repensar

Para que o óbvio não seja esquecido

William Felipe Zacarias

A Teologia é o meu pressuposto. A Filosofia é meu esporte. A Arte é a minha essência.

A vida deve ser repensada

A morte de Deus enuncia a liberdade do ser humano. Os dogmas religiosos são substituídos por dogmas da vontade própria. A vida passa a ser vivida a partir dela mesma e não com alvo ou objetivo. A vida subjetiva torna o homem o novo “Deus”, criado conforme seus prazeres e vontades. Esta é a proposta que o teólogo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) propõe quando anuncia o evangelho (a boa nova) do ewige Wiederkehr des Gleichen, i. é, o eterno retorno do mesmo.


Eterno-Retorno-do-Mesmo.jpg

O proeminente filósofo italiano Gianni Vattimo (1936- ) interpreta o Eterno Retorno de Nietzsche e faz um diálogo com ele. A vida sem objetivo é a única digna de ser vivida. Desde os grandes filósofos gregos Platão, Sócrates e Aristóteles, perpassando também o cristianismo, a história foi vista como linear: ela inicia e terá um fim. Os seres humanos possuem um início e um fim específico nesta linha temporal: assim como tudo, também o ser humano nasce e morre. Contudo, para que o fim não seja o fim, o pensamento cristão propõe uma salvação que transcenda o cosmos material para uma eternidade rumo ao infinito imaterial. Assim o ser humano é como tal para sempre. A matéria orgânica presente no seu corpo é ressuscitada e passa a ser ela mesma e organizada na mesma pessoa igual já fora em vida no mundo físico. A vida é vivida com um claro objetivo: a eternidade. Toda a vivência física e moral é organizada a partir deste alvo: a eternidade, uma salvação que vem ao ser humano de fora para dentro. No pensamento cristão, por causa daquilo que Jesus Cristo realizou no passado, tem-se a certeza e a esperança de um claro alvo: uma eternidade baseada no passado finito.

Gianni-Vattimo---Curitiba.jpg Gianni Vattimo no 2º Capítulo do Festival Literário Litercultura em Curitiba no dia 8/6/2015.

Nietzsche entra em uma profunda crise com este sistema. Lembro-me de quando eu era um adolescente e um proeminente professor de ciências da escola pública, cujo eu estudava, anunciou no primeiro dia de aula da oitava série uma frase instigante: “na natureza nada se cria, nada se perde; tudo se transforma.” Mais tarde descobri que o autor desta frase foi o químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794). O que isto tem a ver com o assunto? Ao contrário do que o cristianismo pregava até então, a matéria não pode ser criada do nada como afirma Gn 1-2, mas também não pode ser perdida para um além metafísico: toda matéria se transforma e é limitada ao aqui. Neste caso, a ascensão de Jesus Cristo não poderia ter acontecido, pois a matéria que constituía seu corpo foi perdida do universo. Por conseguinte, a ressurreição do corpo, conforme os Credos Apostólico (séc. II), Niceno-Constantinopolitano (séc. IV.) e Atanasiano (séc. IV) não poderá acontecer, pois o universo não permite a perda de matéria, mas apenas a sua transformação.

Em todo caso, também para Nietzsche não há um objetivo para o ser humano. Em síntese, não há nada. Nietzsche propõe uma ruptura com o pensamento cristão e caminha a favor da compreensão dos filósofos pré-socráticos sobre o tempo. Para os filósofos gregos pré-socráticos, o tempo não é linear, mas circular. Ou seja, sempre retornam a acontecer as mesmas coisas que já aconteceram e que estão para acontecer. Na compreensão circular de tempo, não existe passado e futuro, mas tão somente o instante. Todavia, o dogma fundamental lançado por Nietzsche com esta filosofia é o nihil, i. é, o nada, o vazio.

Uma história ou um tempo circular não possui início ou fim. Em outras palavras, o tempo circular não possui objetivo. Sem objetivo, o tempo circular elimina qualquer sentido, significado ou alvo. No tempo circular, não há espaço para o Lógos. O que resta? Nada! Resta um ser humano sem qualquer sentido para a sua vida que vive e apregoa o niilismo. Vive-se o nada a partir do próprio nada.

O único tempo que existe é o presente. “o instante traz consigo todo o passado e todo o futuro: cada momento da história torna-se decisivo para toda a eternidade.” Em cada instante a existência começa... o centro está em toda parte.” (VATTIMO, 2010. p. 44). A história é um eterno repetir do mesmo, um ciclo interminável sem início e sem fim.

Para isso, Nietzsche parte do pressuposto de que a matéria é finita e não poderia viver eternamente com o tempo: em algum momento, a matéria iria se extinguir enquanto o tempo continuaria. Obviamente, há aqui uma discrepância entre tempo-espaço que na astrofísica de Albert Einstein (1879-1955) passam a ser vistas como uma só realidade e não duas. Mas o que Nietzsche detectou é que uma história circular, esta sim, é capaz de abranger a matéria finita dentro do infinito. A matéria simplesmente se transforma dentro do tempo que se repete a cada instante.

