mídia e do Capitalismo Cultural. Nossa intenção neste texto não foi, de modo algum, esgotar a discussão, mas abri-la sob um enfoque diferente.


Renato Collyer

Renato Collyer é professor da rede pública de ensino do Estado de Minas Gerais nas áreas de Sociologia e Legislação. É graduado e Mestre em Ciências Sociais e Direito, possuindo especialização em Direito Público, Política e Filosofia. Tem diversos artigos publicados na internet. É autor dos livros "A Mídia e o Menor Infrator: a (re)construção da opinião pública pelo telejornalismo sensacionalista sob a perspectiva luhmanniana" e "Sociologia Contemporânea: introdução ao pensamento sociológico". E-mail: [email protected] / Instagram: @prof.renatocollyer.
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