O ser humano é, portanto, uma eterna repetição dele mesmo. Somente é digno de viver esta eternidade cíclica quem justamente se achar digno para tal, pois “só quem considera a própria existência apta a se repetir eternamente sobrevive.” (VATTIMO, 2010. p. 10). A consequência moral deste pensamento é o encontro de si mesmo para uma eterna repetição. Cada atitude no instante deve ser digna afim de que se repita eternamente.

O ser humano enquanto integrante do eterno retorno do mesmo no tempo circular não possui valor, sentido ou significado. Ele vive e é um vazio rumo ao nada. É neste ponto que desejo chegar com este artigo: quando Nietzsche substituiu a valoração do homem por valor nenhum, Nietzsche fez com que o ser humano e o cosmos ao seu redor percam sua dignidade. A vida sem objetivo é uma vida do nada, em nada e para o nada. O ser humano deixa de ser humano, tornando-se tão somente um ser como o restante dos seres. O outro deixa de ser visto como outro para ser visto como nada. A desvaloração do homem produz indignidade. O outro não possui nada a ver comigo. Não há sentido para a existência, pois a existência se alimenta do nada.

Esse niilismo é o principal dogma da pós-modernidade. As artes, a música e até mesmo a ciência perdem valor. Disto resulta uma cultura altamente orgíaca e hedonista. O dogma do carpe diem (aproveite o dia) é a exata síntese do pensamento do eterno retorno do mesmo de Nietzsche onde o que resta é “curtir o instante” para que se torne digno de se repetir. Viver sem rumo é um reflexo de uma vida sem passado. A história passa a ser vista como doença a ser eliminada. Por incrível que pareça, caro leitor, até mesmo igrejas cristãs tem considerado a história como doença, retirando velhos altares e púlpitos e substituindo-os por móveis úteis e que não atrapalham o espaço, exatamente como prega a escola pós-moderna de Bauhaus. Sem história não há futuro, sem futuro, só há o presente. Havendo somente o presente, o hedonismo se torna dogma.

Para finalizar: talvez tenha sido confuso ao leitor as ideias aqui digitadas. Em síntese, grande parte da violência, do uso de drogas, das doenças sexuais, das gravidezes indesejadas e da sexualidade desenfreada, como no carnaval, são produtos diretos do eterno retorno do mesmo de Nietzsche onde a única coisa que tem valor é o instante que, por sua vez, precisa ser “curtido” ao máximo. Esta “curtição” é uma forma de viver a eternidade agora (Cf. MAFFESOLI, 2004. p. 161). As músicas da americana Katy Perry ou do brasileiro MC Dudu expressam muito esta sexualidade como vivência do instante, conforme os vídeos abaixo (atenção: conteúdo adulto).

Em síntese, como cristão irei aqui apontar para uma vida que não vive o vazio, mas que recebe valor a partir do Deus que se fez fraco (Fp 2.5-11), do Deus que morre! Para que eu, como teólogo cristão, não seja suspeito em minhas palavras, uso as letras do brasileiro Clóvis de Barros Filho em um de seus livros mais populares: “o abestado, o monstruoso, o fraco, o raquítico, o deficiente. Graças ao pensamento cristão, todos esses passam a ter a mesma dignidade que o forte, o belo, o extremamente inteligente, o competente, o astucioso, o deslumbrante (...). O pensamento cristão inaugura a ideia de igualdade.” (BARROS FILHO, Clóvis de, 2015. p. 114). Neste sentido, a partir do pensamento cristão, o outro não é um outro qualquer, sem sentido e vazio, mas é alguém com valor e sentido. Quando Deus se faz fraco, os fracos ganham valor e dignidade tal como os fortes. Quando há sentido para a vida, evita-se a violência, as drogas e a sexualidade desenfreada. Qual o critério para esta vida? O amor: “amai a Deus, o próximo e a ti mesmo.” (Cf. Mt 22.37-39; Mc 12.30-31; Lc 10.27; Jo 13.34). O amor torna o outro digno, impedindo que o que ama cometa violência contra ele ou contra si mesmo (homicídio, abuso sexual, drogas, etc.). Para ficar com o Vattimo, faço a citação literal de uma fala sua no Segundo Capítulo do festival literário Litercultura de Curitiba/PR no dia 8/6/2015 com o tema “Elogio ao Frágil”: “Se eu não fosse cristão, eu não estaria do lado dos fracos. Por exemplo, a kenosis em Fp 2.5-11: O cristianismo é o Deus que se humilha, isso é um pensamento débil, fraco. Para ser fraco, liga-se a esta tradição (...). Quando eu falo com meus amigos ateus, eles não negam Jesus Cristo, mas que a Igreja é uma porcaria que impõe poder sobre as pessoas.” Em síntese, cabe ao leitor escolher que vida deseja viver. Fato é que o ser humano e seu sentido é algo a ser repensado.

REFERÊNCIAS:

BARROS FILHO, Clóvis de. Somos Todos Canalhas. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015.

FESTIVAL LITERCULTURA, 2. 2015. Curitiba/PR. “anotações pessoais”.

MAFFESOLI, Michel. A Parte do Diabo. Rio de Janeiro: Record, 2004.

VATTIMO, Gianni. Diálogo com Nietzsche. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.


William Felipe Zacarias

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